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Alexandre Versignassi Por Alexandre Versignassi Blog do diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.

A antropologia das NFTs

As caricaturas de macaquinho e afins ganharam status de joia rara da noite para o dia. Mas tudo indica que a bolha já estourou.

Por Alexandre Versignassi 15 jul 2022, 10h07

“Cozomo de Medici” é um grande colecionador de NFTs. O nome vem entre aspas porque se trata, claro, de um pseudônimo – referência a Cosimo de Medici (1389-1464), o banqueiro de Florença que estabeleceu sua família como mecenas da arte renascentista.

A pessoa real por trás do pseudônimo é o americano Calvin Cordozar Broadus Jr., mais conhecido por outro codinome: Snoop Dogg. “Cozomo de Medici” é o nome que o rapper usa em sua conta na OpenSea, o maior marketplace de NFTs.

Os registros da OpenSea mostram que, em julho de 2021, ele pagou US$ 2,1 milhões pela NFT CryptoPunk #3831. Bom, a única coisa que difere uma NFT de um arquivo digital comum é uma espécie de “certificado de propriedade”. O sistema é engenhoso: algum artista sobe um desenho que fez na blockchain do Ethereum. Dessa forma, você pode comprar o desenho com Ethereum, a moeda digital. Como a cripto e a obra estão na mesma rede (a blockchain da moeda), fica registrado ali que você fez a compra, e que agora é dono da imagem. Tudo automático.

A graça de brincar com essa tecnologia acabou criando um novo mercado de arte, onde estão os CryptoPunks, de 2017. Trata-se de uma coleção: 9.999 caricaturas bem parecidas. Cada uma consiste num rosto pixelizado, e as diferenças estão nos detalhes. Tipo: um usa óculos, brinco dourado e chapéu de cowboy (#7365). Outro, cabelo verde, máscara e batom (#9074). Não há duas caricaturas exatamente iguais. Cada uma é única, e vem batizada com uma numeração, de 0001 a 9.999.

Alguns traços são mais raros. Só nove deles, por exemplo, têm pele azul. Isso basta para torná-los mais valiosos. Um desses nove, o CryptoPunk #5822, foi vendido por US$ 23,7 milhões em fevereiro de 2022. E essa nem é a coleção mais célebre. Essa honra fica com a Bored Apes, de 2021. São 10 mil caricaturas de macaco que copiam a fórmula dos Punks: cada uma traz sua própria combinação de acessórios – alguns mais raros do que outros.

Outro colecionador de NFTs, Neymar, pagou US$ 569 mil pelo Bored Ape #5269 e outros US$ 480 mil pelo #6633. Em reais, dá mais de R$ 5 milhões. Por dois jpegs que você encontra no Google se quiser baixar. Tudo o que o jogador tem é o tal “direito de propriedade” – que não serve para nada.

Eminem, Gwyneth Paltrow, Shaquille O’Neal, Stephen Curry, Paris Hilton, Jimmy Fallon e Post Malone são outras celebridades que possuem Bored Apes. Pelo simples fato de serem caros, esses jpegs ganharam o status de joias. E o que os tornou caros foi, em grande parte, a mania das criptos. Qualquer coisa envolvendo cripto acabou supervalorizada.

Agora, com a queda brutal das criptos, começa também um inverno para as NFTs. Só de maio para cá, o volume de vendas na OpenSea caiu 75%, acompanhando a derrocada do Ethereum. Os Bored Apes mais baratos chegaram a um pico de US$ 429 mil há dois meses. Hoje estão a US$ 100 mil, e caindo. Seja qual for o final dessa história, ela já é um marco da antropologia: deixa claro que nós, humanos, estamos sempre à beira da irracionalidade completa.

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A antropologia das NFTs
As caricaturas de macaquinho e afins ganharam status de joia rara da noite para o dia. Mas tudo indica que a bolha já estourou.

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