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A volta dos dinossauros: Os robossauros

Nenhuma forma de vida instigou tanto a imaginação humana como a dos dinossauros. Por conta desse fascínio surgiram os robossauros - réplicas automatizadas que imitam perfeitamente os originais.

O cenário é tranqüilo. Um Triceratops pasta sossegado no vale. De repente, algo chama a atenção, um ruído talvez. Ele ergue então a cabeça, fareja o ar, vira os olhos e começa a caminhar, ameaçador. O movimento dos seus músculos é visível sob a pele. Eis que o bicho gigantesco joga o focinho para trás e dá um rugido de estremecer a terra. Apavoradas, as crianças que o vêem agarram-se às pernas dos pais; outras riem nervosamente. Não é para menos. Com seus quase 8 metros de comprimento e cerca de 5 toneladas de peso, dois chifres na testa e um no nariz, esse ser descomunal aterrorizaria o mais destemido dos homens. Para sorte da espécie, homens e dinossauros jamais se cruzaram sobre a face do planeta, ao contrário do que sugerem as histórias em quadrinhos tipo Brucutu e os desenhos animados tipo Flintstones: mais de 60 milhões de anos separam os derradeiros Triceratops e assemelhados dos primeiros Homo. Daí porque aquela cena espetacular é exatamente isso – um espetáculo, que por sinal faz a festa dos freqüentadores de museus de História Natural e de exibições de fósseis dos grandes répteis do passado remoto. Os donos do show são chamados robossauros por seus criadores – e estes bem merecem o sucesso de público e crítica das crianças.

Pois não só é preciso entender muito de Paleontologia para construir réplicas tão realistas daqueles animais como também é preciso entender muito de máquinas para fazê-las funcionar com tanta naturalidade. O projeto resulta de um trabalho de equipe que associa paleontólogos, engenheiros, desenhistas e escultores. O rigor da criação tenta ressuscitar representantes da espécie que desde os primeiros achados fósseis foi conquistando como nenhuma outra a imaginação humana. Senhores absolutos da Terra durante 140 milhões de anos, os dinossauros desapareceram há 65 milhões de anos por motivos ainda não esclarecidos de todo, sendo a hipótese mais aceita a que fala em drásticas mudanças no clima do planeta em conseqüência da colisão com um não identificado corpo celeste. Certamente reside nisso parte do fascínio do homem pelos dinossauros – o mesmo fascínio que levou o americano Chris Mays a deixar uma bem-sucedida carreira de vinte anos como piloto de aviões para tornar-se um igualmente bem-sucedido fabricante de robossauros.

Mays já tinha visto os dinossauros mecânicos japoneses e sabia que alguns estavam à venda depois de terem percorrido um bom número de exposições. Não teve dúvidas: importou um Triceratops e resolveu doá-lo ao Museu de História Natural de Los Angeles. O presente chegou em meio a um banquete que a instituição oferecia. A cena foi inusitada: atrás dos garçons que circulavam entre as mesas servindo iguarias estava estacionado um dinossauro com 4 metros de comprimento e quase 3 toneladas de peso, a metade do tamanho normal de um Triceratops. O sucesso foi total. A partir daí, Mays resolveu adquirir réplicas. Nessa altura, início dos anos 80, ele não sabia no que sua iniciativa ia dar realmente, pois o destino lógico dos seus dinossauros eram os museus públicos e estes naquela época sofriam cortes de verbas.

Mesmo assim, ele seguiu em frente com seu projeto. Quando alguns desses bichos mecanizados começaram a ser exibidos, foi uma sensação: tanta gente veio vê-los que em três meses o museu já tinha atraído o número de visitantes que normalmente levaria um ano inteiro para aparecer. Assim em 1982, junto com seu vizinho Tom Stifter, Mays fundou a Dinamation International Corporation, a única empresa no mundo que fabrica dinossauros robotizados, talvez não por acaso instalada em Orange Country, sul da Califórnia, a cerca de 20 quilômetros da Disneylândia.

