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Questão de gosto

A SUPER previu, com um mês de antecedência, o vandalismo ao Borba Gato, monumento emblemático – e de gosto duvidoso – da cidade de São Paulo

Por Emiliano Urbim Atualizado em 4 nov 2016, 19h19 - Publicado em 30 set 2016, 17h15

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Como nas últimas noites, eu desço do metrô, passo pela fila do raio-x igual a todo mundo, sou liberado e em seguida desço a Rua Augusta em direção ao centro. Vou caminhando devagar, alternando a atenção entre pedestres, trânsito e comércio. Sigo por duas quadras até a frente do Espaço Oficial de Cinema. Val está vendendo livros na calçada e me vê aproximar.

“De novo por aqui?”

“É meu caminho.”

Enquanto ela atende outro cliente, dou uma passada de olhos sobre os livros. As Veias Abertas da América Latina, manifestos de Hakim Bei, Era dos Extremos… os suspeitos de sempre. Pego um que não conheço: Teoria dos Objetos Inexistentes, de um tal Alexius Meinung.

“Esse não está à venda.”

Ainda estou com o livro na mão quando sinto um burburinho no ar. Nas TVs dos bares ao redor, surge a cena repetida desde a madrugada: a implosão da estátua do Borba Gato. Quando me dou conta, estou assistindo novamente ao vídeo: o bonecão bandeirante com eterno olhar de tédio se desfazendo de baixo para cima, como se mergulhasse no ácido. Uma nuvem bege tapa tudo. Quando ela se desfaz, no lugar do monumento há uma pilha de pedras e estranhas barras de metal – trilhos de bonde usados na obra, como todos já sabem a esse ponto. O bar vibra como se fosse um gol. E a polícia de choque chega batendo e atirando.

Em meio ao tumulto, Val já transformou sua banca em mala, que arrasta com dificuldade calçada abaixo. Alcanço-a e ajudo a levar a carga, ao mesmo tempo protegendo a garota da mira dos policiais. Quando dobramos a esquina da Antônio Carlos, sinto marteladas nas costas, nas coxas, na nuca. Balas de borracha.

“Dá pra ir, cara?” – ela pergunta.

“Dá.”

 

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Quando eu era pivete, dizia que esse prédio era o “castelinho da Frei Caneca”. Acho que foi alguma coisa do governo italiano, há anos está abandonado. Descansamos no pátio da frente, atrás do muro, um bom esconderijo. Ou não. Val entende meu olhar tenso.

“Calma, eles ficaram lá pela Augusta. Olha essas feridas sangrando… Quando achei que a gente tava fudido você acelerou, foi me puxando. Valeu por ficar na frente dos tiros, cara. Como é seu nome mesmo?”

“Lucas. Ou o que restou dele.”

Piada mais velha que andar pra frente, mas ela não conhece e ri tossindo, mostra os dentes muito brancos. Depois, passa a mão nos cabelos negros e lisos e adota uma expressão séria no rosto pálido. Comenta que a cidade está cada vez pior: ambulantes agredidos, mendigos com chips de localização, raio-x em tudo que é canto, rodas de conversa desfeitas a cassetete. Eu dou corda, quero agradar, tento dizer as coisas certas. Ela se entusiasma, levanta a voz, lembra do bar: o pessoal sabia que ia tomar porrada, mas comemorou mesmo assim. Aproveito o embalo e digo que faço arquitetura, que a implosão é um manifesto estético, que o terrorismo estético destrói o que não deveria ser construído, que a feiura do monumento dá lugar à beleza do vazio, sei lá, empilho um monte de coisas que li na internet durante o dia. Val está com os olhos brilhando.

“Você entendeu tudo, Lucas.”

“Tudo o quê?”

“Quero te apresentar um pessoal.”

 

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[3]

Ainda dolorido com os ferimentos da semana passada, pulo um muro e encontro Val no lugar marcado, a mão gigante do Memorial da América Latina. Em silêncio ela me guia pela praça de concreto até uma pracinha que eu nunca reparei que estava aqui dentro. Espalhados pelos bancos e brinquedos, manos e minas representantes de várias tribos urbanas: ciclistas, skatistas, grafiteiros, hipsters, hippies, punks, galera do hip-hop… Val me apresenta em cada rodinha, fala da confusão da Augusta, dos tiros que eu tomei por ela. A pedidos, eu tiro a camisa, mostro os curativos e os machucados, conquisto aprovação e até admiração. Ela tem muita moral no grupo, suficiente para trazer um intruso para essa sociedade secreta.

