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Terra da fertilidade

Cientistas suspeitam da existência de um gene nas nigerianas capaz de explicar por que são elas as mulheres que têm mais gêmeos no mundo. Para confirmar, vão seguir as pistas genéticas também entre suas descendentes na Bahia.

Ivonete D. Lucírio, de Salvador (BA)

A baiana Dadai, uma enfermeira de 43 anos, de Salvador, engravidou de gêmeos, igualzinho à sua mãe. Na família dela, isso é comum. “Minha tia-avó teve seis barrigas duplas”, conta. Dadai é brasileira, mas sua bisavó nasceu na Nigéria e pertence à tribo ioruba – a maior entre os mais de 100 milhões de habitantes do país africano e a que mais gêmeos e trigêmeos produz em todo o mundo. Interessados em saber como o organismo determina quantas crianças devem nascer a cada gestação, pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, vão estudar o código genético e os hábitos alimentares de mulheres como Dadai, descendentes das iorubas trazidas como escravas para Salvador há 200 anos.

“Embora essa característica da tribo seja conhecida há três décadas, até agora ninguém conseguiu explicar a razão biológica”, disse à SUPER o nigeriano Obinwanne Ugwonali, um dos pesquisadores de Yale. Para isso, os cientistas estão trabalhando com as nigerianas há dois anos. Eles estão à procura de um gene que possa ser o principal responsável por essa incrível fecundidade. Mas o interesse em descobrir o motivo que torna as iorubas tão fecundas não é mera curiosidade. Uma vez identificado o gene, talvez possam ser criadas terapias para tratar alguns tipos de infertilidade feminina.

ilucirio@abril.com.br

Algo mais

Em algumas tribos indígenas brasileiras, gêmeos não são bem-vindos. Eles consideram a gestação múltipla uma assustadora característica animal. Por isso, às vezes um dos bebês é morto logo depois de nascer.

Mistura de genética com inhame

O nigeriano Oseenei Taino Akinlotan – que há quatro anos mora em Salvador, onde vende produtos típicos da sua terra – nasceu de uma barriga compartilhada. “Minha mãe, que ainda está na Nigéria, teve gêmeos três vezes”, conta Taino, nome que significa “o primeiro dos dois a nascer”. Para uma cultura que considera uma obrigação da mulher ter muitos filhos, a gravidez múltipla é sinal de bom agouro. “Há até um ritual no qual a mãe sai à rua carregando seus gêmeos nas costas, cantando e dançando”, conta Oyewale Akanni, presidente da Casa da Nigéria, em Salvador. “Para muitos, eles são divindades, orixás.” De cada 1 000 gestações de mulheres iorubas, 45 são duplas ou triplas. Parece pouco? As mães de Bangladesh, na Ásia, estão em segundo lugar na lista e seu índice é de 20, menos da metade das iorubas. “O primeiro a constatar essa taxa assombrosa foi o professor inglês Percy Nylander, na década de 60”, conta Ugwonali, que recentemente refez a contagem e confirmou os dados.

O que os cientistas querem descobrir é se essa propensão à gravidez múltipla ou tripla é genética – uma vez que atinge um grupo fechado de indivíduos, com pouca miscigenação – ou se é causada por alguma condição externa. “Suspeito que deva ocorrer uma mistura das duas coisas”, disse à SUPER Frederick Naftolin, diretor do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade Yale e coordenador do trabalho.

Comida da boa

Tudo indica que o fator externo mais importante é o que eles colocam no prato. Os iorubas consomem uma grande quantidade de inhame, um tubérculo parecido com a mandioca. “Fizemos testes com ratos, alimentando-os com o vegetal, e notamos neles também um aumento na taxa de fecundidade”, conta Naftolin. Acredita-se que o inhame estimule a produção de mais de um óvulo por ciclo reprodutivo (veja no infográfico). Ainda é preciso, porém, analisar quimicamente o alimento para saber qual substância específica influenciaria o processo de reprodução. Enquanto isso, sob a coordenação do professor Bridey Okonomoa, da Universidade de Benin, os cientistas analisam os efeitos do vegetal no aparelho reprodutor feminino. “Os pesquisadores estão fazendo uma avaliação do ovário das mulheres por meio de ultra-som para entender as mudanças que ele sofre com o consumo do tubérculo”, diz Naftolin.

O hábito de comer inhame, no entanto, não é exclusividade da tribo ioruba. Ele constitui o prato de resistência alimentar de vários povos da África. Mas nem por isso eles têm uma fertilidade acima da média. Acredita-se que os fatores genéticos também são determinantes. Há motivos para essa suspeita. No ano passado, pesquisadores da Nova Zelândia identificaram um gene em ovelhas – chamado booroola – que aumenta a taxa de ovulação desses animais e, conseqüentemente, as gestações múltiplas. “Buscamos o genoma humano um semelhante que desempenhe a mesma função”, diz Ugwonali.

Fartura infantil

O grupo ioruba nigeriano tem 56 milhões de habitantes. Cerca de 27 milhões são mulheres. Estima-se que cada uma delas tenha seis filhos, boa parte deles gêmeos

Para saber o gene que a baiana tem

Será que as descendentes que vivem hoje em Salvador conservam o ventre tão fértil quanto os seus antepassados vindos da África? Nem todas. A jornalista Ana Alakija, de 25 anos, é bisneta de iorubas. Ao contrário de Dadai, não nasceram gêmeos na sua família desde que ela veio para o Brasil. A diferença pode estar na miscigenação. O objetivo da pesquisa que será realizada na capital baiana é determinar até que ponto a mistura com outras raças, ocorrida o início do tráfico de escravos (veja no quadro abaixo), pode ter abrandado a capacidade fértil.