Mas, contrastando com o Pato Donald, Mickey Mouse ou Tio Patinhas, personagens saídos exclusivamente da imaginação genial de Walt Disney, os robôs da Dinamation procuram ser fiéis ao que se sabe sobre os dinossauros e o mundo em que viviam, embora também contenham uma respeitável dose de criatividade dos seus construtores. Para tanto, Stifter e Mays contam com paleontólogos que orientam a construção, não apenas do ponto de vista anatômico dos animais mas também do que se supõe tenha sido meu modo de vida: o que comiam, que tipo de ambiente habitavam, como os espécimes adultos se relacionavam com os mais novos, que tipo de grupo formavam, como se reproduziam.

Os sulcos e cicatrizes existentes na superfície de um osso como o fêmur permitem saber, por exemplo, os pontos onde os músculos se uniam. Mandíbulas e dentes relatam se pertenciam a um carnívoro ou a um herbívoro. Os paleontólogos valem-se também das pegadas fossilizadas. No Texas, um campo cheio delas indicava um bando de apatossauros (também chamados brontossauros) com seus 21 metros de comprimento e 30 toneladas de peso deslocando-se ao longo de um rio. Nas laterais, os adultos, machos e fêmeas, protegiam os menores que iam no meio. Rodeando esses herbívoros gigantes estão os rastros de um alossauro, um terrível predador com quase 14 metros de comprimento, que certamente se preparava para atacar.

Fabricar dinossauros requer todas essas informações, particularmente dados sobre sua anatomia. Que peso o esqueleto podia suportar? Que tipo de movimento os ossos poderiam articular? Onde os músculos se prendiam e de que tamanho eram? Para fabricar réplicas as mais fiéis possíveis, a Dinamation contratou uma equipe de autoridades no assunto, como Robert Bakker, da Universidade do Colorado, e George L. Callison, biólogo da Universidade de Long Beach, na Califórnia. São eles, juntamente com os engenheiros, os responsáveis pelo modo como as criaturas saem das pranchetas para serem confeccionadas por escultores e artistas.

Como os dinossauros integraram espécies com os mais variados tamanhos e formas – por exemplo, crânios em forma de capacete, chifres na testa e no nariz, placas no dorso, espinhos na cauda -, nem mesmo a mais desenfreada imaginação poderia superá-los. Os cientistas contam com fósseis de ossos, pegadas, ovos e poucas impressões de pele para trabalhar. Isso parece pouco, mas para os paleontólogos representa uma fonte abundante de informações. Quem dá vida às criaturas são os artistas. Com cuidado, eles planejam as expressões faciais, a cor dos olhos, as rugas, a textura e a cor da pele, até os sons emitidos pelos monstrengos.

“É algo completamente diferente criar um animal quase real à base de borracha, pêlos sintéticos, tubos de plástico e metal como se fosse verdadeiro”, constata o professor George Callison, referindo-se ao trabalho dos artistas. Primeiro em minuciosos rascunhos, depois em maquetes de argila, nada escapa aos escultores. As próprias miniaturas são tão convincentes que se começassem a andar pela sala seriam confundidas com bichinhos de estimação. As dificuldades desenvolvidas na feitura e operação dos robossauros são as mais extravagantes. Os olhos, por exemplo, podem virar antes de as pálpebras se fecharem resultando numa indesejável piscadela sinistra. Também as manivelas e pistões que movem a engrenagem dos robôs tendem a girar a velocidades diferentes.

Com isso as pernas e o corpo dos sauros perdem a sincronia, como se o bicho estivesse tendo um acesso de espasmos. Em climas úmidos, o material que compõe o revestimento da réplica pode ficar pegajoso, fazendo desaparecer as rugas naturais ali onde a pele dobra. O robosssauro, enfim, só funciona bem durante umas quarenta horas. Depois tende a apresentar defeitos e precisa ser novamente regulado. No caso do Tyrannosaurus rex, o mais terrível dos carnívoros, que se estende por até 15 metros de comprimento e em posição bípede alcançava 6 metros de altura, a Dinamation optou por construir apenas a cabeça em tamanho natural, já que esta e os dentes são o que há de realmente importante no bichão. Pronta, a estátua de argila recebe placas de fibra de vidro ou de qualquer outro material rígido e leve.

