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Thwaites: “geleira do fim do mundo” pode elevar nível do mar em 70 cm

Para evitar uma tragédia, há um plano de US$ 50 bilhões para construir uma cortina no fundo do oceano e proteger esse pedaço da Antártica da água quente.

Por Maria Clara Rossini
Atualizado em 25 Maio 2024, 18h57 - Publicado em 12 abr 2024, 16h00

Nova York já começou a subir seu litoral. O projeto East Side Coastal Resiliency (“resiliência da costa do East Side”, ou apenas ESCR) está reconstruindo parques e áreas de convivência que ficam próximos ao mar no leste de Manhattan, elevando-os em dois metros e meio. O plano também prevê a construção de comportas em ruas estratégicas, que abrem e fecham conforme o risco de alagamento. Dessa forma, enchentes em bairros litorâneos não se estenderão para o resto da cidade.

Nova York é uma cidade bastante suscetível ao aumento do nível do mar. O furacão Sandy, em 2012, inundou 17% da cidade, causando um prejuízo de US$ 19 bilhões. Desde então, começaram a surgir vários projetos de adaptação às mudanças climáticas. O ESCR faz parte de um plano maior chamado BIG U, que protegerá os 60 mil moradores do sul de Manhattan – além dos bilhões em imóveis.

Países como Bangladesh não têm a mesma infraestrutura. Segundo o Banco Mundial, essa nação superpopulosa já perde US$ 1 bilhão por ano com enchentes e ciclones tropicais (1). Dois terços de seu pequeno território estão a menos de cinco metros acima do nível do mar, tornando-o um dos países mais vulneráveis à subida da água. Estima‑se que 20 milhões de pessoas ficarão desabrigadas até 2050. (2)

Essa crise existe por causa do derretimento do gelo no Ártico – especialmente na Groenlândia – e na Antártica. Dentre as geleiras que são vítimas do aquecimento global, uma recebe atenção especial dos cientistas: a geleira Thwaites, apelidada de Geleira do Fim do Mundo.

A Thwaites, localizada no mar de Amundsen, é a principal geleira da Antártica Ocidental. Ela tem o tamanho do estado do Paraná, e seu colapso completo poderia causar um aumento de 70 cm no nível do mar. Se outras geleiras próximas seguirem o mesmo caminho após o derretimento da mãezona, o aumento chegaria a três metros.

Não sabemos exatamente quanto tempo ela demoraria para derreter inteira, nem se ainda poderíamos impedir o colapso – ou se o processo já é irreversível. Só temos certeza de que o gelo está recuando. E rápido: o Thwaites já é responsável por 4% do aumento anual no nível do mar. Isso levou um pesquisador finlandês a bolar um projeto de US$ 50 bilhões para gelar esse picolé gigante – que já está sendo testado em laboratório.

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Foto aproximada da superfície de uma geleira.
(Ignacio Palacios/Getty Images)

Debaixo da coberta

Por baixo do gelo da Antártica, existe um continente. Um pedaço de terra onde você poderia caminhar, e que abrigou uma grande biodiversidade durante a maior parte da história. Agora, esse chão não está mais à mostra. Com exceção das ilhas ao redor da Península Antártica, pertinho do sul da Argentina, o solo está coberto permanentemente por uma camada de gelo de 2 km de espessura. (Em alguns pontos, ela chega a 4 km.)

Isso é resultado de milhões de anos de neve acumulada. A água que caiu do céu no começo do processo de acúmulo está até hoje armazenada nas regiões mais profundas, próximas ao solo antártico – e soterrada pelo gelo dos anos seguintes.

O nome que damos para esse montão de gelo é “manto”. Só existem dois grandes mantos no mundo. O primeiro é o da Antártica, com 13 milhões de km². E o segundo fica na Groenlândia, com 2 milhões de km² de extensão.

As geleiras são as bordas desses mantos de gelo, na interface entre o continente e o mar. Elas não são formadas por água do mar congelada, e sim por neve compactada ao longo de milhões de anos. A diferença de altitude entre o interior do continente e o litoral cria um escorregador gigante, que desloca lentamente o gelo do centro para as bordas da Antártica.