Mas o clima não é de desconfiança, é de festa. Além dos entorpecentes previsíveis, circulam várias cópias de Teoria dos Objetos Inexistentes, deve ser uma Bíblia do movimento. Todos se dão tapinhas nas costas, se abraçam como se fosse Natal. Após alguns dias de tensão, estão todos excitados, muito orgulhosos do que fizeram: são os caras por trás da implosão do Borba Gato. Como alvo inicial, foi perfeito: ninguém gostava daquela estátua. Vou pescando palavras de ordem: acabar com os ultrajes urbanísticos, com as obscenidades arquitetônicas, com os estupros da paisagem. Cada um fala uma coisa, mas o resumo é que, de implosão em implosão, eles vão ganhar apoio, crescer, se multiplicar, sair das sombras, derrubar a ditadura tecnocrata da Cidade-Estado de São Paulo, espalhar uma onda demolidora por tudo o que já foi o Brasil… Tipo de papo que em qualquer outra noite eu responderia com ceticismo. Mas estou aqui com a Val e, quando vejo o entusiasmo dela, quase acredito na causa. Posso estar confundindo as coisas.

O encontro segue animado até que surge do nada um cara de tapa-olho com olhar inquisidor – se é que isso é possível. Como se fosse combinado, todos se calam para que ele fale.

“Quem é o amigo, Val?”

“Esse é o Lucas. Ou o que restou dele.”

Todos riem. Sério que ninguém conhece essa piada? Val faz toda a apresentação de novo, diz que eu estudo arquitetura, sustenta que eu posso ajudar a causa, assim como outros calouros que estão aqui nesta noite. Mas o sujeito do tapa-olho definitivamente não vai com a minha cara. Quando ela termina de falar, ele dá um sorrisinho condescendente. Aplica um teste oral: quer que eu sugira o próximo alvo. Babaca.

“Ponte do Jaguaré.”

O caolho arregala o olho. Acho que entendeu onde eu quero chegar. Peço licença, tiro o computador da mochila e mostro do que estou falando. Os dois horrendos viadutos da Ponte do Jaguaré, dos anos noventa, escondem outra construção, a elegante ponte original, dos anos quarenta. Usando os mesmos explosivos inteligentes que eles usaram no Borba Gato, dá para esfarelar as duas partes da ponte nova e revelar a antiga. Derrubar o feio, descobrir o belo etc. É melhor ainda do que só demolir. Eu acho. E eles também acham! Até o tapa-olho acha: ele vem e dá um aperto de mão teatral. Os caras entram em chamas, todos abrem seus computadores e blocos de notas, estão fazendo cálculos, cronogramas. Agora eu que estou orgulhoso, mesmo a ideia não sendo 100% minha. Mas isso a Val não precisa saber.

 

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Daqui do alto da passarela dá para ver por cima do muro que cerca o Condomínio Ibirapuera. É cada mansão que a gente não imagina, e lá no meião uns prédios mais altos que o obelisco da avenida, que deve ter uns 70 metros de altura. Como dizem no grupo, é imperativo que isso volte a ser um parque público. Mas será que botar tudo abaixo é o melhor jeito de chegar lá? Não é possível um outro caminho, sem demolições, explosões, implosões? Mas a Val não marcou encontro aqui para falar de bombas. Espero. Sei que meu foco deveria estar na operação da ponte, mas desde que começou a rolar esse lance entre a gente… Ela não gosta de pôr rótulos nos relacionamentos. Lá vem ela.

“Eu queria te mostrar uma coisa, Lucas. Mas você não pode falar pra ninguém que eu te mostrei. A gente nem deveria estar aqui.”

“Mostrar o quê?”

“É uma surpresa. Uma surpresa muito boa. Que já está chegando.”

Ela fala fazendo longas pausas entre uma frase e outra. Pausas propositais, não está pensando no que vai dizer. Já sabe o que vai dizer e está deixando o tempo passar. Ela quer que eu adivinhe.

“Você está grávida?”

“MAS DE ONDE VOCÊ TIROU ISSO?”

“Sei lá, eu…”

“Começou.”

