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Batemos um papo com Juliano Enrico, criador do ‘Irmão do Jorel’

Juliano é irmão do Jor-El. E é irmão do Nico também. E ele falou sobre a vovó Juju virando rapper, fotos constrangedoras no Flogão e uma possível revelação do nome do irmão do Jorel

“Todo mundo pode ser o irmão do Jorel: aquela criança comum que sempre fica atrás dos próprios irmãos. É por isso que o irmão do Jorel não tem nome: somos todos ele”. É assim que o diretor de animação Juliano Enrico define o protagonista da sua série, Irmão do Jorel – o primeiro desenho brasileiro de sucesso do Cartoon Network.  Faz sentido: no cartum, um molequinho de 9 anos (cujo nome real é um mistério) precisa enfrentar o fato de ser apenas o irmão do Jorel, um cara maravilhoso com um cabelo impecável que é bom em TUDO o que faz.

As aventuras, que sempre rolam em um cenário tipicamente brasileiro, contam com uma vovó que adora alimentar os netos, um pai que era parte da resistência contra uma ditadura de policiais (desenhados como palhaços), uma mãe fisioculturista chamada Danuza e uma paixão platônica do irmão do Jorel que tem uma pinta na coxa igualzinha à da apresentadora Angélica.

A próxima temporada vem aí, no dia 10 de outubro, às 21h no Cartoon Network. Por enquanto, confira o nosso papo com o Juliano: 

Como era a vida antes do Irmão do Jorel?
Cara, eu estava em um emprego horrível, filmando fachadas de prédios para uma empresa de publicidade, era chato demais. Mas eu voltava pra casa e ficava criando: eu tinha uma revista chamada Quase, independente, de quadrinhos. Também fiz documentários… Quando o Cartoon me chamou, eu pensei “Caraca! Vou poder largar meu emprego!”, mas não podia coisa nenhuma, porque ainda ia demorar para a grana chegar. Foi um processo longo, pelo menos de 2009 até 2014, desde a escolha do desenho até ele, de fato, estrear. Então, eu fiquei lá filmando prédios por um bom tempo até poder viver só da série. 

De onde veio a ideia? 
Eu sempre curti desenhar, desde pequeno. Mas a ideia pro Irmão do Jorel veio mesmo quando eu comecei a publicar fotos da minha família no Fotolog, o saudoso Flogão. Aí, a galera de lá começou a compartilhar histórias familiares comigo, e eu percebi que todo mundo tinha essas fotos constrangedoras: a mãe com um cabelo bizarro, a prima com jaqueta de ombreiras, aquelas festas toscas de aniversário. Desenhei algumas histórias baseadas em fotografias: no começo, eram HQs meio escatológicas, com um humor meio adulto, mas aí isso foi mudando, porque percebi que se aquilo fosse sair do papel, teria que ter outro tom. Com o tempo, fui criando personagens com o meu traço, me baseando um pouco na minha família, um pouco nas famílias dos meus amigos, misturadas com personalidades de filmes e séries e de algumas coisas do passado. 

Então já faz tempo que o Irmão do Jorel existe.
Muito tempo! Muito antes do Cartoon se interessar pela série, eu já tinha escrito uma verdadeira bíblia de histórias do universo do Irmão do Jorel. Eu passei um tempão criando os personagens, as características de cada um, os cenários, as histórias. Eu fazia isso pra mim, sozinho, por anos. 

Nos desenhos, dá pra reparar que sempre tem umas fotos reais espalhadas pelo cenário, no fundo. São as da sua família, que você postava no Flogão?
São, algumas sim. A gente coloca quase que de forma subliminar essas fotos no fundo, e outras coisas bizarras no cenário, tipo uma árvore de Pogobol. Mas sim, são fotos reais da minha família. 

E quem é o Jorel que aparece às vezes nas fotos, aquele rapaz com o cabelo maravilhoso?
Então… eu realmente tenho um irmão chamado Jorel. E é ele nas fotos. Só que o nome dele é Jor-El, não Jorel… E ele é lindo.

