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Discografia selecionada

Sepultura – Roots – Roadrunner – 1996

De onde menos se esperava – o heavy metal –, o mundo conheceu um pouco mais de música brasileira. Até Roots, os irmãos Cavalera eram os mineiros que rejeitaram o Clube da Esquina. Depois do disco, provaram uma insuspeita conexão da música pesada com a MPB via percussão e (por irônico que pareça hoje em dia) com ajuda de Carlinhos Brown. Sabiamente, o Sepultura utilizou os clichês que o acompanhavam desde o início da carreira internacional, coisas como “The boys from jungle”, a seu favor. Exibia-se também, agora com mais clareza, a ligação de Max com o candomblé, que ele levaria para o Soulfly. Mas antes do rompimento, o Sepultura desceu a contragosto pela garganta de muita gente. O som do demônio era convertido em música dos deuses – na feliz analogia do periódico inglês New Musical Express.

Skank – Calango – Chaos – 1994

Os calangos juntaram tudo o que interessava no começo dos anos 90 (Ben Jor, alto-astral praieiro, dancehall, batidas eletrônicas, encucações sociais) a uma atitude sintonizada com a nova geração do rock vinda do underground – ou seja, um pé no regional, outro no global (“A Cerca”). O disco foi apresentado ao grande público pela cover de “É Proibido Fumar” (que reapresentou Roberto Carlos a toda uma geração) e fez uma seqüência de hits como não se via desde Nós Vamos Invadir Sua Praia, do Ultraje a Rigor.

Ed Motta – Manual Prático para Festas, Bailes e Afins Vol. 1 – Universal – 1997

O menino prodígio surgido no final dos anos 80 atravessou a primeira metade da década seguinte como um rebelde no mercado fonográfico, um excêntrico que desprezava as letras, que odiava MPB e sua fase dançante. Bastou que ele aprendesse tudo sobre música “séria” para começar a valorizar os tenros rudimentos da música “descartável”. Manual Prático era a redenção, combinando o pop dos anos 30 e 40 com o som para as pistas dos anos 70, com refrãos e melodias atemporais.

Charlie Brown Jr. – Transpiração Contínua Prolongada – Virgin – 1997

Após o furacão Mamonas Assassinas, o produtor Rick Bonadio ganhou créditos suficientes para bancar uma pequena banda de heavy metal de Santos dentro de uma grande gravadora. No ambiente corporativo, o Charlie Brown Jr. colocou em primeiro plano sua paixão pelo skate, pela cultura de rua, pela streetwear e pela eficiente mistura de skate rock, funk à Chili Peppers, rap de branco e letras sobre inadequação resignada que surgiu na medida para o gosto dos adolescentes dos apartamentos das grandes cidades.

Raimundos – Raimundos – WEA – 1994

Os Raimundos mandaram os conceitos reinantes para as cucuias com seu CD de estréia. Palavrões demais, guitarras barulhentas demais, batidas rápidas demais e um som de chimbau passando por cima de tudo com o maior orgulho. Daí que, numa conjunção cósmica impensável, “Puteiro em João Pessoa”, “Be-a-bá”, “Palhas do Coqueiro” e até a brega-music caricatural “Selim” acertaram em cheio o gosto da molecada que estava nas ruas na década de 90. Brasileiro e roqueiro sem a menor problemática.

Chico Science & Nação Zumbi – Da Lama ao Caos – Sony – 1994

A gravadora achava que o mangue beat seria a nova axé music. Chico Science achava que sua Nação Zumbi seria o novo Beastie Boys vindo do Terceiro Mundo. O produtor Liminha achava que a bateria desmembrada e a colisão de baixa e alta tecnologia eram a maior revolução do rock nacional desde Õ Blésq Blom, dos Titãs. Ninguém entendeu Da Lama ao Caos (o público absorveu os hits “A Praieira” e “A Cidade”), mas a influência daquele serviço seria sentida em praticamente tudo o que se faria dali em diante no país.

