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Profissão: perigo. Trabalhadores nas alturas.

Com a mesma tranqüilidade de quem trabalha atrás de uma mesa de escritório, esses operários se equilibram a dezenas de metros do chão para executar suas tarefas.

Acima, uma linha de alta tensão de 88 000 volts; abaixo, um vazio de l4 metros. Sebastião Granjeiro ainda estava subindo, por isso seu cinto de segurança estava aberto, quando um arame preso ao cinto aproximou-se da linha energizada e provocou a descarga. Na explosão, Sebastião foi atirado para longe, da altura equivalente a um prédio de cinco andares. Ele teve sorte: sofreu queimaduras graves, mas quebrou apenas o dedo mínimo do pé. Dias depois de receber alta do hospital, lá estava Sebastião novamente, encarapitado em cima de uma torre de alta tensão. Granjeiro, como seus colegas, parece não ter medo das alturas.

“Tenho medo, sim. Tive muito medo quando comecei e até hoje, cada vez que subo, tenho medo de novo”, lembra Manoel Lima, chefe de Granjeiro no setor de manutenção de linhas de transmissão da Eletropaulo, empresa de energia elétrica paulista. “Nós, que trabalhamos lá no alto, temos um ditado: quem não tem medo morre cedo”, explica Lima. Na verdade, o único grupo conhecido até agora que não sofre de vertigem das alturas é a tribo de índios navajos norte-americanos. Devido a essa característica, os navajos têm sido alvo da atenção dos antropólogos e empreiteiros norte-americanos.

Uns, por motivos científicos, para estudar sua estranha herança genética; outros, por motivos econômicos: operários ultra-especializados, os navajos são presença obrigatória em todas as grandes obras nos Estados Unidos. Nas pontes e arranha-céus, eles trabalham tão tranqüilamente quanto se estivessem no chão. Sem a natural aptidão dos navajos, há quem considere o trabalho a dezenas ou centenas de metros de altura um prazer. Como Leonel Brites, que treina operários que fazem esse tipo de trabalho e já foi duas vezes à Antártida em missões semelhantes a convite da Marinha. Nas horas de folga, Brites é balonista e alpinista.

Os trabalhadores treinados por Brites utilizam uma técnica semelhante à dos alpinistas. Uma vez junto à obra, instalam firmemente seus ganchos e estacas. Da solidez desse equipamento depende a vida, quando balançam no vazio. A todo momento apertam os suportes pessoais, soltam cabos de fio duplo e deslizam em queda quase livre. Um bloqueador de cordas lhes permite ficar com as mãos livres para fazer o trabalho. “Até hoje sinto um friozinho na barriga quando estou descendo”, conta Aguinaldo Ferreira Guilherme, um desses operários. “Mas tenho uma certeza: vou morrer de qualquer coisa, menos de queda.”

Uma certeza comum a todos os trabalhadores nas alturas; para eles, só cai quem desobedece às normas de segurança. Uma prova disso são seus colegas da França. Lá, ao contrário dos operários que trabalham com os pés no chão, os trabalhadores das alturas não registraram um único acidente nos últimos trinta anos. Infelizmente, não ocorre o mesmo no Brasil. Na única pesquisa disponível sobre o assunto, a engenheira Mônica Hahni Negrão, da Divisão de Segurança e Saúde do Trabalho em São Paulo, verificou que 57,69% das mortes em acidentes do trabalho entre 1979 e 1982 foram provocadas por quedas, das quais 12,82% de escadas e 44,87% de — ou do lado de fora de — edifícios ou outro tipo de construção.

Apesar de muito distante da perfeição francesa, a Alemanha é um dos países do mundo com menor índice de acidentes entre os trabalhadores das alturas. Wolfram Kinne, encarregado de consertar o material eletrônico no alto da torre de telecomunicações de Essen, tem uma explicação para o baixo índice de acidentes nesse tipo de trabalho: a boa qualidade do equipamento de segurança. Kinne lembra-se apenas de um acidente, com um rapaz que participava de um exercício de descida de emergência e, tomado pela vertigem, confundiu os dois cinturões de segurança e abriu exatamente o que o protegia.

“Os operários dos andaimes nunca cometem esse erro, pois precisam do cinturão de segurança para se moverem melhor”, assegura o turco Huseyn Aker, na Alemanha, que manobra diariamente tubos metálicos de 12 toneladas no alto de um prédio em construção. Para Wolfram Kinne, o equipamento de segurança que usa é tecnicamente perfeito, o que o deixa tranqüilo para executar seu trabalho, apesar da falta de espaço e do forte vento, que o faz balançar-se perigosamente. O vento, aliás, é o maior risco para o trabalho do sergipano José Antônio dos Santos no cubículo a 120 metros de altura de onde opera uma grua nas obras do World Trade Center, na zona sul de São Paulo.

Foi o primeiro emprego que conseguiu quando chegou à cidade, há dez anos, e nunca mais o deixou. Diariamente, às 7 horas, Santos sobe por uma estreita escada de aço para seu posto, levando água e comida para uma jornada solitária de doze horas, acima até de seus colegas que trabalham nos andaimes. Com chuva ou ventania, ele não trabalha. Mas, se for surpreendido por uma tempestade na cabine de comando da grua, não desce. Com vento, apesar do cinturão de segurança, é menos perigoso enfrentar a tormenta em seu cubículo que descer. Legalmente, trabalhar nessas condições não acrescenta um centavo a mais em seu salário, em relação aos colegas que trabalham em terra firme. Casado, pai de duas crianças, Santos diz que sua família não tem medo de seu trabalho. “Acho mais fácil morrer aqui embaixo que lá em cima.”

Para saber mais:

Um corpo nas alturas

(SUPER número 10, ano 7)