Peraí… Quê? Achei que o Jorel chamava Jorel por causa do pai do Super Homem!
Então, mas é isso mesmo. Deixa eu explicar: meu irmão nasceu em 1979, que é quando o Richard Donner lançou o filme do Superman. Meu pai era muito fã do Marlon Brando, que interpreta o Jor-El, e batizou o filho de Jor-El. Sorte que não foi Coronel Kurtz, do Apocalipse Now, que lançou no mesmo ano, né? [risos]

Aí não teve como não usar esse nome.
Sim, o nome dele é muito bom, muito sonoro, muito nome da criança bonita da família. Mas eu não gosto de falar isso por aí, porque senão quebra a magia. Tipo, não é minha história, é um exercício de criatividade muito grande ali, que envolvem outras histórias, de amigos dos roteiristas, não seria justo dizer que é meu irmão ali, minha família.

Então não dá pra dizer que é uma série autobiográfica?
Eu não gosto de dizer isso. Eu digo que é tão autobiográfico quanto qualquer outra coisa, porque tudo vem de alguma experiência da vida da pessoa que criou. Os caras gringos do Cartoon Network, por exemplo, têm personagens baseados em familiares: o Steven Universe é o irmão da criadora, Rebecca Sugar, e o Titio Avô é o pai do criador. E é por isso que o irmão do jorel não tem nome: ele pode ser qualquer um.

Ouvi dizer que o cara que faz a voz do Irmão do Jorel também é artista da série.
É verdade. Não era pro Andrei Duarte fazer a voz do irmão do Jorel. Ele é o nosso concept artist, detesto esse termo, mas ele é o arquiteto do rolê, o “Oscar Niemeyer” do desenho. É ele que cria todo o cenário e depois distorce daquele jeito louco, e pra fazer isso tem que saber perspectiva direitinho. Eu sou bem admirador dele. Mas aí, a gente viu que ele fazia umas vozes muito loucas, berradas, no meio da criação. Ele falava “o que o que o que?”, imitava um tipo de pássaro, sei lá. E aí não deu outra: a gente precisava daquela voz. Aos poucos ele foi aprendendo a falar em vez de berrar e pronto: virou o artista de voz.

E o resto elenco?
Acho que o elenco abraçou a série, cada ator meio que virou o personagem. Eles que vieram com os trejeitos de cada um e mudaram completamente a minha ideia original. O personagem do pai, por exemplo, é um que mudou demais: não era pra ele ser tão grandioso quando ele é, e tudo por causa do ator, o César Marchetti. 

E como é o processo de dublagem?
Não é dublagem! É processo de gravação de voz original. 

Eita, não sabia.
É, isso é importante. Só agora é que o Brasil está produzindo séries originais, então o certo é dizer que os atores são artistas de voz original, e não dubladores. Chamamos de dublagem só quando se fala em  tradução de desenhos estrangeiros. Aliás, fica muito engraçado dublado em espanhol, El Hermano de Jorel.

Certo. Então, como é o processo de gravação de voz original? Parece hilário.
É bem descontraído. Parece louco, mas a gente grava a voz antes da animação ser feita. Porque aí a gente consegue colocar trejeitos dos animadores. Por exemplo, se alguém coloca as mãos nas bochecas e faz um biquinho na hora de gravar, a voz muda, então temos que colocar isso no desenho também, senão não faz sentido a mudança de voz. É por isso que é tão engraçado, porque fica mais natural; o personagem segue o ator, e não o contrário. 

O desenho passa em outros países? 
A gente passa na América Latina inteira, mas ainda não lançamos no resto do mundo, porque estávamos esperando a segunda temporada sair. Por enquanto, são 26 episódios; a segunda estreia agora, em outubro. Aí, justamente para expandir o desenho, eu fui passar três semanas nos estúdios do Cartoon Network, em Los Angeles, participar de um programa de curtas. A ideia era trocar experiências com o universo do Cartoon. 

E como foi lá?
Foi muito legal, me ajudou muito a enxergar com outros olhos o desenho, depois de ter a crítica de pessoas especiais, os meus ídolos. Desenhei o Irmão do Jorel em uma parede em que estão pichados cartuns clássicos, como O Laboratório de Dexter. Eu fiquei diariamente convivendo com o Mike Roth [produtor e supervisor do departamento de curtas do Cartoon Network], que se identificou muito com o estilo de humor do Irmão do jorel. Ele é muito louco, tinha um monte de computadores de ponta, tablets, e ele queria fazer o storyboard a mão. Ele botava pilha em mim, me disse para eu mesmo fazer as vozes das personagens, em inglês, e eu topei, claro! Gravei as vozes num gravador que ele me deu, editei, desenhei, fiz tudo a mão e depois fui pro processo de finalização. Ele disse para eu me divertir, e foi o que eu fiz. 

