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Sonda chinesa faz o primeiro pouso no lado “escuro” da Lua

E a China não está de brincadeira: enviou jipe, telescópio e até cobaias vegetais como batatas – que serão testadas como alimento para astronautas.

A Lua, nosso satélite natural, demora exatamente o mesmo tempo para dar uma volta em torno de si mesma (o movimento de rotação) e uma volta em torno da Terra (o movimento de translação). Ou seja: por lá, um dia dura 27 dias e um ano também dura 27 dias.

A principal consequência dessa sincronia – um fenômeno que os astrônomos chamam de acoplamento de maré – é que a Lua se mantém sempre com o mesmo lado virado para a Terra. Para entender, acompanhe o GIF abaixo. À esquerda, você vê a Lua de verdade. Note que as manchas mais escuras estão sempre voltadas na direção do círculo branco, que representa a Terra.

A Lua da direita é um contraexemplo, completamente fictício: mostra que, se os períodos de rotação e translação não fossem sincronizados, a Lua giraria como uma carne no espeto – e nós seríamos capazes de observá-la por completo, um lado de cada vez.

 (Stigmatella aurantiaca/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons)

Às 0h26 desta quinta-feira (3), horário de Brasília, a sonda chinesa não-tripulada Chang’e 4 fez algo que nem Júlio Verne imaginou: pousou do lado da Lua que não dá para ver da Terra. Esse hemisfério oculto costuma ser chamado de “lado escuro da Lua” em referência ao disco Dark Side of the Moon (1973), da banda inglesa Pink Floyd.

É bom já deixar claro que, apesar da má-fama, o lado supostamente escuro não é escuro. Ele recebe luz solar exatamente na mesma proporção que o lado claro. A quantidade de luz que cada metade da Lua recebe depende das fases. Quando é lua nova (isto é, quando o disco aparece escuro da perspectiva de um terráqueo), é porque o lado de trás está recebendo toda a luz – e deixando, por tabela, o lado da frente na sombra. A lua cheia é o fenômeno contrário: ocorre quando a parte da frente fica acesa e a de trás se apaga. 

Além de não ser escuro, o lado escuro não tem ETs inteligentes. Nem cidades selenitas medievais arruinadas. Nem dinossauros. Nem nenhuma outra fantasia conspiratória. Para falar a verdade, o lado escuro não contém absolutamente nada. Sua principal diferença em relação à parte visível do astro é o relevo, consideravelmente mais acidentado (mas igualmente cinza).

Pousar lá foi o primeiro feito realmente inédito do programa espacial chinês: nem os EUA, nem a Agência Espacial Europeia (ESA), nem a antiga URSS chegaram ao traseiro do satélite natural. Jim Bridenstine, administrator da Nasa, parabenizou os chineses no Twitter: “(…) Esta é uma primeira vez para a humanidade e uma realização impressionante.”

Foi um feito cheio de mistério. Ao contrário da Nasa – que costuma transmitir suas decolagens e pousos ao vivo e fornecer informações detalhadas aos jornalistas –, a Administração Nacional Espacial da China divulgou só o essencial, sem alarde. Nem mesmo o horário da alunissagem foi informado com antecedência. 

De acordo com o New York Times, a Chang’e 4 decolou na manhã de 8 de dezembro, enquanto era alta madrugada nas Américas. Seu destino, alcançado com sucesso, foi uma cratera de 186 km de diâmetro chamada Von Kármán, que fica próxima ao polo Sul. Além de conter recursos minerais valiosos – o que indica algum interesse na exploração econômica do astro –, a Von Kármén é um ponto de interesse científico. Suas rochas, um bocado antigas, podem comprovar ou desmentir hipóteses sobre a formação da Lua, quando o Sistema Solar ainda era bastante jovem. 

O hemisfério lunar visível por nós também contém crateras antigas, e a composição das rochas que formam essas crateras certamente teria algo a nos dizer sobre o nascimento do satélite. Mas boa parte delas foi coberta por fluxos de lava que posteriormente se solidificaram. Do ponto de vista técnico, é bem mais negócio extrair amostras de crateras que já estão expostas do lado de lá do que empreender uma escavação difícil do lado de cá.

Explorar a cratera em si será a função de um jipe de controle remoto de seis rodas, similar aos rovers americanos. Mas ele é só um dos três componentes carregados pelo módulo Chang’e 4 (cujo nome, caso você tenha se perguntado, é o da deusa da Lua na mitologia chinesa).

O segundo componente é um telescópio que capta ondas de rádio, em vez de luz no espectro visível: um radiotelescópio. Muitos fenômenos cósmicos emitem ondas de rádio, mas, quando elas chegam à Terra, acabam se perdendo no meio da enorme quantidade de ondas de rádio que já são produzidas pela humanidade. Para um astrônomo, o lado escuro da Lua é o paraíso: como lá não há absolutamente nenhuma fonte de emissão próxima para poluir, o equipamento pode se concentrar só nas emissões realmente valiosas, que chegam de longe.

O terceiro componente é uma cápsula cilíndrica de 18 cm de altura e 16 cm de diâmetro que contém brotos de batata, ovos de bichos-da-seda e sementes de uma plantinha da espécie Arabidopsis thaliana. A thaliana é importante porque é uma das cobaias favoritas dos botânicos: é o equivalente verde de um ratinho de laboratório. Já as batatas são um alimento potencial para futuras missões tripuladas (fala-se até em colonização definitiva, no caso da Lua). Os bichos-da-seda, por sua vez, estão lá para respirar o oxigênio produzido pela fotossíntese das plantas – formando uma espécie de estufa miniatura.

Tanto o interesse por recursos minerais quanto o uso de vegetais para fornecer nutrição e oxigênio no espaço indicam que a China não está de brincadeira. A cereja no bolo é um satélite de apoio, que foi lançado em maio e flutua a meio caminho entre a Terra e a Lua, repassando os dados enviados pela Chang’e 4 para o centro de controle na China. Seria impossível transmitir os dados em linhas reta, já que a Lua, por motivos já explicados, fica posicionada constantemente entre nós e a nave.

Boa sorte, Chang’e 4. Cuidado com os selenitas.