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A ciência do ciúme e da traição

As crises no relacionamento podem ser culpa da evolução

Por Marcia Kedouk 13 nov 2017, 18h00

Pense na pessoa que você ama ou amou. Agora, responda qual destas duas possibilidades de traição seria a mais dolorosa: descobrir que o(a) parceiro(a) teve noites incríveis de sexo extraconjugal ou que se envolveu emocionalmente com outro(a)? Homens tendem a achar a primeira opção uma faca no peito. Mulheres costumam dizer que a segunda alternativa soa pior. Apesar de ambos se importarem com os dois aspectos da infidelidade – sexual e emocional –, a motivação para o ciúme pode ser diferente.

Há anos o psicólogo evolucionista David Buss, da Universidade do Texas, tem encontrado evidências que confirmam essa diferença. Em um dos estudos, com 234 voluntários, 76% dos homens e apenas 32% das mulheres escolheram a hipótese do envolvimento puramente sexual como pior do que a do puramente emocional. O neurocientista japonês Hidehiko Takahashi também encontrou indícios a favor da tese com 22 pessoas que estavam em um relacionamento longo (em média, 14,8 meses para os homens e 18,5 meses para as mulheres). Monitorando cada um com equipamentos de ressonância magnética, o pesquisador pediu a eles que lessem frases que sugeriam situações envolvendo o parceiro, como “numa cama de casal com o(a) ex” e “escrevendo uma carta de amor para outro(a)”. Depois, o grupo foi orientado a reler as cenas e atribuir notas de 0 a 6 a elas de acordo com o grau de ciúme que despertavam. Homens e mulheres pontuaram igualmente nas questões de infidelidade sexual, com média de 4,6. Para situações que sugeriam envolvimento emocional, eles marcaram 4,3 e elas 4,5 – números muito próximos. A surpresa veio com o resultado das ressonâncias magnéticas.

Neles, a amígdala e o hipotálamo, ligados à agressividade e aos impulsos sexuais, tinham uma atividade muito maior. Nelas, a estrutura que falava mais alto era o sulco temporal superior posterior, que ajuda na interpretação da intenção dos outros. Para os cientistas, é como se os sentimentos de raiva, rejeição e medo que acompanham uma traição estivessem ligados, para os homens, ao fato de dividir a parceira com outro e, para as mulheres, à possibilidade de serem deixadas. Esse fenômeno pode ser fruto da evolução da nossa espécie.

O ciúme nasceu como uma estratégia de preservação do patrimônio genético

 

É possível que o ciúme tenha nascido como uma estratégia de preservação do patrimônio genético, provavelmente depois que dois fatores mudaram completamente a dinâmica das relações humanas. Um deles surgiu quando nossos ancestrais passaram a andar sobre duas pernas. As mães começaram a carregar os filhos pequenos nos braços, em vez de agarrados às costas, como fazem os grandes primatas. Com um bebê para segurar, a velocidade e a agilidade ficam comprometidas. Conciliar a busca por alimentos com a maternidade recente, se já era difícil, ficou praticamente impossível. Então a responsabilidade dos homens de caçar e manter o perigo afastado para garantir a sobrevivência dos filhos nessa fase aumentou.

O outro foi o crescimento da caixa craniana nos hominídeos. O padrão dos australopitecos, nossos antepassados mais antigos, era de 500 cm³. O crânio do Homo sapiens fica na média de 1.300 cm³. Junte um feto com cabeça maior e uma mãe bípede, com a pélvis mais estreita, e você entenderá o parto que é o nascimento de um humano. Para não morrermos todos, a sábia natureza selecionou os bebês “prematuros”, ou seja, aqueles que não se desenvolviam completamente dentro do útero. Nós – eu e você. O restante do crescimento aconteceria fora.

Por isso, o cérebro humano precisa de mais tempo para amadurecer: até sete anos. Em nenhuma outra espécie de primatas a cria demora tanto para deixar de exigir cuidados permanentes dos pais. Os pesquisadores acreditam que, diante de tanto esforço para passar os próprios genes adiante, o homem do passado precisava encontrar meios de saber que não favoreceria os genes de outro. Ou seja, queria ter certeza da paternidade, afastando o risco de um rival fazer sexo com a mulher dele.

Ela não precisaria exatamente garantir que o cara não espalhasse esperma por aí, mas, sim, que não desperdiçasse energia e recursos com outra em vez de investir na sobrevivência dos filhos do casal. Um envolvimento emocional masculino com uma “concorrente” colocaria a família em risco.

Para ambos, ao menor sinal de que um dos dois estava achando a gruta do vizinho mais aconchegante, o ciúme entraria em cena e trataria de motivar “a vítima” a tomar providências. Não que todo ciumento pense em filhos. Muito menos que os maridos digam “Pode se apaixonar por outro – mas transar, não” e mulheres determinem que “Sexo está liberado, desde que você não se envolva”. Isso é um instinto. Desafios diferentes de adaptação levaram a motivações distintas de monopolização do outro.