Infográfico mostrando onde a geleira Thwaites está localizada.
(Arte/Superinteressante)

Como a base do manto de gelo está grudada ao solo do continente, é natural que esse contato siga além da praia e se estenda pelo leito marítimo, terminando em um ponto de encontro chamado linha de flutuação. A partir desse ponto, a geleira se estende flutuando sobre o mar, sem encostar no chão. Às vezes, essa plataforma se quebra em blocos flutuantes – os icebergs.

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Essa explicação é importante para entender a preocupação generalizada com a geleira Thwaites. Para começar, ela é assustadoramente grande: tem o tamanho aproximado do estado do Paraná – 192 mil km² de extensão. E seus 4% de contribuição ao aumento anual do nível do mar tem potencial para crescer muito mais devido à localização delicada da geleira no continente.

Imagine a Antártica como um bolo. O continente é a massa, e o manto de gelo acima dele é o glacê. Se cortarmos esse bolo no meio, veremos que a superfície da massa é bastante desigual. É como se o lado direito do bolo tivesse crescido e ficado alto – mas faltou fermento para o lado esquerdo, que é baixinho. Ninguém percebe esse desnível por causa da cobertura quilométrica de neve compactada, mas ele está lá. O confeiteiro picareta usou o glacê para disfarçar.

Agora – abrindo mão da lógica culinária –, imagine que você colocou o bolo em uma bacia de água. Ela não chega a submergir toda a sobremesa. A água não atinge o glacê do lado alto, mas encosta na cobertura do lado do bolo que não cresceu, e a dissolve aos poucos. O glacê derrete com a água, descobrindo a porção esquerda da massa. O líquido, então, inunda esse espaço e deixa metade do bolo submerso.

Thwaites está no lado esquerdo do bolo, a porção mais baixa do território da Antártica. A geleira é o glacê que está se desfazendo aos poucos com o aumento das temperaturas médias da Terra. Correntes de água quente derretem esse imenso glaciar por baixo, desgrudando o gelo do solo marítimo. Desde 1992, a linha de flutuação do Thwaites já recuou 14 km (3) – e, em algumas regiões, a taxa de recuo chega a 1,2 km por ano. (4)

Infográfico mostrando o recuo do gelo da base da geleira Thwaites através dos anos.
(Arte/Superinteressante)

Esse é o primeiro problema. Com uma maior porção de gelo flutuando, ele fica mais suscetível a se quebrar em icebergs. E esses afundadores de Titanic derretem muito mais rápido, aumentando ainda mais o nível do mar.

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O que mais preocupa os cientistas, no entanto, é o cenário em que há um deslizamento acelerado da geleira inteira. Ela está cada vez menos aderida ao solo antártico. “Todas as projeções que temos para os próximos cem anos indicam que a água pode começar a entrar e lubrificar [a interface] do gelo com a rocha”, diz Jefferson Cardia Simões, vice-presidente do Comitê Científico sobre Pesquisa Antártica.

O colapso total da geleira Thwaites resultaria em um aumento de 70 cm no nível do mar. Parece pouco, mas temos que considerar que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) já prevê um aumento de 60 cm até o final do século devido a outros derretimentos, independentemente do Thwaites. E esse é o cenário hipotético em que a humanidade  cumpre o Acordo de Paris, mantendo o aumento da temperatura média do planeta em 2 °C até 2100. Em cenários piores, e infelizmente prováveis, o aumento chega a 90 cm.

Caso o Thwaites entre em colapso até o fim do século, o aumento total seria de 1,3 a 1,6 metros, o suficiente para inundar dezenas de grandes cidades litorâneas. Como tudo depende do quanto iremos reduzir as emissões de carbono da humanidade daqui em diante, não há como cravar um número preciso. A mensagem aqui é que esse único glaciar carrega, sozinho, uma tragédia equivalente a 100 anos de aquecimento global.

