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Por que você está bebendo mais na quarentena?

Ansiedade e quebra de rotina são alguns dos fatores. Saiba porque o álcool parece tão atraente nesse cenário, e entenda melhor os perigos.

Por Carolina Fioratti - Atualizado em 11 Maio 2020, 18h19 - Publicado em 11 Maio 2020, 18h16

Os bares estão fechados, mas os supermercados e serviços de entrega vendem mais bebidas alcoólicas do que nunca. O fenômeno é mundial; no mês de março, quando comparado ao mesmo mês do último ano, houve um crescimento de 22% nas vendas britânicas e 55% no comércio americano. Não há dados amplos para o Brasil, mas as redes Extra e Pão de Açúcar relataram uma alta de 30% nas vendas de vinho para a Páscoa deste ano em relação à última, por exemplo.

A resposta mais óbvia é a ansiedade generalizada. Quem está trabalhando de casa (ou ficou desempregado e não consegue se realocar com a economia em queda livre) está numa situação longe do normal. Nisso, não há como não bater ansiedade – e o álcool acaba servindo como uma automedicação, perigosa, contra essa sensação.

Mas não é só isso. Outro ponto, fundamental, é o chamado “viés de confirmação”. As “festinhas” remotas, por videochamada, se tornaram o principal meio de socialização para muita gente. E aí junta-se a fome com a vontade de comer. “A gente já tem uma parte do cérebro dizendo que tomar algo vai melhorar as coisas, e aí vamos para as redes sociais e vemos os nossos amigos postando seus “drinks de quarentena” e seus happy hours no Zoom”, disse à BBC a americana Annie Grace, autora de diversos livros sobre alcoolismo.

Ela completa: “Desse jeito, acabamos justificando para nós mesmos o hábito de beber com mais frequência, mesmo que isso já esteja fazendo mal”

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O efeito calmante da bebida, tão necessário para alguns nesse período, ocorre quando o álcool estimula certos neurotransmissores no cérebro, principalmente o ácido gama-aminobutírico (GABA). Ele desacelera as conexões neurais, trazendo aquela sensação de mente pastosa.

O álcool afeta também o centro de prazer e recompensa do cérebro, estimulando a liberação de dopamina. Esse é o neurotransmissor responsável por fazer você querer mais uma taça.

O efeito relaxante e prazeiroso, porém, acaba rápido. Após uns 30 minutos, o corpo começa a expulsar o álcool do sangue, e o estresse volta ainda mais forte. Para baixar esse efeito rebote, a pessoa tende a beber mais, e entra num ciclo vicioso – que pode ser pior quando você está bebendo sozinho, já que não há outras distrações quando o estresse chega. Esse quadro pode intensifica casos de violência doméstica, inclusive – de acordo com a ONU, eles aumentaram em todo o globo durante a pandemia. 

África do Sul, Índia, Sri Lanka e Groenlândia chegaram a proibir o comércio de bebidas alcoólicas na pandemia, mas isso traz problemas também para dependentes, que estão agora enfrentando crises de abstinência – além de, sim, quebrar uma válvula de escape que pode, para a maior parte das pessoas, ser acionada com moderação.

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A Organização Mundial da Saúde também divulgou um relatório em que aborda os malefícios do álcool na pandemia. Ele pode ser ainda mais perigoso, pois diminui a capacidade do sistema imunológico de combater infecções. Notícias falsas de que a bebida matava o vírus fizeram com que a OMS repetisse várias vezes em seu documento que “sob nenhuma circunstância, você deve beber qualquer tipo de produto alcoólico como forma de se prevenir ou tratar a infecção por COVID-19”.

No Brasil, as reuniões dos Alcoólicos Anônimos continua acontecendo de forma online. Para mais informações, consulte esse link aqui.

 

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