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A aparência move o mundo

No amor, no trabalho, na escola e até na família, quem é  mais bonito leva vantagem.

Spensy Pimentel

Beleza? Uma bobagem de gente frívola e superficial. Importante, sim, é o encanto interior, os valores morais. Esse tipo de afirmação é até bem-visto em certos meios, mas está a anos-luz de distância do mundo real. Um rosto bonito pode não ter nada a ver com o caráter e a inteligência do seu portador, mas que faz uma grande diferença, ah, isso faz. A verdade é que os seres humanos são muito mais influenciados pela aparência física do que gostariam de admitir. Pesquisas e mais pesquisas mostram que os indivíduos tidos como atraentes conquistam a preferência dos pais e dos professores, fazem mais amigos, ganham mais dinheiro e praticam o sexo com parceiros mais numerosos – e, claro, mais bonitos.

Para os cientistas, não há nada de surpreendente nesse fascínio. Os biólogos o atribuem ao mesmo mecanismo que rege todas as outras espécies animais – cada indivíduo procura no eventual parceiro os sinais que indicam a posse dos melhores genes. “A beleza sinaliza a capacidade de gerar filhos bonitos e saudáveis”, concorda o psicólogo César Ades, professor no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Nesse sentido, não somos tão diferentes de uma ave-do-paraíso, que escolhe o companheiro pelo tamanho da cauda.

Uma experiência dos psicólogos americanos A.G. Goldstein e J. Papageorge, em 1980, mostrou que precisamos de apenas uma ínfima fração de segundo para perceber uma fisionomia e classificá-la de acordo com a sua atratividade. Ninguém fica indiferente diante da beleza. Em outra pesquisa, a psicóloga americana Judith Langlois, da Universidade do Texas, observou que bebês de 3 meses já fixam seu olhar por mais tempo no rosto de pessoas consideradas mais bonitas pelos adultos – o que pode confirmar que já nascemos com alguma espécie de sensor natural para o que é bonito. É claro que a beleza não é tudo e que nem todas as nossas preferências são determinadas biologicamente. Você pode conseguir um emprego, se casar e ter sucesso na vida mesmo sem ter as feições do Brad Pitt ou da Ana Paula Arósio. Mas não seria ruim ter a aparência deles, não é?

Quem sabe é super

Nas pesquisas, os homens costumam dar mais valor à aparência da parceira do que as mulheres. Para elas, o principal seria a capacidade de obter os recursos para o sustento da família.

Efeito Mickey

Quem não se derrete ao olhar de perto para um recém-nascido? A reação de ternura provocada pelos traços típicos dos bebês – olhos grandes, bochechas roliças, membros pequenos em relação à cabeça – pode ter uma ligação com algum instinto de proteção dos filhotes. Em 1980, o biólogo americano Stephen Jay Gould, da Universidade Harvard, se apoiou nessa hipótese para explicar a evolução da aparência do Mickey, personagem criado por Walt Disney em 1928. Segundo Gould, os desenhistas se aproveitaram da simpatia natural pelos bebês para conquistar os corações do mundo inteiro. Nesses 70 anos de vida, o Mickey envelheceu ao contrário, perdendo os traços de camundongo para ficar cada vez mais parecido com uma criança humana. Veja, acima, como ele era no ano do seu lançamento e, ao lado, em 1995.

Guerra ao “belezismo”

Chega de malhação, de cremes e de silicone. Tudo isso não passa de uma conspiração machista para manter as mulheres em situação inferior, sempre morrendo de medo de serem chamadas de feias. Com essa mensagem, a escritora americana Naomi Wolf lançou, em 1991, um grito de guerra ao “belezismo”, ou seja, a obsessão com a aparência física. Seu livro O Mito da Beleza se tornou um best-seller.

Concurso fatal

A beleza está na raiz da lenda grega sobre a Guerra de Tróia. Três deusas – Juno, MInerva e Vênus – disputavam qual delas era a mais bela. Páris, filho do rei de Tróia, foi chamado para decidir a parada. As três tentaram suborná-lo. Juno lhe ofereceu poder; Minerva, sabedoria, e Vênus prometeu a ele a mais linda das mortais, Helena, mulher de Menelau, rei da cidade grega de Esparta. Páris preferiu Helena, que raptou, levando-a para Tróia. Enfurecido, Menelau reuniu os gregos na guerra em que destruíram Tróia.

A pintura O Julgamento de Páris, do flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640), retrata a indecisão do árbitro entre três beldades literalmente divinas.

O teste da moedinha

Pesquisa revela tratamento desigual.

O mundo é injusto com quem não possui os atributos físicos associados à beleza. Em uma experiência de 1977, psicólogos americanos testaram a honestidade em relação a indivíduos bonitos e feios. Uma moeda de 10 centavos foi deixada numa cabine telefônica. Uma mulher bonita se aproximava e perguntava ao ocupante: “Deixei cair 10 centavos por aqui?” A mesma situação se repetia mais tarde, mas quem pedia a moeda era uma mulher feia. Resultado: 87% devolveram a moeda à mulher bonita e apenas 60% a deram à feia.

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