Não para por aí. A geleira Thwaites é só um pedacinho de um complexo maior: o manto de gelo da Antártica Ocidental. Como boa parte da porção oeste do continente está abaixo do nível do mar, cientistas acreditam que o colapso do Thwaites desencadearia uma reação em cadeia, tornando outras geleiras mais vulneráveis ao derretimento. Se todo esse manto de gelo virar água, veríamos um aumento de três metros no nível do mar. E nem nossas melhores simulações de computador dão conta de prever se ou quando isso vai acontecer.

Infográfico mostrando o revelo antártico.
(Arte/Superinteressante)

O centro das atenções

O Thwaites não era considerado relevante até pouco mais de uma década atrás. A geleira foi mapeada nos anos 1960, e batizada em homenagem ao glaciólogo americano Fredrik T. Thwaites. Mas foi só na virada para o século 21 que ela começou a chamar a atenção, quando imagens de satélite mostraram que o gelo estava fluindo para o mar rapidamente.

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As primeiras expedições à geleira aconteceram em 2008. Em 2014, estabeleceu-se a noção de que o Thwaites poderia estar entrando em um estado irreversível de derretimento e colapso. O potencial para estrago é tão grande que a revista Rolling Stone publicou uma reportagem em 2017 apelidando a geleira com a alcunha que conhecemos hoje: Doomsday Glacier, que é “geleira do apocalipse” ou “geleira do fim do mundo”.

Naquele mesmo ano surgiu um projeto cooperativo entre EUA e Reino Unido para estudá-la: a International Thwaites Glacier Collaboration (ITGC), que até hoje é a principal fonte de conhecimento sobre a geleira. Essa colaboração tenta entender a história do Thwaites, as mudanças pelas quais ele está passando e como se pode prever seu comportamento com modelos de computador. Assim, é possível pensar em esforços para mitigar o derretimento – ou preparar a humanidade para o colapso.

A ideia de um “ponto de não retorno” é comum quando se fala do Thwaites. Esse é o momento hipotético em que a geleira atinge um estado instável e irreversível de derretimento. “É a pergunta que estamos tentando responder: o Thwaites já entrou nesse estado? Ou ele ainda vai entrar, e em quanto tempo?”, diz Peter Davis, pesquisador do British Antarctic Survey e do ITGC. A resposta mais provável é que o Thwai­tes deve, sim, passar do ponto de não retorno – mas esse momento-chave não vai chegar tão rápido quanto achávamos cinco ou dez anos atrás.

Foto aproximada de uma geleira.
(Gitte13/Getty Images)

Sabemos disso graças a um submarino amarelo (ba-dum tss) chamado Icefin. Trata-se de um robozinho controlado remotamente que explora o que acontece por baixo da plataforma de gelo. A equipe do projeto MELT da ITGC – da qual Davis faz parte – usou água quente para cavar um buraco de 600 metros no gelo, acessando o mar subglacial. O submarino, então, pôde nadar por baixo da geleira e enviar dados sobre o derretimento para a equipe de cientistas.

Os resultados do Icefin foram publicados em dois artigos no periódico especializado Nature,  no início de 2023. (5) Ele revelou que o gelo por baixo do Thwaites não é homogêneo: existem estruturas em forma de escada, paredões verticais cavados por baixo da geleira, rachaduras e outras formas de relevo irregular em algumas regiões. A taxa de derretimento nesses locais é maior do que nas regiões mais planas – algo que não fazia parte dos modelos de previsão de derretimento até então.

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A boa notícia: nas áreas planas, o derretimento tem sido mais lento do que os cientistas imaginavam. A má notícia: a linha de flutuação – relembrando, o ponto em que o gelo desgruda do leito e passa a flutuar sobre o mar – continua recuando rapidamente. Descobrimos que o gelo por baixo do Thwaites é um sistema complexo, o que torna qualquer tentativa de previsão ainda mais desafiadora.

“A linha de flutuação atua como uma rolha de champanhe, um reforço que segura o conteúdo”, diz Davis. “Ela está sendo forçada a um limite, um estresse que essencialmente pode fazer o gelo todo escorregar de vez para o oceano.”

A incerteza em relação ao futuro do Thwaites é o que motivou a criação de um projeto bilionário para impedir – ou ao menos desacelerar – a chegada de água quente por baixo da geleira. Se executado, esse se tornaria o maior exemplo de geoengenharia da história.

