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2013: o ano do livro digital

Os livros eletrônicos vivem uma revolução no Brasil: já são mais de 15 mil títulos em português. Saiba por que isso é bom para você - e para os livros de papel também

Raquel Cozer*

O Big Bang dos livros digitais no Brasil finalmente aconteceu. Foi em 5 de dezembro de 2012. Num intervalo de menos de 24 horas, estrearam a Amazon brasileira (trazendo junto seu leitor eletrônico, o Kindle), a canadense Kobo (rival da Amazon) e a loja de livros digitais do Google. A Apple, aliás, tinha estourado a largada: para conseguir vender e-books em português antes de todas as outras, começou a oferecê-los em dólares mesmo, em outubro.

O Brasil já tinha suas próprias lojas de livros digitais, locais, desde o final de 2009. Mas faltavam dois detalhes essenciais para que vivêssemos o cenário que os Estados Unidos vislumbraram no final de 2007, quando a Amazon lançou o Kindle por lá. Faltavam aparelhos de leitura a preços razoáveis e um acervo que fosse digno desse nome. Ambos foram impulsionados pela chegada das lojas estrangeiras.

Gadgets para ler até já existiam por aqui, claro, já que os tablets também servem para isso. Mas com a Amazon e a Kobo chegaram os aparelhos feitos apenas para a leitura, com tela que não brilha. Seus olhos agradecem. E tem o preço. Enquanto o iPad custa mais de R$ 1.000, um Kindle ou um Kobo saem por menos de R$ 300.

Outro problema começou a ser resolvido antes mesmo de as lojas estrangeiras chegarem. Como a vinda delas era iminente, as editoras nacionais passaram a digitalizar em massa seus catálogos. No começo de 2012, tínhamos 6 mil livros digitais em português. No de 2013, 15 mil. Nem é tanto das centenas de milhares de títulos que as editoras têm a oferecer. Mas, para o leitor, o que existe agora já é um mundo. Especialmente no Brasil, onde quem não mora nas cidades grandes enfrenta uma barra para encontrar uma livraria. Esse leitor já dependia das lojas virtuais para comprar livros, mas, com a chegada dos digitais, não precisa mais esperar dias para recebê-los. Sessenta segundos o separam daquilo que ele quer ler. Mesmo que esse leitor more numa capital, ele aprende que pode baixar um livro em menos tempo do que leva para fazer baliza no estacionamento do shopping.

Essa comodidade trouxe algo novo: nos países em que o livro digital já pegou, as pessoas começaram a ler mais. Uma pesquisa da Pew Research Center nos EUA mostrou que os leitores de e-books leem 24 livros por ano, ante 15 livros para quem se mantém fiel apenas ao impresso. Natural: para começar, livro digital não ocupa espaço. E espaço é um artigo precioso no mercado de livros. O metro quadrado nas livrarias é escasso. Custa caro. Então não é fácil encontrar por aí obras que não sejam os best-sellers de sempre. Pra que elas vão gastar espaço com livros que vendem pouco? Já as lojas de e-books têm um espaço virtualmente infinito. Em tese, dá para comprar qualquer obra ali. Aquele livro que você sempre quis ter e nunca nem viu numa livraria quase certamente vai existir um dia no formato digital. Nisso, cada leitor encontra o que mais gosta. Cada tampa acha a sua panela. E as pessoas acabam lendo mais.

E elas não leem mais só porque é mais fácil comprar. É mais fácil na hora de ler também. Baixou O Amanuense Belmiro para o vestibular e não sabe o que é a palavra “amanuense”? É só por o dedo em cima dela e um dicionário diz. Até deixar marcas de leitura nos livros ficou mais tranquilo. Você seleciona o trecho com o dedo e ele já aparece em destaque. É tão intuitivo que uma hora você vai se pegar tentando selecionar palavras com o dedo num livro de papel.

Ah, também dá para ver quais trechos foram mais marcados pelos outros leitores. Legal que, desse jeito, dá para aprender algumas coisas inusitadas sobre a cabeça das pessoas. Tipo: o livro mais sublinhado de todos os tempos no Kindle, fora a Bíblia, é Steve Jobs, de Walter Isaacson. E o trecho mais marcado ali é “finja que está no controle, e as pessoas vão achar que você está”. Aliás, esse tipo de dissimulação é mais ou menos o que a Amazon vem fazendo. A empresa gosta de divulgar que já vende mais e-books que livros em papel. Mas isso não significa que o livro digital já assumiu o controle do mercado. A verdade é que, mesmo com a clientela digitalizada da Amazon, só um em cada quatro leitores americanos já experimentaram um Kindle, um Kobo ou qualquer outro leitor.

Mesmo assim, a adesão ao digital surpreende. Outra pesquisa da Pew mostra que, há pouco mais de um ano, apenas 16% dos leitores tinham tido contato com livros digitais. Agora essa fatia está em 23%. Ou seja: é, sim, apenas um quarto. Mas até há pouco tempo era um sexto, então o que temos é um ritmo de crescimento impressionante. Chegar aos 100%, ao que parece, é questão de tempo. No Brasil não deve ser diferente. E em algum momento o livro impresso talvez seja para o digital aquilo que os manuscritos já foram para o livro de papel: uma sombra do passado. Tanto que a palavra que denomina o profissional que faz manuscritos está morta. É “amanuense”.

O livro de papel vai acabar, então? Por inusitado que pareça, não. A massificação dos livros digitais pode até ser boa para quem gosta de livros impressos. Livro, afinal, também é objeto de decoração. Mesmo quem hoje praticamente só lê livros digitais gosta de exibir uma estante cheia de lombadas – o fetiche por livros, vale lembrar, é até maior do que aquele que ainda movimenta a indústria de discos de vinil. E agora só vão sobreviver no mercado de impressos as editoras que fizerem os livros mais bonitos, caprichados, daqueles que dá gosto de folhear. As tranqueiras podem ficar só no digital mesmo. Ainda mais porque, com ele, ninguém sabe o que você está lendo.

*Repórter e colunista da Folha de S. Paulo