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Ilustração da teoria da deriva continental. Deriva Continental Por Sociedade Brasileira de Geologia (SBG) Um blog para terráqueos e terráqueas interessados no que aconteceu nos 4,5 bilhões de anos em que não estiveram por aqui. Feito pela Sociedade Brasileira de Geologia (SBG) em parceria com a Super.

As rochas da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, se formaram antes de Pangeia

Há 1,5 bilhões de anos, a Terra era coberta por pequenos continentes, que depois se juntariam para formar Pangeia. Conheça o processo geológico por trás das principais atrações do país

Por Eliza I. N. Peixoto e José Eloi Guimarães Campos Atualizado em 5 dez 2021, 11h28 - Publicado em 3 dez 2021, 17h43

Este é o quarto texto do blog Deriva Continental, escrito por  Eliza I. N. Peixoto e José Eloi Guimarães Campos

Quando se fala em Chapada dos Veadeiros, para muita gente as primeiras palavras que vêm à cabeça são lazer e misticismo. Não é à toa: sua paisagem exuberante, a ampla presença de cristais de quartzo ou o fato de estar situada ao longo do Paralelo 14ºS (o mesmo que corta Machu Picchu) trazem um ar misterioso à região. 

Mas por trás de qualquer curiosidade esotérica que possa existir na Chapada dos Veadeiros, há algo que pode ser ainda mais interessante na região: a história que as rochas nos contam sobre a evolução da Terra.

Localizada no estado de Goiás, a Chapada dos Veadeiros é considerada Patrimônio Mundial pela Unesco desde 2001. Ela abrange as cidades de Alto Paraíso, Colinas do Sul, Cavalcante e o distrito de São Jorge, cobertos por cerrado de altitude e campos rupestres preservados de forma quase intacta.

Por debaixo desta paisagem, a geologia da região molda cenários inesquecíveis. Dentre eles, os mais visitados pelos turistas incluem os Saltos de 80 e 120 metros, as cachoeiras Carioquinhas e Segredo, Cânions I e II, Vale da Lua, Águas Termais e o Jardim de Maytrea. Mas afinal, como essas paisagens se formaram?

A origem dos cristais de quartzos

Tudo começa quando a Terra ainda era composta por fragmentos da crosta terrestre do tipo continental, espalhados entre oceanos que existiam antes da formação do supercontinente Pangeia. O que será descrito a seguir ocorreu no interior de um destes fragmentos, que hoje corresponde ao assim chamado “Cráton do São Francisco”, uma unidade geológica de grande estabilidade tectônica, formada há mais de 2000 Ma.

Por volta de 1,5 bilhões de anos atrás, se iniciou um processo extensional, com abertura e separação das massas de terra situadas em ambos os lados da descontinuidade linear que se formou. Essa fragmentação não foi longe e não produziu uma separação continental. Entretanto, gerou uma profunda depressão, ambiente propício para receber uma grande quantidade de sedimentos, que ocorreu com ajuda do vento, chuva, rios e outros agentes que atuavam em uma paisagem muito diferente da atual. Nesta época, a vida na Terra estava restrita aos ambientes marinhos, e não havia plantas.

A depressão gerou um vale muito extenso, e ao mesmo tempo tão largo e profundo que permitiu a entrada do mar para o seu interior. Nesse momento, os sedimentos estavam sendo transportados por um longo caminho do interior do continente para esse mar. E, se há mar, há praia! Junto dela chegam as ondas, correntes e deposição de muita areia.

Com o tempo, essa areia, contendo grande quantidade de cristais de quartzo, foi soterrada e aquecida em virtude do gradiente térmico da Terra, em que a temperatura aumenta com a profundidade. Isso faz com que elas se tornem rochas duras, em um processo chamado litificação (do grego, lithos = rocha). Apesar da transformação, várias características dessas rochas se preservam e revelam informações sobre o ambiente em que foram originalmente sedimentadas. Por exemplo, marcas onduladas e estratificações cruzadas observadas em rochas duras são as mesmas observadas nas praias atuais. James Hutton (1726 – 1797), considerado o pai da geologia, já dizia: “o presente é a chave para o passado”!

Rochas da Chapa dos Veadeiros.
Rocha do Supergrupo Veadeiros com marca ondulada em camada horizontal (local situado entre os Cânions I e II) Eliza I. N. Peixoto/Divulgação

E lembra que muita gente ia atrás dos cristais de quartzo? Pois então, a areia é formada justamente deste mineral: o quartzo, cuja composição é a sílica (SiO2). Por meio de processos que ocorrem no interior da crosta terrestre, com alguma elevação de temperatura, soluções saturadas em sílica se precipitam nas fendas das rochas, onde há espaço para se cristalizar, com o abaixamento da temperatura. Quando ela se cristaliza com formatos regulares, gera os famosos cristais encontrados na Chapada dos Veadeiros.