Graforréia Xilarmônica – Coisa de Louco II – WEA – 1995

Não se fala “rock paulista” ou “rock carioca” como se usa “rock gaúcho”, para definir, senão um estilo, ao menos um “nível” de absorção de melodia jovem-guardista, esquisitices de vanguarda e zilhões de referências à cultura local, às vezes indecifráveis para o resto do Brasil. Coisa de Louco II era o primeiro disco da Graforréia Xilarmônica e pedra de toque desse tal “rock gaúcho”, com seu pop (im)perfeito que driblou as programações das FMs, mas influenciou uma cena que sobreviveu aos altos e baixos do mercado.

Gabriel o Pensador – Quebra-Cabeça – Sony – 1997

É difícil medir a importância desse carioca no processo de assimilação do hip hop pelo grande público brasileiro. Mesmo porque, em seu terceiro álbum, Gabriel deixou de lado a idéia de “convencer” o público de rap a aceitá-lo e resolveu se divertir. Sábia decisão. Como artista pop, o rapper mostrou-se livre para falar de praia (“Eu e a Tábua”), de drogas (“Cachimbo da Paz”) ou bobagens necessárias (“2345Meia78”), sempre com inteligência e desenvoltura musical (como em “Dança do Desempregado”).

Júpiter Maçã – A Sétima Efervescência – Antídoto – 1997

Flávio Basso, ex-vocalista dos Cascavelletes (seminal grupo de rock garageiro gaúcho), cresceu, inventou um personagem, Júpiter Maçã, e encarnou nele. O personagem é um mítico rockstar à moda antiga, glamouroso e atrevido, capaz de falar de amor (“Eu e Minha Ex”, “Novo Namorado”) e de farras sem fim (“Lugar do C*****o”). Musicalmente, a fonte é Mutantes-Beatles-Syd Barrett, filtrados pela multicolorida lente do rock gaúcho. Bem tocado e repleto de filigranas sonoras, é o não-sucesso da década.

Tom Zé – Com Defeito de Fabricação – Luaka Bop – 1998

Não fosse David Byrne (ex-Talking Heads), em 1998 Tom Zé estaria cuidando de um posto de gasolina em Irará, interior da Bahia. Mas quis o destino que esse senhor fosse redescoberto no circuito college americano e se transformasse em referência mundial de pop esquisitão e inventivo. Produzido ao lado de André Abujamra (ex-Mulheres Negras, então no grupo Karnak), Com Defeito de Fabricação é um doce e caótico tratado sobre uma era de colagens, samplers e plágios. Bem “destropicalista”.

Racionais MC’s – Sobrevivendo no Inferno – Cosa Nostra – 1998

Até Sobrevivendo no Inferno, o rap brasileiro era um misto de elogiável boa vontade e capacidade de realização próxima do zero. Rimas pobres, samples óbvios, bases ainda piores. Os Racionais descendem da nobre linhagem de Cartola (a que prova que pobreza financeira não é sinônimo de pobreza cultural) e cometeram um disco nevrálgico, sombrio e de mal com o mundo, mas altivo e bem construído. A partir dele, o quarteto arquitetou seu vitorioso marketing “do contra”, mostrando controle sobre cada etapa do trabalho.

Cássia Eller – Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo – Universal – 1999

Apresentada de início como uma espécie de versão neanderthal das “cantoras ecléticas” surgidas após Marisa Monte, Cássia Eller, enfim, quis se provar mais artista musical do que atração freak desse cruel circo pop. Para tanto, contou com produção e composição de Nando Reis, com quem adentrou em fase iluminada, contemplativa, repleta de canções poderosas (“O Segundo Sol”) ou enegrecidas (“Gatas Extraordinárias”), que ampliam seu espectro artístico sem perder a explosão original.

