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Meninos choram, sim: artes marciais estão ajudando crianças a lidar com sentimentos

Academia americana não foca apenas no físico: a ideia é fazer com que os discípulos - todos meninos - entendam que emoções também são coisa de homem

Por Helô D'Angelo Atualizado em 31 out 2016, 19h06 - Publicado em 10 ago 2016, 19h45

Um menino, vestido em um kimono, tenta quebrar uma tabua com golpes. Ele tenta, tenta, tenta até que consegue – mas se machuca e se frustra tanto com as várias tentativas que começa a chorar. O professor, um homem alto e forte, dispara a pergunta: “Por que você está chorando?”. O resto da cena é surpreendente: em vez de humilhar o garoto com o clichê “homens não choram”, o mestre diz: “É ok chorar. Nós choramos como homens. É disso que se trata essa aula”. 

Jason Wilson, mestre de artes marciais há 22 anos, é o professor da cena acima. Para ele, dizer que “meninos não choram” é besteira – todo mundo chora, afinal. Para explorar isso, Wilson criou a academia de artes marciais The Cave of Adullam, em Detroit – uma das cidades com mais violência policial e de gangues dos EUA . 

LEIA: Por que choramos?

Diferente da maioria das escolas de luta, a Cave of Adullam não foca apenas no físico – nem incentiva seus alunos a participar de competições: a ideia é “ensinar, treinar e transformar esses meninos antes que o mundo o faça”, diz Wilson, no vídeo de apresentação da academia. A escola – que Wilson chama de Transformational Training Academy (Academia de Treinamento Transformacional), ensina as modalidades Aikijutsu, Jiujitsu, Kempo e Boxe e, ao mesmo tempo, os professores – o mestre Wilson e o instrutor Chris Norris – ajudam os garotos a encarar emoções como raiva, tristeza, saudade e inveja. 

A ideia é mostrar para os meninos que é falsa a noção de masculinidade que os filmes, os quadrinhos e as séries de TV passam: aquele sujeitão agressivo, sem contato com as próprias emoções. “Durão”, no jargão das dublagens. “Ninguém permite que homens sejam emocionais. A cultura prega que nós usemos uma roupa de Super homem o tempo todo. Isso acaba machucando os próprios meninos”, explica Wilson. 

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LEIA: A arte de lutar

Outra frente de luta contra a “falsa masculinidade” é o fortalecimento dos laços entre pais e filhos: em algumas aulas, os pais podem participar, e exercícios em duplas são passados para aumentar a confiança e a comunicação entre os dois – um exemplo desse tipo de exercício são as flexões do pai com o filho nas costas, que funciona como uma metáfora da sustentação dos filhos. O professor também procura dar um apoio aos muitos alunos cujos pais são ausentes – o que, segundo Wilson, muitas vezes desencadeia a agressividade nos meninos. “Estaremos aqui para eles. Queremos que eles saibam que aqui há alguém com quem eles podem contar”. 

“Minha tese de combate é amar sempre e só lutar se for necessário”, diz Wilson. “É vital que eu ensine os meninos que a violência começa antes que os punhos sejam cerrados, e antes que as balas sejam disparadas. Qualquer um pode quebrar a mandíbula de alguém, mas queremos ensinar que esses meninos não precisam provar que são poderosos”.

Assista (em inglês):

 

 

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