Cânions brasileiros

Ao longo da história da Terra, pressões dirigidas devidas à ação das Placas Tectônicas fazem com que surjam algumas estruturas nas rochas. Um tipo comum de estrutura são as fraturas: planos que cortam a rocha, desmembrando-a em partes. Dois sistemas de fraturas planares, apresentando-se perpendiculares entre si, são os que controlaram a formação das feições Cânion I e Cânion II, muito visitadas da região.

O processo se inicia quando a água abre caminho entre as fraturas existentes nas rochas e, a partir dali, criam um ciclo de retroalimentação contínua. Ou seja, onde tinha fratura, passa água (e vento também). Onde a água passa, abre-se mais espaço, e nessas aberturas passa mais água. Eventualmente, após certo tempo, formaram-se os vales encaixados e as quedas d’água – como os Cânions I e II, Salto de 120 m, cachoeiras Carioquinhas e Segredo, dentre várias outras.

Rochas da Chapa dos Veadeiros.
Vista panorâmica do Cânion I Eliza I. N. Peixoto/Divulgação

 

O Vale da Lua

A história não parou por aí. Alguns milhões de anos mais tarde, um novo pulso de abertura da depressão tomou força. Os primeiros sedimentos levados para preenchê-la se deslocavam com alta energia, já que o desnível entre o topo e o fundo da depressão ainda era muito grande. Blocos de rochas se moviam em meio à lama com presença de carbonato de cálcio.

Esses sedimentos formaram a base da deposição sedimentar daquela época e podem ser observados hoje em uma das paisagens mais exuberantes da Chapada dos Veadeiros, e quiçá do mundo: o Vale da Lua. Eles foram soterrados e também passaram por litificação, se transformando em rochas.

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Milhões de anos após sua formação, erosão e intemperismo entraram em ação. Por terem sido formados por um tipo de sal solúvel (carbonato de cálcio), os agentes da denudação causaram o desmembramento e transporte dos fragmentos de rocha. Pouco a pouco, eles modelaram e esculpiram o relevo sinuoso e escavado que observamos hoje.

 

Rochas da Chapa dos Veadeiros.
Vale da Lua no Ribeirão São Miguel Eliza I. N. Peixoto/Divulgação

Águas termais

Outro chamariz que atrai turistas na região são as águas termais. Com temperaturas que chegam a 42º C, essas águas migram ao longo dos planos de falhas e fraturas, e desaguam em piscinas naturais e artificiais na região. 

A temperatura das águas termais contrasta com as cachoeiras geladas do seu entorno. Isso ocorre porque há sistemas de fraturas e falhas que permitem a infiltração da água até centenas de metros de profundidade. A cada quilômetro que a água alcança na crosta há aumento de cerca de 30 ºC em sua temperatura, então a água sobe quentinha a partir dessas regiões.

A principal área de recarga dos aquíferos termais está localizada na região da Serra do Rio Preto, no interior do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em elevações de cerca de 1.300 metros.

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Piscinas artificiais de águas termais na Chapada dos Veadeiros. Eliza I. N. Peixoto/Divulgação

Na entrada ou na despedida da Chapada dos Veadeiros podemos observar as paisagens mais místicas e conhecidas da região: o Jardim de Maytrea, o Morro da Baleia e o Morro do Buracão. A paisagem é modelada pela presença de dois tipos diferentes de rocha: um deles formado a partir da litificação de argila, e o outro pela litificação de areia.

Enquanto o primeiro tipo é facilmente levado pelos agentes do intemperismo, o segundo (chamado de quartzito) é mais resistente ao processo e sustenta o relevo da região. Muitos dizem que a paisagem é uma vista para um “Templo no Plano Etéreo”. Só indo lá para ver!

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Vista panorâmica do Jardim de Maytrea Pedro Kimura/Reprodução

Para Saber Mais….

O contexto geológico da região é enquadrado no Supergrupo Veadeiros, que é composto pelos grupos Araí, Traíras e Paranoá. Em geologia, o termo “grupo” representa um conjunto de rochas de mesma idade e com caráter cogenético. Os grupos são compostos por formações.

– Na porção norte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros ocorrem rochas graníticas, no embasamento da sequência sedimentar.

– Intemperismo: processos de transformação das rochas por agentes químicos, físicos e biológicos que resultam na formação do modelado do relevo atual.

– Grau geotérmico: profundidade necessária para que a água aumente sua temperatura em 1º C.

– Campo rupestre: tipo de cerrado que ocorre em associação com exposições de blocos e lajedos rochosos. Aquífero: formação geológica ou horizonte de solo que pode armazenar e transmitir água em profundidade. Quando está associado a águas quentes é denominado de aquífero termal.

– Datação radiométrica das rochas. Há vários métodos de datação, baseados no decaimento natural dos isótopos radioativos de urânio, potássio, rubídio, samário, e outros.

– James Hutton: naturalista e geólogo escocês que definiu o uniformitarismo, teoria que interpreta o passado geológico a partir para observação dos ambientes modernos.

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