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Geleira que homenageava geólogo afastado por assédio muda de nome

David Marchant emprestou seu nome a um glaciar na Antártida por mais de 20 anos. Até que as acusações de uma ex-aluna vieram à tona - e foram comprovadas

A invisibilidade da mulher no meio científico ainda é uma das grandes questões da área. Casos de desrespeito e assédio à elas dentro desse universo são tão comum que acabam desestimulando muitas mulheres a seguir essa carreira. Por isso, a atitude simples de renomear uma geleira, como aconteceu nos EUA semana passada, é algo bem significativo.

A história começa em 1994. David Marchant, um geólogo da Universidade de Boston, EUA, deu seu nome a uma geleira na Antártida em homenagem a seus estudos sobre essas grandes massas de gelo. Desde então, ela se chama Glaciar Marchant.

As coisas começaram a se complicar para Marchant em 2016. Jane Willenbring, uma ex-orientanda de pós-graduação, o denunciou por assédio verbal e sexual. Willenbring, agora geóloga na Instituto Scripps de Oceanografia, em San Diego, Califórnia, apresentou sua queixa à Universidade de Boston três meses depois de assumir o atual cargo. Ela confessou que não denunciou nada na época do acontecido, em um trabalho de campo na Antártida entre 1999 e 2000, por medo de represálias do professor — que ainda ocupava uma posição hierarquicamente muito superior à dela.

Marchant sempre negou toda e qualquer irregularidade. Mesmo assim, as investigações da universidade concluíram que ele é culpado. De acordo com o relatório, Jane foi assediada verbalmente durante o trabalho (ouvindo xingamentos como “vagabunda” e “puta”), o que foi comprovado por outras testemunhas, mas eles não acharam nada conclusivo em relação às acusações de violência sexual.

O professor foi posto sob licença remunerada da universidade em fevereiro deste ano. Depois, o Conselho dos Estados Unidos em Nomes Geográficos, com a aprovação do Comitê Consultivo sobre Nomes Antárticos (Acan, na sigla em inglês), aprovou a proposta de alteração do nome, recebida em 21 de abril. Agora, a geleira se chama Glaciar Matataua, por ficar próximo ao Pico Matataua.

A justificativa para a mudança informa apenas que rebatizar a geleira a coloca “em linha com as políticas da Acan”. Ao ser questionado sobre quais seriam essas políticas, representantes do conselho afirmaram que eles endureceram suas regras sobre homenagens, para que elas só fossem concedidas após o fim da carreira do homenageado.

“Acho que a decisão reflete o fato que, sob a antiga política, a homenagem foi concedida cedo demais na carreira. Não sabíamos o que aconteceria ou seria descoberto depois”, afirmou Louis Yost, secretário-executivo do conselho ao site Earther.

Mesmo que a justificativa do comitê não tenha mencionado explicitamente o caso, trata-se de uma grande vitória do movimento #metoo, que desde o ano passado vem trazendo à tona casos de assédio moral e sexual em diversas áreas.