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Fronteiras extremas

As divisas de alguns países são tão impressionantes que podem ser vistas até do espaço. De um lado há verde e água; do outro, tudo é seco. Se aqui há ordem, lá reina o caos. Conheça nove das fronteiras mais contrastantes do mundo

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h47 - Publicado em 19 nov 2012, 22h00

Ana Prado

Veja imagens das fronteiras mais curiosas do mundo nesta galeria.

ESTADOS UNIDOS / MÉXICO – A CERCA DE METAL
Deste lado, Tijuana é caótica, cinzenta, densamente povoada, com uma proliferação de casas feitas de pneus e materiais reciclados. Sua expansão só é impedida por uma cerca. Isso porque do outro lado está San Diego, Califórnia. O cenário é opressor. O cercado é feito de chapas de metal usadas em pistas de pouso nas guerras do Vietnã e do Golfo. A imagem não deixa dúvida. Enquanto o centro de Tijuana avança rumo à fronteira e ao dinheiro americano, o de San Diego se afasta da pobreza mexicana. “Atravessar a fronteira pode levar até cinco horas. A segurança para entrar no lado americano é muito mais rígida, especialmente por causa do tráfico de drogas”, diz o americano Adam Johnson, que já fez a travessia mais de dez vezes – em alguns casos, só para comer em um restaurante mexicano. Segundo ele, a volta é tumultuada também porque policiais de Tijuana costumam exigir propina para seguir viagem. “São geralmente US$ 20, mas eles não deixam você sequer entrar na fila para cruzar a fronteira caso não pague”. E, se o trajeto México-EUA é bagunçado, o oposto é tranquilo: leva só dez minutos em média.

COREIA DO SUL / COREIA DO NORTE – PARALELO 38 N
Ao final da Guerra da Coreia, em 1953, os dois lados determinaram um cessar-fogo e estabeleceram uma zona de segurança na fronteira, no paralelo 38 graus ao norte do Equador. Sob a supervisão da ONU, a área é conhecida como “zona desmilitarizada” e acabou virando, sem querer, um dos maiores pontos turísticos da Coreia do Sul. Ninguém pode passar para o norte. E nem iria querer: placas avisam sobre as inúmeras minas terrestres que cercam as estradas. O fotógrafo brasileiro Ricardo Azoury esteve na fronteira. “Não é um turismo fácil. Você precisa se justificar o tempo todo. No meu caso, tive uma escolta”, diz. Estas casas são postos de fronteira e têm uma porta em cada lado para que soldados entrem sem invadir o país vizinho.

HOLANDA / BÉLGICA – FRONTEIRAS BAIXAS
Baarle tem limites complicados. Parte dela é da Holanda e se chama Baarle-Nassau, enquanto a outra pertence à Bélgica e é Baarle-Hertog. Cada uma tem sua prefeitura, policiais etc. Mas a divisa não é marcada por uma linha contínua: é toda feita de estilhaços. Há vários pedaços de Baarle-Nassau dentro de Baarle-Hertog e vice-versa. Os únicos indicadores do país em que você se encontra são marcações na rua e minúsculas bandeiras nacionais na porta das casas. A origem está no século 12, quando dois senhores feudais não chegaram a um consenso para dividir a área de maneira simples. Hoje, as fronteiras não têm importância política, mas são defendidas pelos habitantes: eles dizem que, se não fosse isso, a(s) cidade(s) seria(m) um lugar qualquer.

HAITI / REPÚBLICA DOMINICANA – ILHA RASGADA
A fronteira das duas nações que dividem a ilha de Hispaniola, no Caribe, tem contrastes extremos. “Em muitos lugares nessa área, podemos olhar para o leste [o lado dominicano] e ver florestas de pinheiros e, ao virar para o outro lado [o haitiano], vemos apenas campos quase desprovidos de árvores”, descreve o geógrafo Jared Diamond no livro Colapso. Originalmente, a ilha como um todo era conhecida pela exuberância de suas florestas. Hoje, 28% da cobertura vegetal está preservada na República Dominicana, contra apenas 1% no Haiti – e as poucas reservas haitianas estão ameaçadas por camponeses que derrubam árvores para fazer carvão vegetal. A razão é histórica. Apesar de ser hoje um dos países mais pobres do mundo, o Haiti desenvolveu uma pujante economia agrícola no século 18, chegando a ser a colônia mais rica da França. “Nessa época, o império francês decidiu investir em plantações intensivas baseadas em trabalho escravo, enquanto a Espanha não desenvolveu o seu lado da ilha [a República Dominicana]”, explica Diamond. Além disso, todos os navios que traziam escravos voltavam para a Europa com cargas de madeira. Isso contribuiu para o desmatamento mais rápido e a perda de fertilidade do solo – o que dá para ver do céu.