“Pude notar, entre as iorubas baianas, que houve miscigenação com portugueses, italianos e índios”, diz Ugwonali, que no final de abril realizou um estudo preliminar em Salvador. “Por outro lado, o grupo brasileiro ainda mantém muito dos hábitos dos seus antepassados, ao contrário de outras comunidades iorubas que estudamos, como a inglesa.” Existem cerca de 500 000 descendentes nigerianos hoje em Salvador. Boa parte deles organiza-se em grupos, o que ajuda a manter a cultura e os hábitos. Uma das maiores concentrações está no terreiro de candomblé Ilê Axé Opó Afonjá. Lá, eles cultivam a religião, a língua, as festas e, principalmente, o gosto pelas amala, isto é, comidas feitas com inhame, como o asaro e o tyan.

“Aqui em casa eu preparo inhame pelo menos uma vez por semana. Ele é cozido e misturado com ovos, com charque e com pirão”, conta Dadai, que tem uma casa no terreiro, onde mora com os gêmeos e outros dois filhos. O inhame brasileiro é ligeiramente diferente do nigeriano e, por isso, será preciso uma análise para verificar se os seus componentes têm o mesmo efeito.

Parceria brasileira

Antes da avaliação química, no entanto, será feito um trabalho para descobrir se a taxa de nascimento de gêmeos e de trigêmeos se mantém elevada como na Nigéria – ou até que ponto decresceu. Para isso, Naftolin vai estabelecer uma parceria com entidades brasileiras. A principal candidata é o Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana (CEPARH), que fica em Salvador e se dedica ao planejamento familiar e a resolver problemas de infertilidade. “Seria uma boa oportunidade para conhecermos melhor as características reprodutivas específicas dessa comunidade baiana”, diz o ginecologista Paulo Spinola, do CEPARH.

A continuação da parte brasileira da pesquisa depende de financiamento, que deve vir de alguma entidade americana como o Instituto Nacional de Saúde ou até da Organização Mundial da Saúde. Isso levará ainda alguns meses, tempo que os cientistas terão de esperar para saber o que há nas células de mulheres como Dadai, sua mãe ou até em sua filha, que deve ter o mesmo ventre fecundo de seus antepassados. Dentro delas, os cientistas talvez encontrem o gene responsável pela fertilidade, que, no caso dos seres humanos, ainda não tem nome. Se os iorubas o batizassem, ele poderia se chamar yèyé oniruru – o gene da mãe de vários.

Francês encantado

O fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger (1902-1996) decidiu conhecer o Brasil após ler o romance Jubiabá, de Jorge Amado. Chegou a Salvador em 1946 e, encantado com sua cultura, ficou lá até a morte. Realizou o mais credenciado registro da cultura ioruba no Brasil e dos seus rituais de candomblé (foto).

Alimento forte

Os hábitos culinários se mantêm parecidos com os africanos, com o preparo do inhame (no detalhe). Pode ser um dos motivos do nascimento dos gêmeos Graciene e Gabriel, filhos de Dadai

Para saber mais

Orixás, os Deuses Iorubas na África e no Novo Mundo, Pierre Fatumbi Verger, Salvador, Editora Currupio, 1996.

Uma ajuda para o ovário

Substâncias existentes no inhame ajudam na produção de óvulos.

1. No ovários, existem milhares de óvulos imaturos. A cada mês, normalmente, apenas um deles amadurece.

2. Estimulados por algum agente presente no inhame, os ovários trabalham dobrado, liberando dois ou mais óvulos de uma só vez.

3. Esses óvulos caem nas tubas uterinas, onde encontram os espermatozóides e são fertilizados.

4. Os óvulos fecundados se instalam no útero, gerando gêmeos ou trigêmeos.

Uma viagem forçada

Os iorubas foram carregados para o Brasil como escravos.

Os genes da fertilidade chegaram ao Brasil mediante muito sofrimento.

Os iorubas foram arrancados de sua terra e trazidos para a Bahia para trabalhar como escravos, principalmente nas lavouras de cana-de-açúcar. Até a chegada dos europeus, eles constituíam um imenso império africano chamado Oyo. Como país, a Nigéria só foi criada muito tempo depois, em 1914 (veja o mapa).

O tráfico de escravos desse povo para a Bahia foi mais intenso em meados do século XVIII, quando começou a invasão dos traficantes muçulmanos que queriam conquistar o império Oyo. As tribos, cada vez mais acuadas, começaram a guerrear entre si, o que facilitou o trabalho dos mercadores de escravos.

“Muitas vezes, o grupo que vencia uma batalha entregava o príncipe do outro grupo para ser vendido”, diz o historiador Ubiratan Castro de Araújo, diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia. Assim, muitos iorubas que vieram para o Brasil, principalmente Salvador, eram príncipes e representantes da elite africana. “Por isso, mais que outros povos seqüestrados, eles foram capazes de se organizar. Mantiveram suas tradições e seus hábitos”, conta Ubiratan. Um dos elos mais fortes foi o religioso, que resultou no candomblé, a religião dos negros iorubas na Bahia. Tão forte que, misturada ao catolicismo, gerou outro culto, a umbanda, seguida por milhões de brasileiros.

Mudança de mundo

Os negros eram seqüestrados nas terras africanas e levados para trabalhar na lavoura.

O fluxo de escravos dessa região da África foi mais intenso entre 1740 e 1851. Ainda não havia a divisão de países e os iorubas ocupavam uma área que hoje corresponde a Nigéria, Benin e Togo.