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Perdeu a carteira? Quanto mais dinheiro estiver nela, maiores as chances de ser devolvida

Um estudo feito em 40 países mostrou que as pessoas são mais honestas quando há dinheiro envolvido – inclusive no Brasil.

Por Maria Clara Rossini - Atualizado em 13 fev 2020, 14h21 - Publicado em 28 jun 2019, 18h40

Perder a carteira normalmente é motivo de desespero para a maioria das pessoas. Afinal de contas, é pouco provável que alguém devolva um monte de dinheiro encontrado na rua, certo? Talvez não. Uma pesquisa mostrou que, na verdade, as pessoas são mais honestas do que se imagina quando se trata de carteiras perdidas.

Imagine a seguinte cena: você está trabalhando quando um estranho te aborda e diz que achou uma carteira perdida no chão. Ele está com pressa e não tem tempo de procurar o dono. Então, ele te entrega a carteira e pede para que você cuide dela. A partir desse momento, o que fazer com ela é decisão sua.

Esse foi o cenário criado pelos pesquisadores. O experimento foi realizado em 355 cidades de 40 países diferentes, incluindo o Brasil. O objetivo era estudar como as pessoas se comportam e exercem a honestidade quando há um benefício em jogo — como o dinheiro. O estudo foi publicado pela revista Science.

Atores que colaboraram com a pesquisa faziam o papel do “estranho”. Eles portavam uma carteira transparente contendo três cartões de visita idênticos, uma lista de supermercado e uma chave. A carteira poderia estar sem dinheiro ou com um valor equivalente a 21 reais. Os atores procuravam funcionários de alguma instituição — como museu, banco, hotel ou correio — e encenavam toda a cena que descrevemos acima. A carteira era transparente para garantir que o funcionário visse de antemão o que tinha dentro dela.

O experimento foi feito com mais de 17 mil “carteiras perdidas”. Os pesquisadores esperavam 100 dias para verificar se as pessoas entrariam em contato para devolver a carteira (o email para o contato estava no cartão de visita). O idioma do cartão e da lista de compras variava de acordo com o país em que a experiência era feita, e quantia era na moeda local de cada país participante.

O estudo verificou que era mais provável que a carteira fosse devolvida caso ela contivesse dinheiro. As porcentagens variam significativamente de um país para o outro, mas quase todos mostraram um aumento nas devoluções quando havia dinheiro envolvido.

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Na China, 7% das pessoas devolveu as carteiras que estavam vazias, enquanto 22% devolveu as carteiras cheias. No Brasil, a porcentagem foi de 33% para as vazias e 50% para as cheias. Já na Suíça, os valores foram de 74% e 79%, respectivamente.

Os pesquisadores dizem que, em média, adicionar dinheiro na carteira aumenta a probabilidade de devolução de 40% para 51%. Somente dois países mostraram um declínio nessa porcentagem. O México foi de 25% para 18% e o Peru de 13% para 12%.

A pesquisa foi além. Os cientistas escolheram três países — Estados Unidos, Reino Unido e Polônia — para conduzir uma segunda fase do experimento. Dessa vez, eles adicionaram uma carteira contendo ainda mais dinheiro: 94 dólares, o equivalente a 360 reais atualmente.

Os pesquisadores perceberam que quanto maior a quantidade de dinheiro, maior era a chance da carteira ser devolvida. A média de devolução das carteiras vazias foi de 46%, a de carteiras com 13 dólares foi de 61%, e as com 94 dólares foi 72%.

Os autores do estudo levaram vários fatores em consideração que poderiam influenciar a decisão da pessoa — como presença de câmeras de segurança e penalidades de cada país. Mesmo assim, eles afirmam que nenhum desses fatores explica significativamente a variação nas porcentagens.

Em entrevista ao New York Times, o pesquisador Alain Cohn entende que as pessoas tenham sido motivadas pelo “peso psicológico de uma ação desonesta”. Segundo os pesquisadores, dois elementos podem ter motivado as pessoas à devolver as carteiras: altruísmo e preocupação com a própria imagem. As pessoas querem ver a si mesmas como bons seres humanos, e não como “ladrões”.

É bom frisar que o estudo fez o experimento apenas com funcionários de instituições que prestam serviços ao público – bancos, hotéis, museus. Talvez o resultado fosse diferente com pessoas com outro tipo de cargo e campo de atuação, ou com indivíduos que acharam uma carteira na rua por conta própria. De qualquer forma, a pesquisa contraria nossas expectativas sobre a natureza humana. Talvez você possa ficar mais otimista da próxima vez que perder a carteira.

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