BRASIL / FRANÇA – PARIS, AMAPÁ
Sim, o Brasil faz fronteira com a França – e é a maior que eles têm, com quase 700 quilômetros, na Guiana Francesa, um departamento ultramarino da França que faz divisa com o Amapá. Lá, a moeda corrente é o euro, o que há anos atrai amapaenses em busca de trabalho. Tanto que há muitos brasileiros francófonos na fronteira. Mesmo assim, a única ponte que liga o Brasil à Guiana Francesa, sobre o rio Oiapoque, ainda não foi inaugurada. Ela está pronta desde 2011.

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ISRAEL / EGITO / PALESTINA – TRÍPLICE REALIDADE
Desde a criação de Israel, em 1948, a terra do país ficou de cara nova, com áreas irrigadas e cultiváveis, afastando-se da secura do país vizinho, o Egito. Hoje, Israel tem áreas maiores de agricultura comercial irrigada. Enquanto isso, o solo egípcio tem uma cor bem mais clara por causa da destruição de crostas biológicas que o recobrem – o que pode ter sido provocado pelo pisoteamento da terra por homens e animais, com o pastoreio excessivo. Já a Faixa de Gaza, território palestino situado em uma estreita faixa costeira ao longo do mar Mediterrâneo, se destaca por outra característica: a enorme concentração de pessoas, a maioria refugiados, em um pequeno espaço. São 4 mil habitantes por quilômetro quadrado, dez vezes mais que Israel – e a densidade demográfica do Egito é menor ainda: apenas 74 pessoas por quilômetro quadrado. Com todo esse povo, apenas 13% da Faixa de Gaza tem terras cultiváveis. Até do ponto de vista da Nasa, os contrastes na região são gritantes.

ÍNDIA / BANGLADESH – MISÉRIA, MISÉRIA
São mais de 200 enclaves (um território dentro dos limites de outro) e exclaves (território pertencente a outro, mas que não está fisicamente junto). Para se ter uma ideia, há um pedaço da Índia dentro de um pedaço de Bangladesh que, por sua vez, está dentro da Índia. E por aí vai. Mas não basta a complexidade das fronteiras, a disparidade também choca: o lado bengalês é devastado, enquanto o indiano tem florestas subtropicais. “De uma forma geral, a fronteira de Bangladesh é um reflexo do país como um todo”, afirma Moises Lopes de Souza, especialista em Ásia do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP. “Ele sofre com a superpopulação, e quase metade de seus 150 milhões de habitantes sobrevive em condições miseráveis”. O país é majoritariamente agrário. Quase toda a terra arável na região tem sido cultivada ou urbanizada, resultando na devastação de grande parte das florestas originais.

LETO / ÁFRICA DO SUL – DESERTO E HIV
Praticamente todo o contorno do Lesoto, um reino do tamanho de Alagoas encravado no meio da África do Sul, pode ser visto do espaço. Na fronteira oeste, no lado sul-africano, a terra é densamente cultivada e irrigada, enquanto em Lesoto ela está devastada. Além da pobreza extrema e da Aids (uma em cada quatro pessoas tem o vírus HIV), a desertificação e a erosão do solo são um problema grave no país. A culpa, mais uma vez, é da exploração da madeira, usada como combustível, e do pastoreio desenfreado.

ÍNDIA / PAQUISTÃO – A DANÇA DA DIVISA
Wagah é uma cidade dividida ao meio: metade indiana, metade paquistanesa. É ali que, todas as tardes, desde 1959, há uma cerimônia militar de fechamento dos portões da fronteira. Idealizada e coreografada pelas patrulhas dos dois lados em respeito à soberania mútua, ela atrai turistas de todo o mundo. “A coreografia, tentativa de demonstração de bravura e intimi-dação, muitas vezes foi um indicativo das relações entre os países durante as guerras pelo controle da região da Caxemira”, diz o pesquisador Moises de Souza. Em 2010, ambas as partes assinaram um acordo para amenizar o tom belicoso da cerimônia e evitar provocações por parte do público.

Fontes Jadson Porto, pesquisador de desenvolvimento regional da Universidade Federal do Amapá; Kelly Ferreira, especialista em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (Unesp – Unicamp – PUC-SP); Moises Lopes de Souza, especialista em Ásia do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP e da National Chengchi University, em Taiwan; Rebeca Steiman, geógrafa especialista em fronteiras sul-americanas e pesquisadora do Grupo Retis/UFRJ

PARA SABER MAIS

Mixed Feelings: San Diego/Tijuana
Documentário da PBS, 2003.

The Lesotho/Free State Border
Jonny Steinberg (www.iss.co.za/pubs/papers/113/Paper113.htm).

Colapso
Jared Diamond, Editora RCB, 2005.

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