Sinto um tremor sob meus pés, como eu imagino que seja um terremoto. Parece que o mundo virou um vagão de metrô desgovernado, é difícil ficar em pé. Agora eu nem consigo ouvir o que a Val está dizendo, porque até barulho de metrô eu estou ouvindo. De onde vem esse tremor, esse ruído? Ela aponta para o outro lado. Meio desequilibrado, eu me viro.

Caralho.

Implodiram o Obelisco do Ibirapuera.

 

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Eu não sabia, mas todo o esquema na Ponte do Jaguaré já havia sido cancelado quando o grupo percebeu que os agentes da cidade-estado estavam de olho no local. A partir daí, eles adotaram um plano B: para evitar vazamentos, uma equipe armou em segredo a destruição do obelisco. Isso tudo a Val me contou quase pedindo desculpas. Eu disse que tudo bem. Eu tinha que dizer, porque para eles foi um sucesso estrondoso, muito maior do que o Borba Gato.

Do nada, todos estão adotando o discurso da destruição criativa. Pipocam nomes de organizações coirmãs em outras cidades: Brigada AntiConcreto, Falange Implosiva, Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. A gente mal consegue mapear o que é real, o que é piada e o que é bloco de Carnaval. Cada um tem seus próprios critérios sobre o que é bonito ou não. Se para uns feiura são construções neoclássicas em cidades jovens, para outros são espigões espelhados ou edifícios-garagem. Em Porto Alegre, destruíram o muro que separa o centro do Lago Guaíba; no Rio, protegeram o Cristo Redentor, mas os ativistas queriam mesmo era derreter o bronze das estátuas de celebridades.

Enquanto isso, o grupo de São Paulo, onde tudo começou, planeja a sua nova ação. É algo grande, enorme, maior do que qualquer coisa que eles já fizeram. Vão precisar da Val, de mim, de todo mundo em quem eles confiam. Afinal, não é simples implodir de uma vez só um viaduto com três quilômetros e meio de extensão.

 

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Uma ferida aberta no coração da metrópole. Uma cicatriz no tecido urbano. Uma ofensa da Engenharia contra a Sociologia. O inconcebível tornado irreversível. O troféu mais cobiçado da patrulha estética. O Elevado Costa e Silva. O Minhocão. São duas da manhã e eu estou diante da porção central do viaduto, na Avenida Angélica. Desde a meia-noite integrantes do grupo disfarçados com uniformes oficiais controlaram os acessos, evacuaram a área e não deixaram ninguém entrar. Ficaram só os responsáveis pelas instalações dos explosivos inteligentes e dos detonadores Wi-Fi. Vejo pelo binóculo Val coordenar sua equipe, finalizar os últimos detalhes para a implosão da via expressa.

Mas isso nunca vai acontecer. Eu não vou deixar.

Pelo rádio, ouço toda a operação ir pelos ares. Dessa vez, as forças da cidade-estado estão no local certo e na hora certa. Enquanto um batalhão vem da Consolação, outro vem pelo acesso do Largo Padre Péricles, com vários destacamentos penetrando pelos acessos secundários. Um a um, os membros do grupo vão sendo dominados. Um bom plano, que tem inclusive um capricho pessoal. Chamo Val pelo rádio.

“Lucas? Você está na vigilância? O que está acontecendo?”

“Acabou, Val. A polícia pegou todos. Mas ainda não chegou aí. Você pode se salvar!”

“Como você…”

“Val, me ouve. Não sou arquiteto, sou policial, infiltrado, desde o começo. Mas nunca falei de você nos relatórios. Você não existe pra eles. Foge agora.”

Sinto um tremor sob meus pés. Uma nuvem bege tapa tudo.

 

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A perícia esclareceu: foi um acidente. Um dos explosivos inteligentes era burro, e explodiu justo a parte do Minhocão onde Val estava. Eu devia ter feito diferente, ter contado quem eu era? Devia ter prendido ela? Ela ia me odiar pra sempre, mas não mais do que eu me odeio.

Vingou a lenda de que Val se matou pela causa. Ela e outros que explodiram junto viraram mártires. O local virou uma espécie de santuário, e todos ganharam memoriais pela cidade. São pilhas de destroços estilizadas, como se fossem restos de cenário de um filme de desastre. Novos monumentos. Para o meu gosto, são horríveis.

+

Emiliano Urbim é jornalista, roteirista e escritor – está na recém-lançada coletânea de contos Heróis Urbanos (Rocco). Nascido em Porto Alegre, mora no Rio e morre de saudades de São Paulo.

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