Que personagem foi o mais querido por lá?
Eles curtiram muito o personagem da vovó Juju. Eu e o Mark piramos nela, tivemos uma ideia de fazer ela cantar um rap sobre verduras e legumes. A gente chegou a gravar, só que foi tudo em inglês. Como a voz da vovó é muito especial, eu tive que entrar em contato com a atriz que faz a voz dela aqui no Brasil [Melissa Garcia], por Skype, e pedir pra ela gravar o rap. E deu tão certo que, no fim das contas, virou um episódio da segunda temporada.

Por falar na vovó Juju, já ouvi falar que a sua avó, que inspirou a personagem, já virou ícone até de tatuagem.
Então, é mesmo. Eu já vi umas tatuagens da vovó Juju, e uma vez uma criancinha veio bater na nossa porta pra pedir o autógrafo da minha avó. Só que minha avó não é Juju, é Beth. Sério! O cara da mercearia (que não era o seu Adelino, rs) levou o filho dele lá pra pegar um autógrafo.  

Como é transpor as piadas do Brasilzão pro exterior?
É uma mudança bem sutil: mudar do “abacate” pro “avocado” , que é tão sonoro quanto. É incrível: todo mundo ri igual. Aí, eu descobri que o amor da avó que quer que você coma bem é universal. Essas questões familiares e os conflitos de geração também. Eu nunca pensei em fazer um desenho exclusivo do Brasil; eu queria que ele fosse do mundo. A ideia era ter elementos da nossa cultura que ficassem nonsense de um jeito engraçado, e não que quem não fosse brasileiro não conseguisse entender. A série é baseada nas relações, e relações são universais: a criança argentina, a dos EUA, a da França vai olhar o cenário, ver casa com telhado de telhas, a escola com pichação, e vai achar estranho – mas vai entender a história. É como os cenários loucos da Hora da Aventura: quem entende aquilo? Ninguém, mas a gente gosta, porque é universal. 

Falando dessa universalidade: como equilibrar o humor infantil e o dos adultos?
Acho que isso é uma característica mais do Cartoon do que do Irmão do Jorel: todas as séries têm e sempre tiveram um respeito à inteligência da criança. Elas falam com a criança de igual para igual, e desafiam ela a entender algo que não foi feito especificamente para ela, baseado no que os cientistas dizem que ~é adequado para aquela idade~, como se faz em canais educativos. É por isso que eu acho que o desenho deu tão certo, e acho que é por isso que ele foi escolhido pelo Cartoon: ele já tinha muito do DNA do canal, sabe? 

E como o desenho foi escolhido pelo Cartoon?
A série foi apresentada em 2009 para um pitching [espécie de concurso] do Cartoon que buscava desenhos brasileiros pra investir. Foi difícil: você tinha um tempo para apresentar seu projeto, tipo um American Idol dos cartuns. Tinha mais de 200 inscrições, mas só passaram 5 finalistas – eu entre eles. E aí, a gente tinha 10 minutos pra apresentar a série, e podia mostrar pdf, védeo, desenhos… Eu mostrei um Powerpoint muito tosco, com uns desenhos e uma explicações escritas a mão, mas todo mundo riu… tinha 300 pessoas lá. Tá, brincadeira, tinha 80, mas todo mundo riu. E deu certo.

O Cartoon interfere no seu processo criativo?
Não… acho que, se eles precisam interferir muito na série, ela não serve pro canal. Então, muita liberdade logo de saída. Até porque o processo de criação é feito em conjunto, a gravação de voz é muito improvisada, então nem teria muito como cercear. 

Quais as suas referências?
Acho que Os Muppets, Thunder Cats, Monty Python, Chaplin, filmes da sessão da tarde, os do Jean Claude Van Damme, os desenhos do Cartoon, principalmente o Gumball, Titio Avô, Apenas um Show e Flapjack. Ah, e TV Colosso!

Agora, a pergunta mais importante de todas: você vai revelar o nome do Irmão do Jorel?
De repente, se for capa da Superinteressante… (risos) Acho que lá pela septuagésima nona temporada, ali para 2046, a gente pode revelar um segundo nome ou um apelido dele (risos). Mas agora, falando sério: acho que é legal que fique no ar o nome dele. A ideia é que todo mundo possa ser o Irmão do Jorel. Pode ser Pedro, pode ser Carlos, pode ser José… Bernardinho, Átila, Jojoca… Somos todos Irmãos do Jorel.