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O que é o pajubá, a linguagem criada pela comunidade LGBT

Nascido na ditadura e com origem no iorubá e nagô, vocabulário reúne apropriações linguísticas feitas por homossexuais e travestis

Por Guilherme Eler - Atualizado em 4 fev 2020, 12h08 - Publicado em 5 nov 2018, 20h45

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.

No último domingo (4), 4,1 milhões de estudantes se depararam com a frase acima enquanto resolviam a prova de Linguagens e Códigos da edição 2018 do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Ler atentamente o título do texto que a acompanhava, “Acuenda o Pajubá: conheça o ‘dialeto secreto’ utilizado por gays e travestis”, era essencial para resolver o estranhamento causado pela combinação pouco usual de palavras. Afinal, a mescla de português informal com uma fala próxima a línguas africanas pode soar incompreensível à primeira vista – principalmente se você não tem a mais remota ideia do que se trata o pajubá.

Também chamada de bajubá (com “b” ao invés de “p”) a linguagem pode ser definida como o “repertório vocabular e performativo de certa parcela da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais)”, explicou à SUPER Carlos Henrique Lucas Lima, professor da UFOB (Universidade Federal do Oeste da Bahia) e autor do livro “Linguagens pajubeyras: re(ex)sistência cultural e subversão da heternormatividade”.

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“É uma série de palavras que tem sua origem no nagô e no iorubá [grupos étnico-linguísticos africanos], e considera apropriações linguísticas feitas por homossexuais e travestis”. Tanto o nagô quanto o iorubá, falados em países da África Ocidental, chegaram ao Brasil com escravos africanos.

Mesmo sem saber o que significa “amapô” ou “acué”, é bem provável que você já tenha ouvido algumas delas por aí. Entre as mais populares estão “mona”, equivalente de mulher ou gay efeminado; “gongar” para o ato de zombar de alguém ou alguma coisa, ou então “bafo” e “babado”, sinônimos de novidade.

De acordo com Lima, mais do que criar termos que se aproximem de gírias no português, o pajubá reúne também características linguísticas próprias. Isso aparece, por exemplo, na fala. “Há todo um movimento performático do corpo, a tonalidade das palavras e o contexto cultural em que aparecem”, comenta. “Irene”, o mesmo que velho ou velha, por exemplo, costuma ser pronunciado “ireeeeeeeene”, como se fosse um berro.

Na prova do Enem, toda a questão servia para provocar o aluno sobre a existência de variações linguísticas no português falado por aqui. Marcava a alternativa correta quem concordava que a linguagem pajubá tem “status de dialeto para os falantes” e poderia ser considerado “parte do patrimônio linguístico brasileiro” por ser “consolidado por objetos formais de registro”.

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Como “objetos formais de registro”, você pode entender referências na literatura, por exemplo. Criado durante o contexto de ditadura militar, provavelmente entre as décadas de 1960 e 1970, o pajubá ganhou seu primeiro documento oficial em 1995. O livro ganhou o nome “Diálogo de Bonecas”, e foi organizado por Jovana Baby, presidente da extinta Astral (Associação de Travestis e Liberados), do Rio de Janeiro. Entre as mais de 800 palavras listadas está “boneca”, palavra que define travesti.

Em 2006, outra obra independente tentou assumir esse status de “dicionário” do pajubá. “Aurélia, A Dicionária da Língua Afiada”, é assinada por Angelo Vip e Fred Libi. Em mais de 1.300 verbetes, o documento tenta revelar o significado das palavras mais utilizadas.

Para Lima, mais do que um “dialeto LGBT”, as “linguagens pajubeyras”, como chama, funcionam como um instrumento linguístico-cultural que desafia normas de gênero e sexualidade. “O pajubá é um instrumento de gongação, zomba da norma que oprime a comunidade minoritária”.

O pesquisador destaca que a criação do pajubá é uma tentativa de criar uma identidade comunitária entre os LGBTs. Visando isso, a linguagem lança mão de expressões para fortalecer a luta desses grupos, atacando também questões morais e visões moralistas sobre drogas e sexo. “Há no pajubá uma infinidade de palavras e expressões para se referir ao sexo e, de modo mais específico, ao sexo não heterossexual, como fazer a chuca acuendar a neca, que significam, respectivamente, realizar uma limpeza anal e acomodar/esconder o pênis” exemplifica. “Diz-se, em pajubá, que uma pessoa que vive com HIV tem a Tia ou a Doce e que quem fuma maconha conversa com a Selma ou com a taba, como mais comumente se diz no Nordeste e Sudeste”.

O alvo principal desses “ataques”, segundo Lima, são os padrões de gênero refletidos na linguagem. Todos os idiomas separam a maior parte de suas palavras em masculino ou feminino (a geladeira, o relógio). O pajubá, então, rompe com isso colocando terminações com “a” em palavras masculinas para feminilizá-las – lê-se aqui, a “prédia”; a “relógia”; a “dicionária”.

Para todos aqueles, dos curiosos aos não alfabetizados em pajubá, que ainda estejam na dúvida, a frase que abre esse texto poderia ser traduzida como: “E aí, mulher! Não se faça de desentendida e pague meu dinheiro, deixe de mentiras se não eu puxo teu cabelo!”. Dar calote financeiro em alguém, afinal, não é aceitável por melhor que seja a desculpa – seja ela dada em português formal ou em pajubá.

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