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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 13 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

O que se sabe sobre a “doença de New Brunswick”, com 150 casos suspeitos no Canadá

Por Bruno Garattoni Atualizado em 7 jan 2022, 10h59 - Publicado em 4 jan 2022, 15h15

Síndrome neurológica misteriosa causa insônia, confusão mental, perda de memória e dos movimentos e pode levar à morte; aumento de casos levanta a hipótese de transmissão entre pessoas  

A doença, que ainda não tem nome oficial nem causa conhecida, começou a chamar a atenção em março de 2021, quando médicos da província de New Brunswick, no extremo Leste do Canadá, informaram ter identificado 48 casos, com nove mortes. Mas, agora, uma investigação do jornal inglês Guardian, que cita uma fonte do governo de New Brunswick, afirma que já seriam 150 casos, com um elemento preocupante: em alguns deles, a síndrome parece ter sido transmitida entre pessoas. Ou seja, ela poderia ser contagiosa. Mas também pode ser causada por uma toxina – ou nem existir de fato.

Os sintomas incluem perda de memória, espasmos musculares e dificuldade em caminhar, visão turva (em alguns casos, alucinações), perda de peso rápida e sem explicação, alterações de comportamento, confusão mental e dor nas extremidades do corpo. Esse conjunto variado de sintomas parece indicar uma desordem neurológica – que é, por isso, a principal hipótese para explicar o que vem sendo chamado de “doença de New Brunswick”.   

Inicialmente, acreditou-se que ela poderia ser causada por príons, proteínas malformadas que têm o poder de deformar as demais proteínas do organismo quando entram em contato com elas. Os príons podem estar presentes na carne bovina (eles são a causa da encefalopatia espongiforme bovina, ou “doença da vaca louca”), e entrar no corpo humano quando essa carne é ingerida. 

Os príons também podem ser transmitidos por instrumentos cirúrgicos contaminados – e, possivelmente, inalados. Se alcançarem o cérebro, eles podem causar lesões neurológicas graves. 

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Porém, os cérebros de oito dos mortos pela doença de New Brunswick foram analisados, e não exibiram sinais de danos por príons. Em outubro de 2021, um neurologista da Universidade de Ottawa, no Canadá, afirmou que a doença de New Brunswick não existia – e aquelas mortes poderiam ser explicadas por outras causas, como Alzheimer, câncer e demência de Lewy (causada pela deposição anormal de uma proteína no sistema nervoso). Mas essa tese nunca foi plenamente aceita, e o mistério continuou em aberto.

A investigação do Guardian relata pelo menos nove casos em que poderia ter havido transmissão da doença. Em um deles, um homem desenvolveu demência e ataxia (problemas de coordenação motora). Algum tempo depois a esposa, que cuidava dele, começou a ter insônia e perda de massa muscular, que evoluiu para demência e alucinações. 

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Outro dos casos é o de uma mulher na faixa dos 30 anos em estado semivegetativo, supostamente afetada pela doença. A enfermeira dela, uma mulher saudável na faixa dos 20 anos, teria começado a apresentar sintomas de declínio cognitivo. O terceiro caso relatado é o de uma mulher que perdeu rapidamente quase 30 quilos, passou a ter insônia e alucinações. Um exame de neuroimagem teria revelado sinais evidentes de dano cerebral.

Segundo o Guardian, a fonte do governo de New Brunswick teria decidido se manifestar, sob anonimato, por não concordar com a postura oficial das autoridades, que têm menosprezado a questão. De acordo com documentos obtidos pelo jornal, o governo do Canadá estaria considerando como possível causa o envenenamento por Beta-metilamino-l-alanina (BMAA), uma toxina que foi encontrada em lagostas da região – e que as vítimas poderiam ter consumido.   

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