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É mais fácil fazer o mal cumprindo ordens do que por vontade própria

Quem age de forma ruim sob o comando de um superior demora mais a perceber o mal que está cometendo. E isso ajuda a explicar do nazismo ao crime organizado.

Por Fábio Marton Atualizado em 31 out 2016, 19h06 - Publicado em 19 fev 2016, 17h45

Exceto pelos assassinos em série e terroristas solitários, os piores momentos da história da humanidade envolveram pessoas comuns recebendo ordens: “Cosntruam câmaras de gás”, “Lancem a bomba sobre Hiroshima”, “Preparar, apontar, fogo!”.

Inspirado nas atrocidades nazistas, o psicólogo Stanley Milgran fez um famoso experimento em 1961, no qual voluntários recebiam ordens de um pesquisador para administrarem choques progressivamente piores a outra pessoa através do vidro. Pelo qual podiam presenciar seu sofrimento. Ao final, 65% deles não pararam quando foi dada a ordem para aplicar uma dose letal. Não tinha choque nenhum e a pessoa do outro lado estava atuando, mas a aterradora conclusão é que a maioria pode se tornar assassina diante de uma autoridade, mesmo que seja só um sujeito de jaleco que você acabou de conhecer.

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O experimento foi retomado por cientistas da University College London e Université Libre de Bruxelles. Desta vez, eles experimentaram não apenas com choques, com uma versão mais branda, fazer a vítima perder dinheiro. Em alguns casos, os voluntários recebiam ordens, em outros, agiam por vontade própria.

Novamente, ordens fizeram com que as pessoas fossem mais malvadas que o normal. Mas o que eles queriam saber era como funciona esse mecanismo. “As pessoas frequentemente se desculpam com responsabilidade reduzida, dizendo que estavam ‘apenas obedecendo ordens'”, afirma Patrick Haggard, um dos condutores do estudo. “Mas elas estão dizendo isso apenas para evitar punição ou será que ordens realmente mudam a experiência de responsabilidade?”.

O novo experimento se baseou em um fenômeno mental chamado senso de agência. É o quanto nosso cérebro se percebe responsável por uma situação. E esse senso pode ser medido de forma objetiva. Quando uma pessoa acende uma lâmpada, por exemplo, ela percebe que a luz chega quase imediatamente, mesmo que leve alguns segundos. Isso porque seu senso de agência conecta ligar o interruptor à luz se acendendo e muda a percepção. “Quando você sente um senso de agência – ser responsável por um resultado – há mudanças na experiência do tempo e o que você fez e seus resultados parecem mais próximos”, afirma Haggard.  

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Os cientistas notaram que quando uma ação é negativa – como no caso de dar choques – esse senso se atrasa. Isso varia conforme o grau dessa negatividade: dar choques demora mais para ser percebido que tirar alguns trocados. E o atraso é ainda maior quando as pessoas estão agindo sob ordens. Ou seja, o tempo que você percebe entre ligar um interruptor por vontade própria e uma lâmpada acender, uma ação positiva, é muito menor do que o percebido entre apertar o botão de choque que alguém mandou você apertar.

Isso ajuda a explicar qualquer guerra, por exemplo. Soldados cometeriam atos horrendos sob ordens de seus superiores porque, ao não se sentirem responsáveis, seu cérebro literalmente distancia sua ação de suas consequências. O grupo pretende testar as diferenças nesse tempo entre pessoas que resistem mais ou menos à autoridade. “Felizmente para a sociedade, sempre existiram alguns que resistem à coerção”, conclui Haggard.

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