Mas por que o ciúme sobrevive aos exames de DNA para a comprovação da paternidade e à independência feminina, que liberou as mulheres para conseguir o próprio sustento, decidir se e quando quer ter filhos e fazer escolhas? Porque as emoções humanas são bem mais complexas do que uma simples relação de causa e efeito.

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Provavelmente evoluímos para um sistema de monogamia em série

Quem mexeu no meu mozão

Possessividade. Para os seus instintos, o outro é uma conquista sua, e não uma alma livre para saracotear por aí como se não tivesse dono. Ainda mais se a alma livre em questão se basear apenas no fato de que espermatozoides são baratos e óvulos são caros.

Vamos por partes. Nossa espécie não passou a vida em haréns. Nem em laços eternos de cumplicidade. O mais provável é que tenhamos evoluído para um sistema de monogamia em série, com casais unidos durante o tempo necessário para procriar e cuidar dos filhos até que pudessem caminhar com as próprias pernas. Há indícios disso.

No mundo primata, se existe uma grande diferença de tamanho e peso entre machos e fêmeas, é sinal de que um único macaco fecunda as macacas do bando e usa a truculência para afastar concorrentes. Se a disparidade for pequena ou não existir, os símios tendem a se acasalar aos pares.

Gorilas machos chegam a ter o dobro da altura e do peso das fêmeas. Eles vivem como sultões. Já os pequenos gibões, semelhantes em massa corporal, formam casais fiéis. Os homens são, em média, apenas 8% maiores e 20% mais pesados do que as mulheres, por isso há uma tendência de se unirem em duplas.

Ok, mas macacos não têm nada a ver com a gente… Na verdade, têm sim. “Até cerca de 2 milhões de anos atrás, a diferença de tamanho entre fêmeas e machos humanos era muito grande, da mesma forma como acontece com grandes primatas. Isso sugere uma organização social parecida com a de um macaco, em que os machos tinham de competir ferozmente para o acesso às fêmeas, e os sexos não cooperavam entre si nem para o sustento nem para cuidar das crias”, me disse o paleoantropólogo americano Richard Klein, da Universidade de Stanford. “Há mais ou menos 2 milhões de anos, houve uma forte redução na diferença de tamanho entre os sexos, o que geralmente é interpretada como o início da organização social caracteristicamente humana, em que existe uma ligação entre macho e fêmea por tempo suficiente para criar um filho. Eles também passaram a apoiar uns aos outros economicamente.” Klein explica que a proporção mais igualitária de tamanho se deu principalmente porque as fêmeas tiveram um crescimento bem maior do que o dos machos. “Talvez para permitir que elas pudessem ampliar a participação na busca por alimentos, com risco reduzido.”

Esse avanço anatômico pode indicar que, quando a cria ganha certa autonomia, fêmeas também estariam liberadas para buscar outros parceiros. Um estudo global da Organização das Nações Unidas mostrou que o número de divórcios aumenta depois do terceiro ano de união e atinge o auge no sétimo. Justamente o período necessário para procriar e acompanhar um filho até que ele ganhe certa autonomia. A independência feminina derrubou a figura da mulher ciumenta que fica em casa e do marido traidor que trabalha até mais tarde. Hoje, ambos estão sujeitos a ataques de ciúme e a oportunidades para encontrar outras camas.

As causas do ciúme e da traição não são apenas evolutivas. As questões socioculturais pesam bastante. “Existe uma supervalorização da beleza e do status feminino. E as mulheres passaram a sentir ciúme de outras que, na visão delas, têm boa aparência ou conseguiram uma posição melhor no mercado de trabalho e, por isso, despertariam o desejo do companheiro”, diz a psicoterapeuta Ana Gabriela Andriani. Já para os homens, a tendência é que vejam como ameaça aqueles que parecem ser mais capazes de satisfazer a mulher, ou por aparentarem mais masculinidade ou por terem poder. “Ciúme é medo de perder, é insegurança. Quem não está bem resolvido pode desenvolver sentimentos de posse e dependência em relação ao outro e querer monitorá-lo, ainda mais com toda a tecnologia que facilita o controle”, afirma Ana. O limite? “Em níveis mais elevados, o quadro vira patológico. O causador do ciúme deixa de ser alguém específico e passa a estar em qualquer coisa que desperte o interesse do parceiro. O pensamento recorrente é ‘Ele (ou ela) não pode ser feliz sem mim’.”

Se um casal fica junto por semanas, anos ou eternamente e se trai ou não, depende de muitos fatores. Aí no meio entram os sentimentos, a razão, as crenças, os valores. O que é certo mesmo é que, quando um relacionamento acaba, dói até na alma. Vamos enfrentar o próximo capítulo.

Este post é um trecho de O Livro Proibido do Sexo, de Marcia Kedouk (editado pela SUPER e disponível aqui).

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