Pato Fu – Isopor – BMG – 1999

Uma das raras bandas de sua geração a trafegar sem problema entre trilhas de novela e fanzines independentes, o Pato Fu alcançou seu melhor foco depois de quatro discos amalucados. Buscando se desvencilhar da pecha de “engraçados”, o grupo saiu-se com um disco denso, que tratava de morte por atropelamento (“Um Ponto Oito”) e baixa auto-estima (“Perdendo Dentes” e “Imperfeito”). O alívio estético vinha em forma de arte (“Isopor”) e refinamento. Fofos e monstruosos quando querem ser, os patos são os gremlins do rock brasileiro.

Max de Castro – Samba Raro – Trama – 1999

Fruto de uma “angústia” que se abateu sobre o filho mais novo de Wilson Simonal contra os clichês da história da música brasileira, Samba Raro é uma reconstrução solitária (Max toca todos os instrumentos e coordena todas as programações eletrônicas) e ambiciosa daquilo que sempre entendemos como pop, como rock e MPB. Exímio guitarrista, Max costurou Geraldo Vandré com Lulu Santos com Prince com Banda Black Rio com hip hop e emerge com um álbum intrincado, um antídoto contra preconceitos musicais.

Mundo Livre S/A – Por Pouco – Abril – 2000

Pra muita gente, é difícil separar o que é “alternativo” e “ousado” do que é intragável. Até os artistas caem facilmente nessa armadilha. Por Pouco, o quarto álbum dos recifenses do Mundo Livre S/A, acerta por justamente aproximar o discurso afiado de Fred Zero Quatro e a irada confluência de informações políticas e estéticas de uma sonoridade mais pop, engendrada pelo produtor Eduardo Bid. Mas o segredo do mangue continua intacto, apenas disfarçado de declaração de amor (“Meu Esquema”) ou tributo a Jorge Ben (“Mexe Mexe”).

Planet Hemp – A Invasão do Sagaz Homem Fumaça – Sony – 2000

A prisão do Planet Hemp por suposta “apologia às drogas” reverteu num recrudescimento monstruoso do som e, principalmente, do discurso do grupo. “A primeira emenda da sua Constituição eu uso pra fazer a minha revolução” é a frase que abre o disco, seguida por uma seqüência inclemente de música enfurecida golpeando a política, a cultura de massa e a hipocrisia brasileiras, se valendo sem distinção dos grooves de Marcos Valle, do cubanismo enfumaçado de Sen Dog ou das guitarradas à Led Zeppelin. Furioso.

Nação Zumbi – Nação Zumbi – Trama – 2002

Era um trabalho sujo: sobreviver e evoluir sem seu principal articulador e figura pública. Chico Scien-ce morreu cedo demais para tornar-se mito popular – e à Nação Zumbi restou apenas trabalhar. Voltaram à independência, aos pequenos clubes e, finalmente, em 2002, saíram de lá com um poderoso registro de que as ambições dos mangueboys não apenas persistem como se ampliaram. Os caranguejos estão com fome: pesados, lisérgicos e antenados com o que se faz de mais moderno em rock global.

Marcelo D2 – À Procura da Batida Perfeita – Sony | 2003

A tal procura a que o título se refere começou, na verdade, na primeira experiência-solo do cantor, Eu Tiro É Onda, de 1998. Aqui, o emissário do Andaraí mostra a mais bem resolvida equação entre rock, rap, MMPB (a “moderna música popular brasileira”, como se dizia em 1962) e o samba do morro. Timbres elegantes, poderosos e brasileiríssimos (vide a faixa-título), grooves sincopados (“C.B. Sangue Bom”) e a bela idéia de injetar amor no marrento rap nacional (“Qual é?”).

Pitty – Admirável Chip Novo – Deckdisc – 2003

Parecia pouco provável que o principal representante do “novo rock” mundial (influenciado pelo peso do metal, com forte acento eletrônico, clima de videogame de luta e direcionado ao público adolescente) a surgir no Brasil fosse não apenas uma garota, mas uma garota vinda da Bahia! Em seu primeiro álbum, Pitty envolveu seu inegável carisma em cuidadosos arranjos do habilidoso guitarrista Peu e na produção up-to-date de Rafael Ramos e fez de hits como “Máscara” e “Equalize” a trilha do roqueiro assumido no início do século 21.

