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O que é o Comicsgate, movimento contra a diversidade nos quadrinhos

Criado em 2017, ele reúne fãs que criticam a presença de mulheres e minorias à frente das histórias. Saiba como tudo isso começou.

Por Rafael Battaglia - 11 ago 2020, 16h15

No final de julho, o quadrinista Tom King, conhecido por escrever histórias de personagens como Batman (DC Comics) e Visão (Marvel), se revoltou contra um trabalho do artista Jae Lee: uma capa alternativa da HQ Rorschach 1escrita por King e que conta a história do personagem de Watchmen 35 anos após os eventos da graphic novel original.

Qual o problema? Segundo King, Lee teria colaborado com artistas envolvidos no movimento Comicsgate, que se popularizou nos Estados Unidos e é contra a diversidade nos quadrinhos. O escritor citou, por exemplo, uma capa desenhada por Lee para uma história do quadrinista Ethan Van Sciver, figura central do movimento conservador.

Não demorou para que Lee se manifestasse. O artista disse que desconhecia o Comicsgate quando aceitou desenhar a capa para Sciver – e se negou a trabalhar novamente com o grupo depois de descobrir o movimento que acontecia nas redes sociais. No fim, ele e King se entenderam.

O que é o Comicsgate e como ele começou?

O Comicsgate é um movimento conservador contra diversidade e ideias progressistas nas histórias em quadrinhos. O nome vem da junção de “comics” (“quadrinhos”, em inglês) com o sufixo “-gate”, que se tornou frequente na língua inglesa para se referir a escândalos e controvérsias após o caso “Watergate”, que levou à renúncia de Richard Nixon, presidente dos EUA, em 1974. Em 2014, aconteceu algo parecido: a campanha Gamergate expôs o ambiente tóxico dos jogos online, sobretudo para mulheres, que em diversas ocasiões são expostas a comentários machistas.

Para entender o Comicsgate, é preciso voltar para 2016. Na época, a quadrinista Chelsea Cain escrevia a revista da Harpia, uma heroína da Marvel. Em um dos quadrinhos, a personagem apareceu vestida com uma camiseta com a seguinte frase: “Pergunte-me sobre a minha agenda feminista”. Foi o suficiente para que a autora recebesse diversos insultos pelas redes sociais – o principal argumento dos críticos era que todo esse feminismo estragava a personagem. O ódio foi tanto que Cain excluiu temporariamente sua conta do Twitter.

A hashtag #comicsgate surgiu no Twitter em meados de 2017, logo após uma foto com diversas funcionárias da Marvel circular pela internet. Na imagem, elas aparecem tomando milk-shake e brindando a Flo Steinberg, uma editora de quadrinhos. Steinberg foi uma das primeiras funcionárias da Marvel, e havia falecido recentemente, aos 78 anos.

A foto desagradou uma pequena parcela de leitores, que se surpreenderam com a quantidade de mulheres trabalhando na editora – o que, para eles, é prejudicial para a qualidade das histórias. Logo de início, um dos primeiros a sair em defesa dessa ala conservadora de fãs foi Richard C. Meyer, que na época usava uma conta intitulada, ironicamente, como “Diversity & Comics” (“diversidade e quadrinhos”) – hoje, ele possui mais de 100 mil inscritos no YouTube.

O que o movimento defende?

Meyer se tornou uma das principais vozes do Comicsgate. Seu principal argumento é que a presença de autoras e personagens mulheres e LGBTQIA+ pioravam a qualidade da história e, de certa forma, excluíam leitores autênticos de HQs – pura balela. Meyer atacava especialmente Magdalene Visaggio, mulher trans e escritora da DC Comics. Em um vídeo obtido pelo site Daily Beast, ele insinuou que mulheres do ramo prestavam favores sexuais para subir na carreira.

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As críticas conservadoras em relação ao quadrinhos vêm desde 2014, quando o artista Milo Manara desenhou uma capa altamente sexualizada da Mulher-Aranha, heroína da Marvel. A editora pediu desculpas pela polêmica, mas publicou a arte mesmo assim – ainda que com alterações para esconder as partes mais explícitas do desenho.

Pouco depois, um quadrinista chamado Frank Cho decidiu enfrentar os críticos ao trabalho do colega e, em forma de protesto, fez diversos desenhos com outros personagens dos quadrinhos – novamente, hiperssexualizados.

No ano seguinte, a Marvel empreendeu uma grande reformulação em suas histórias, a All New, All Diferent (“Tudo Novo, Tudo Diferente”), cujo um dos principais objetivos era incluir diversidade nas HQs, com foco em heroínas, personagens negros e também de outras culturas, como Kamala Khan, uma garota de origem paquistanesa que se tornou a Miss Marvel.

Todos esses exemplos ilustram um problema que permeia o universo nerd: o preconceito. Nessa mesma época, Milo Yiannopoulos, figura expoente da extrema-direita dos EUA e um dos líderes do Gamergate, organizou uma campanha de assédio contra a atriz Leslie Jones, que integrou o elenco do novo Caça-Fantasmas, estrelado por mulheres. Jones saiu do Twitter depois de receber os comentários – em resposta, a plataforma deletou permanentemente o perfil de Milo.

Outro exemplo, mais recente, envolve a atriz Kelly Marie Tran, que interpretou a personagem Rose Tico nos novos filmes de Star Wars. Tran, que descende de vietnamitas, foi alvo de comentários racistas e sexistas – e deletou o seu Instagram.

A opinião dos entusiastas do Comicsgate, por sorte, não é a mesma do resto da indústria de quadrinhos. Frank Miller, um dos maiores quadrinistas de todos os textos, já frisou a importância de se fazer um revisionismo histórico das mulheres nas HQs, dada a forma como elas foram representadas ao longo dos anos.

Além das motivações torpes, o principal argumento do Comicsgate – a luta pela liberdade de expressão – é contraditória. “Quando você se opõe à diversidade, também se opõe a diversas vozes”, escreve Noah Berlatsky, colunista especialista em história em quadrinhos em um texto para o jornal Washington Post sobre o assunto. “O esforço para manter certas pessoas fora dos quadrinhos, dos jogos ou da cultura geek é também um esforço para silenciar certas perspectivas e impedir que certas pessoas falem. A liberdade de expressão para certas pessoas não é liberdade de expressão de forma alguma.”

 

 

 

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