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Um princípio econômico pode explicar a evolução das cores em caudas de lagartos

Pesquisa brasileira tenta entender por que alguns répteis possuem caudas vermelhas – que trazem, ao mesmo tempo, vantagens e desvantagens ao animal.

Por Carolina Fioratti Atualizado em 22 out 2021, 18h51 - Publicado em 22 out 2021, 18h29

A teoria da seleção natural, proposta por Charles Darwin, diz que apenas os animais mais aptos sobrevivem. As espécies que hoje habitam a Terra, então, teriam evoluído na medida certa para prosperar.

Porém, não é tão simples olhar para um animal e entender logo de cara por que ele possui (ou não) certas características. Um exemplo são os lagartos com caudas coloridas: ao mesmo tempo que a traseira do bichinho pode ser útil para camuflagem, ela é também um chamariz para predadores.

Em economia, há um princípio que explica essa relação. É o trade-off, que acontece quando se escolhe uma opção em detrimento de outra. Ir a um encontro com o crush é ótimo – mas você talvez precise abdicar daquela reunião com os amigos, marcada para o mesmo dia. Em um jogo de damas, você pode abrir mão de uma peça para conseguir capturar duas na próxima rodada.

Segundo pesquisadores da da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), esse tipo de relação pode ser a chave para entender a cauda dos lagartinhos. Em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Universidade de Auburn em Montgomery, nos EUA, eles exploraram a função da cauda colorida nestes répteis, explorando seus custos e benefícios.

Desvendando as cores

A pesquisa foi publicada recentemente na revista científica Behavioural Processes. Mas, antes de entender como ela foi feita, vale entender quais hipóteses foram levantadas (e descartadas) pelos cientistas.

Em primeiro lugar, eles tinham como objetivo verificar se caudas azuis e vermelhas, como as dos répteis das espécies Micrablepharus spp. e Vanzosaura spp., poderiam servir como atrativos enganosos. Afinal, eles são capazes de regerar essa parte do corpo – a cor, então, serviria para despistar predadores: se eles a pegassem, seria uma perda insignificante. Outros estudos, feitos principalmente em florestas temperadas, chegaram a mostrar este resultado – mas não foi o caso da pesquisa brasileira. 

Os pesquisadores espalharam moldes das espécies pelo Parque das Dunas, na cidade de Natal (RN), e observaram o comportamento de predadores frente às presas falsas durante um ano. Eles perceberam que os répteis grandes de cauda vermelha são mais suscetíveis à predação por aves.

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Moldes de animais utilizados na pesquisa. UFRN/Divulgação

Há algumas possíveis explicações para isso: em primeiro lugar, o azul tem um dos menores comprimentos de onda dentro do espectro visível da luz. Isso significa que, em contato com as moléculas da atmosfera, ele se dissipa facilmente – o que explica por que o céu é dessa cor. Caudas azuis, então, são mais difíceis de se enxergar a longas distâncias.

Por outro lado, o vermelho é quem possui o maior comprimento de onda dentro do espectro visível (acima dele fica o infravermelho, que o nosso olho já não consegue detectar), dissipando-se bem menos. É bem mais fácil enxergar algo vermelho de longe.

A isso se soma uma característica das aves: elas são tetracromatas, ou seja, possuem quatro tipos de cones (aquela parte do olho que transforma energia luminosa em sinais nervosos), que captam luz UV, azul, verde e vermelho. Para a maioria delas, é uma vantagem caçar à luz do dia.

(Com exceção dos primatas, os mamíferos são dicromatas, tendo uma visão similar a de pessoas daltônicas. Eles preferem caçar à noite, e usam principalmente o olfato.)

Ora, se os lagartos com cauda vermelha são mais suscetíveis à predação por pássaros, por que a seleção natural manteve essa característica? Se você estava atento à leitura, deve ter percebido que os principais alvos eram os moldes de répteis de grande porte. Porém, no mundo real, a maioria dos lagartos coloridos é pequena (ou perde esse atributo na vida adulta).

“Existe um limite de até onde é vantajoso para o animal ter cauda colorida, e esse limite tem que ser até um certo tamanho [corporal]”, explica Daniel Pessoa, pesquisador da UFRN.

E qual é a vantagem da cauda colorida para os pequenos animais? De acordo com Pessoa, existem algumas hipóteses. “Talvez a condição tenha a ver com a cor do solo, que é mais avermelhado, diminuindo o contraste com a cauda.” Alguns desses animais ainda tem o costume de se camuflar sob as folhas – nesse caso, o tamanho pequeno fortalece o combo do disfarce.

Este pode ter sido o trade-off da seleção natural das caudas coloridas: ainda que elas facilitem a identificação por predadores, as vantagens de camuflagem (aliadas ao tamanho pequeno) pesaram mais na balança evolucionária.

Os pesquisadores pretendem continuar investigando para solidificar as suas conclusões, além de amarrar as pontas soltas do estudo (como o caso das caudas azuis, que não se encaixam muito bem na hipótese da camuflagem).

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