Cidade Negra – Dubs – Sony – 1999

Quem defende o roots reggae se esquece de que no distante 1980 Bob Marley já entor-tava o estilo em clássicos como “Could You Be Loved?”. O Cidade Negra nunca ligou para fundamentalismos e sempre trafegou entre diversas vertentes dos sons black jamaicanos. Comemorando sua primeira década de carreira, os cariocas foram para o espaço sideral abrindo seus fonogramas para ídolos (Lee Perry, Augustus Pablo, Sly & Robbie) e amigos (Liminha, Nelson Meirelles) perpetrarem uma grande jornada pelo lado mais enevoado do reggae.

Capital Inicial – Acústico MTV – Abril – 2000

Quinze anos de “ensaio” para que o Capital Inicial promovesse uma retomada como nunca se viu no pop brasileiro. É mérito do formato Acústico da MTV, que conciliou rock e melodia em tempos de hardcore. Mas principalmente mérito de um repertório maturado desde o início dos anos 80, agora livre de teclados e guitarrinhas datadas e daquele ótimo papo de “eu sei como é ser adolescente” nas canções novas. Efeito colateral: toda e qualquer banda dos anos 80 resolveu ressurgir para tentar a sorte.

O Rappa – Lado B Lado A – WEA – 1999

Quão longe pode uma banda de reggae ir, preservando os instintos selvagens do gênero, a direção dos graves e a dinâmica de som do ritmo jamaicano? Se estivermos falando de um grupo brasileiro, a resposta é Lado B Lado A, terceiro álbum do (então) quinteto carioca. Melodias tortuosas, arranjos claustrofóbicos, poesia política inflamada e nenhuma concessão ao padrão radiofônico da época. Apesar disso (ou, quem sabe, talvez por causa disso mesmo), foi o disco que transformou a banda em superstar.

Los Hermanos – Ventura – BMG – 2003

Nem tão desavergonhadamente pop quanto nos tempos de “Anna Júlia” nem tão forçosamente rebuscado e adulto quanto no álbum Bloco do Eu Sozinho, neste seu terceiro disco, o Los Hermanos se transformou na tábua de salvação para quem buscava mais neurônios do que hormônios no rock brasileiro. Os quatro cariocas barbudos voltaram às rádios (“Cara Estranho”, “O Vencedor”) ao mesmo tempo que se tornaram objeto de culto – comparável, segundo os mais entusiasmados, aos tempos da Legião Urbana.

Skank – Cosmotron – Sony – 2003

A reengenharia de imagem e a de música promovidas pelo Skank nos anos 2000 só encontram precedentes na transição de Roberto Carlos rumo ao romantismo lá por 1970. Diferenças musicais à parte, ambas coordenaram passos suaves, mas determinados, e, principalmente, nenhuma das duas afugentou o grande público. A opção pelo rock adulto, calcado na melodia, de cores psicodélicas (e o fato de haverem emplacado “Vou Deixar” e “Dois Rios”), deixou o pop nacional do novo século menos “marombado” e mais refinado.

Marcelinho da Lua – Tranqüilo! – Deckdisc – 2004

Disco de produtor, de DJ, coletivo… Tranqüilo! é a estréia-solo do DJ do grupo Bossa Cuca Nova. É um verdadeiro norte para o pop feito no Brasil: produção state-of-art, dezenas de referências bacanas e várias cabeças pensantes da nova geração (Black Alien, Seu Jorge, Pedro Sá, Gabriel Musak, Mart’nália). Cruzando passado, presente e futuro sem muita cerimônia, Tranqüilo! ainda rendeu um belo disco de remix, In a Dubwise Style, em parceria com o papa do dub Mad Professor. MPB? Rock? Dub? Eletrônica? Bem-vindo ao presente.