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Ter filhos ainda virgem

O processo é mais comum do que se imagina entre animais. Resta saber o que aconteceria se fosse induzido em humanos

Texto Reinaldo José Lopes

Com exceção da Virgem Maria, que é um caso um bocado difícil de certificar com a ajuda da ciência moderna, não há casos de seres humanos que te-nham gerado filhos sem se utilizar da reprodução sexuada. O mesmo acontece com os mamíferos, nossos parentes mais próximos no reino animal. Isso não significa, contudo, que a partenogênese, ou nascimento virgem, seja uma completa impossibilidade. Pelo contrário: ela é tão comum em tantos tipos de criaturas – insetos, salamandras, lagartos, tubarões e outras – que é o caso de perguntar se o organismo humano não precisaria apenas de um empurrãozinho para operar esse tipo de mágica.

Motivos variados

A partenogênese acontece por motivos diferentes em bichos diferentes. Uma explicação proposta para o fenômeno nos dragões-de-komodo, os lagartões de baba tóxica muito temidos na Indonésia, é que ela pode ajudar determinada espécie a colonizar novos ambientes. Imagine uma fêmea de dragão-de-komodo que, sozinha, foi parar numa ilha deserta, levada pelo mar. Se o bicho conseguisse produzir descendentes sem um macho por perto, ganharia uma chance de manter sua linhagem viva.

O caso do dragão-de-komodo é interessante para mostrar algumas coisinhas relacionadas à partenogênese que vão contra o senso comum. É verdade que, em geral, a mãe só consegue produzir bebês de um único sexo por esse processo. Mas o sexo específico vai depender de detalhes genéticos de cada espécie. Mamíferos, por exemplo, determinam o sexo de seus filhotes por meio dos cromossomos X e Y. Meninas carregam dois cromossomos X, enquanto meninos são XY. No caso dos dragões-de-komodo, a coisa se inverte – os machos é que são o sexo com dois cromossomos iguais. Por isso, as mamães partenogenéticas do réptil só podem dar origem a filhotes do sexo masculino.

Isso quer dizer que, se a coisa fosse natural em humanos, as mães só poderiam dar origem a meninas. Que existe uma possibilidade de isso acontecer foi demonstrado em 2007 pela equipe de Elena Revazova, cientista da empresa californiana International Stem Cell Corporation. O truque deles foi, grosso modo, “convencer” um óvulo humano a “achar” que ele tinha sido fecundado, com a ajuda de substâncias que imitam o ambiente uterino quando os espermatozoides estão por perto.

A intenção declarada desse tipo de pesquisa não tem nada a ver com uma imitação de Nossa Senhora. O que os cientistas querem é usar o óvulo para produzir um embrião que serviria de fonte para células-tronco embrionárias, as quais têm potencial para tratar uma enorme gama de doenças degenerativas. Muita gente duvida que seria possível fazer um embrião como esse vingar, porque ele não carrega genes de origem paterna que são essenciais para o desenvolvimento correto do feto.

Se isso é um empecilho para que o procedimento seja realizado hoje, ninguém garante que, com o avanço da biologia molecular, os pesquisadores consigam, no futuro, acertar “no braço” o DNA do embrião oriundo de partenogênese, de forma a imitar as marcações genéticas oriundas do pai.

Um filho partenogenético seria apenas o clone de seu genitor? O engraçado é que a resposta mais correta é “não”. O que acontece é que, durante a produção dos óvulos, ocorre um “embaralhamento” natural dos genes da mulher, induzindo diferenças genéticas pequenas, mas importantes, entre o DNA no corpo dela e o DNA que as células sexuais carregam. Por isso, quem estiver interessado em produzir cópias genéticas de si mesmo deve preferir o método já consagrado pela ovelhinha Dolly.