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Teletransporte

Partículas de luz e até átomos inteiros já foram transmitidos de um local para outro. Será que pessoas são os próximos da fila?

O teletransporte, hoje, é uma realidade. Pelo menos se você for uma partícula. Vá lá, pode até ser um átomo gordão que rola. Mas, se você é uma pessoa, é bem possível que jamais seja transportado instantaneamente, à la capitão Kirk.

Claro, há razão para otimismo. Até outro dia, não falaríamos sequer de teletransportar partículas. E, quando o fenômeno que hoje é usado para realizar essa “magia quântica” foi descrito pela primeira vez, lá pela primeira metade do século passado, foi visto com ceticismo pelas maiores mentes. Albert Einstein chamou o negócio de “ação fantasmagórica à distância”, só para tirar um sarro da ideia.

Mas, em 1997, um grupo de cientistas do Instituto de Innsbruck, na Suíça, demonstrou que o fenômeno quântico conhecido como “entrelaçamento”, em que duas partículas podem ter seus destinos ligados, é real. E foi por meio dele que a equipe realizou o experimento que ficou conhecido como “Beam me up, Scotty” (“Leve-me para cima, Scotty”), expressão corriqueiramente usada na série de TV Jornada nas Estrelas quando alguém requisitava ser teletransportado de volta à espaçonave. Usando o entrelaçamento, eles conseguiram teletransportar um fóton – uma partícula de luz. De lá para cá, muitos experimentos em várias partes do mundo foram conduzidos, demonstrando a efetividade da técnica para teletransporte quântico. Já fizeram com feixes inteiros de fótons, já fizeram com um próton (primeira partícula com massa, que “mora” no núcleo dos átomos), e o último feito, realizado no fim do ano passado, envolveu um átomo dos pesadões.

Faustão atômico

O glorioso átomo a ser teletransportado foi o itérbio (com nada menos que 70 prótons em seu núcleo). Mas a distância entre transportar um átomo gordão e um ser humano é gigantesca. E a razão para isso é que objetos grandes, embora compostos de partículas, comportam-se de forma diferente, seguindo as regras da chamada física clássica.

“O teletransporte quântico ocorre quando dois estados entrelaçados de duas partículas estão altamente correlacionados, de modo que é possível usar a interação com uma partícula para afetar a outra”, explica o físico Lawrence Krauss, da Universidade Estadual do Arizona. “Mas essa correlação quântica é muito frágil. É por isso que pessoas e outros objetos macroscópicos agem de forma clássica, e não como na mecânica quântica.” Em outras palavras, seria necessário medir os estados de todas as partículas que formam uma cadeira – ou uma pessoa – e conseguir que não haja nenhuma perturbação nessa quantidade astronômica de estados quânticos.

Por isso, os cientistas consideram, pelo menos por ora, muito improvável que o avanço das pesquisas culmine com o teletransporte de objetos de grande porte. Mas podemos fazer um exercício de imaginação e pensar que um dia chegaremos lá. Aí, caberá a pergunta: o teletransporte quântico é realmente transporte ou é a destruição de um objeto e a reconstrução de uma réplica em outro lugar?

É importante notar que, com as técnicas usadas hoje, apenas as informações contidas em cada partícula são transportadas. Ou seja, para transportar um átomo de itérbio, é preciso ter outro átomo de itérbio, que receberá as características do primeiro. Portanto, não são as partículas em si que desaparecem num lugar e reaparecem, mas só a informação que elas contêm é que viaja de um ponto a outro.

Então, a pergunta básica que devemos nos fazer para entender tudo isso é mais profunda: o que somos? Somos os átomos que nos compõem, ou somos as informações que esses átomos contêm? O filósofo Richard Hanley, nascido na Zâmbia e radicado na Austrália, pensou longamente sobre a questão. E, para ele, o que conta é a informação. Afinal, você ainda é o mesmo “você” que existiu quando você era criança, muito embora muitas das suas partículas de então tenham se perdido, e você tenha agregado muitas mais durante seu crescimento. O que mantém você como você seria a informação, mais ou menos constante e fluida ao longo de todo o processo.

Mas, claro, essa é apenas uma das conclusões possíveis. Não há nada de errado em atitudes como a do Dr. McCoy, que, nas aventuras de Jornada nas Estrelas, sempre temia o teletransporte e preferia alternativas convencionais de locomoção…