Foto aproximada da superfície de uma geleira.
(Anton Rodionov/Getty Images)

Fechem as cortinas

“Se o manto de gelo da Antártica Ocidental colapsar, grande parte dos litorais do mundo se tornarão inabitáveis. Milhões de pessoas terão que se mudar a cada metro que o mar sobe. Para onde as pessoas de Bangladesh vão? Estamos falando de perder metade do país – ou mais.”

Quem diz isso é John Moore, o glaciólogo da Universidade de Lapland, na Finlândia, que idealizou um projeto ambicioso para frear o derretimento do Thwaites: instalar “cortinas” quilométricas no solo oceânico. Elas impediriam que a água mais quente oriunda de outras partes do oceano chegasse até a base da geleira, evitando o derretimento e o recuo da linha de flutuação.

Grosso modo, essa cortina ficaria presa a uma base de concreto no fundo do mar de Amundsen, e se manteria de pé e esticada até a superfície graças a boias amarradas às suas pontas. As peças precisam ser modulares e removíveis, para serem substituídas ao longo do tempo.

O que assusta é a grandiosidade do projeto: são 80 quilômetros de cortina, mais ou menos a distância entre São Paulo e Santos. Tudo isso seria instalado a 600 metros de profundidade. Moore e seus colegas estimam que o projeto custaria entre US$ 40 bilhões e US$ 80 bilhões, mais US$ 1 bilhão por ano para manutenção.

Infográfico mostrando o projeto de criar uma cortina no fundo do mar antártico.
(Arte/Superinteressante)

A proposta dividiu a comunidade científica. O argumento mais comum é que esse dinheiro poderia ser destinado a outros esforços. “Projetos assim não me convencem. Temos poucas evidências de que eles funcionariam”, diz Peter Davis. “Grandes projetos de geoengenharia são mais propensos a ter efeitos colaterais, que podem aparecer décadas depois […] Dadas as incertezas que permeiam projetos assim, nosso único foco deveria ser reduzir as emissões de carbono o mais rápido possível.”

Moore concorda que a prioridade é cortar as emissões, mas ele acredita que a cortina seria essencial para manter os lares das populações litorâneas do mundo todo, caso a geleira já tenha passado de seu limiar crítico. De toda forma, alguns anos de pesquisa ainda são necessários antes de colocar esse plano em ação. Seria preciso desenvolver materiais especiais para a cortina, avaliar seus possíveis impactos ecológicos e construir navios que suportassem o frio antártico para instalar a dita-cuja.

O projeto iniciou a fase de experimentação em tanques de água em fevereiro deste ano, na Universidade de Cambridge. São necessários US$ 10 milhões de investimento em pesquisa antes de passar para a fase de testes no mar. A partir daí, Moore acredita que os governos de países ricos deveriam se envolver. Não só porque eles foram os grandes responsáveis pelo aumento das temperaturas no mundo, mas também porque têm muito a perder com a elevação do nível do mar.

O futuro do tal projeto é tão incerto quanto o do Thwaites. Mas o consenso entre os cientistas – independentemente de acreditarem ou não em geoengenharia – é que precisamos reduzir as emissões de carbono e limitar o aumento da temperatura global agora, porque a humanidade não está pronta para lidar com as consequências. “Países da Europa encaram um caos político e social devido ao medo de imigrantes”, diz Moore. “O que vamos fazer com milhões de pessoas desabrigadas, oriundas de cidades litorâneas do mundo todo? É difícil ver como o sistema atual sobreviveria a esse tipo de pressão.”

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Referências: (1) Artigo “Urgent Climate Action Crucial for Bangladesh to Sustain Strong Growth“; (2) Bangladesh Centre for Advanced Studies; (3) Artigo “Grounding line retreat of Pope, Smith, and Kohler Glaciers, West Antarctica, measured with Sentinel-1a radar interferometry data“; (4) Artigo “Heterogeneous retreat and ice melt of Thwaites Glacier, West Antarctica“; (5) Artigos Suppressed basal melting in the eastern Thwaites Glacier grounding zone” e “Heterogeneous melting near the Thwaites Glacier grounding line“.

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