Elas serão montadas de forma a criar o esqueleto do dinossauros sobre o qual será moldada a pele, feita de poliuretano. Enquanto isso, os engenheiros projetam os esqueletos metálicos, espécie de sistema nervoso e respiratório do robossauro. Os especialistas em robótica se valem de pistões, manivelas, válvulas e tubos de ar para sincronizar todos os movimentos do animal – que evidentemente devem parecer naturais. O ar comprimido flui pelos tubos de plásticos para assegurar a suavidade dos movimentos. Pronto o esqueleto, os artistas o recobrem com a pele.

O trabalho leva no mínimo um dia, pois inclui preparar as cavidades dos olhos para que os globos oculares se encaixem perfeitamente e estofar qualquer área de depressão que exista debaixo da pele. Então, os engenheiros começam a programar os sons que o robô fará. Como não existem obviamente registros fósseis sonoros, os cientistas e os artistas precisam recorrer à imaginação e a empréstimos de outras espécies para decidir qual o tipo de ruído que mais combinaria com os dinossauros. Por isso, um programador grava por meio de um sistema digital rosnados, uivos e assemelhados de vários animais. Surgem assim os sons das réplicas dos dinossauros. A pintura é a etapa final. Todo o processo, que pode durar de doze a dezoito meses, dá aos espectadores uma impecável ilusão.

De qualquer forma, as réplicas robotizadas da Dinamation, que incluem também mamutes peludos, tigres dente-de-sabre, baleias pré-históricas e preguiças gigantes são a versão mais sofisticada de uma secular imitação. Em 1854, uma exposição no Palácio de Cristal de Londres apresentou ao público reproduções em tamanho natural de iguanodontes, megalossauros e outros animais extintos.

As cópias estavam longe de ser perfeitas, mas a exposição foi um acontecimento e tanto.

Além de fabricar robôs, a Dinamation financia expedições científicas e colabora na criação de um museu de dinossauros no Colorado. Também co-produziu o filme Dinossauros, dinossauros, um musical mesozóico ainda não exibido no Brasil. Segundo Chris Mays, o ex-piloto que ganha a vida produzindo espécimes extintos, não se trata apenas de diversão ou lucro. O objetivo é aproximar as pessoas comuns do mundo da ciência. “Queremos fazer do ensino algo divertido e e do qual se possa participar, e temos nos dinossauros o ponto de partida”.

 

 

Para saber mais:

A charada dos dinossauros

(SUPER número 3, ano 1)

 

 

 

Réplicas nordestinas

Dificuldades nunca se desanimaram o italiano radicado no Brasil Giuseppe Leonardi, padre e paleontólogo. Tanto assim que de julho de 1985 até o início deste ano ele conseguiu construir, juntamente com o escultor João Carlos Moreira do Museu Emílio Goeldi de Belém e a ajuda de dois técnicos, dez réplicas de dinossauros, entre celurossauros, alossauros e tiranossauros. Tudo isso, num modesto galpão emprestado e transformado em laboratório. Desde 1975, Leonardi pesquisa no vale do rio do Peixe, próximo à cidade de Sousa, Paraíba, a impressionante variedade de pegadas fossilizadas deixadas pelas cerca de seiscentas espécies diferentes de dinossauros que viveram na região há 150 milhões de anos.

A partir das pegadas, identificando o animal a que pertenceram, Leonardi e Moreira elaboraram o projeto das réplicas. Então, constrói-se uma armação de madeira sobre a qual irão camadas de argila – para marcar os músculos, dobras, placas e escamas – e de gesso. Depois, por uma abertura nesse gesso, retira-se a armação de madeira . Em seguida, o protótipo é coberto com camadas de fibras de vidro ou de resina sintética, enquanto, por dentro, coloca-se uma armação de ferro. “Usamos técnicas simplificadas e mais baratas, mas o material tem de suportar o sol do sertão, onde queremos que as réplicas fiquem, ao lado das pegadas, como se os dinossauros estivessem vivos, caminhando”, explica Leonardi. O projeto está parado por falta de recursos e de lugar – o que é uma pena, porque dele depende a preservação daquele precioso sítio paleontológico.

 

 

 

Pré-história pelo correio

A população dos dinossauros nos Estados Unidos escapou dos museus e chegou às agências do Correio. Desde outubro último, com efeito, circulam no país quatro selos que estampam esses bichões de estimação dos americanos. Mas o lançamento fez rugir de indignação os paleontólogos porque um dos selos identificou como brontossauro o dinossauro cujo nome científico de verdade é apatossauro.