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Única gravação conhecida da voz de Frida Kahlo pode ter sido encontrada – ouça

Biblioteca de áudio no México revelou trecho de programa de rádio que pode ser o único registrado da voz da pintora – e talvez ela não seja exatamente o que você imagina.

Frida Kahlo é provavelmente um dos rostos mais conhecidos do mundo. Seu retrato é estampado e vendido em camisetas, bolsas e quadros. A artista mexicana se tornou ícone da cultura pop e do movimento feminista atual. Mas por um acaso alguém lembra de já ter ouvido sua voz? Bom, os problemas acabaram. A Fonoteca Nacional do México, acaba de divulgar o que é, provavelmente, a única gravação da voz de Kahlo.

O áudio tem apenas 1:40. Trata-se de um trecho do primeiro episódio do El Bachiller, um antigo programa de rádio mexicano apresentado por Alvaro Gálvez y Fuentes. Ele foi gravado entre 1953 e 1954, mas só foi ao ar em 1955, após a morte da pintora. Nele, uma mulher não identificada lê um texto intitulado Retrato de Diego, um perfil do marido Diego Rivera escrito por Kahlo. Segundo a fonoteca, não é só o texto em si que é de autoria dela: a narração, também. 

Confira abaixo o arquivo disponibilizado pelo governo mexicano:

Ainda não se sabe ao certo se a voz é Kahlo. Hilda Trujillo, diretora do Museu Frida Kahlo, diz que o clipe de áudio inclui elementos suficientes para uma análise rigorosa envolvendo bibliotecários, engenheiros, especialistas e pessoas vivas que conheceram a pintora.

Em entrevista à NBC News, o diretor da Fonoteca Nacional disse que uma das enteadas de Kahlo (filha de seu marido Diego Rivera) reconheceu a voz da madrasta. Por outro lado, o neto de Leon Trotsky (Frida também teve um caso com o revolucionário) permanece com dúvidas.

O que mais surpreende na voz de Kahlo é seu aspecto doce e delicado. “Existe uma grande idealização de quem ela era — e o quão forte ela era — então acredito que muitas pessoas achavam que ela teria uma voz mais forte e profunda”, diz a artista e palestrante de arte Erika Servin, em entrevista ao The New York Times.

Servin acreditava que ela teria uma voz mais rouca, já que Kahlo fumava bastante. O crítico de arte Waldemar Januszczak, também para o Times, diz que está entre as pessoas que ficaram surpresas com a gravação. “Eu estava esperando algo lento e aflito, obscuro e temperamental”.

Essa percepção é consequência de uma construção histórica e social de Frida – ou parte dela. “É essencial que as pessoas tenham uma imagem completa da personagem: essa Frida bela e delicada, mas que também é forte politicamente em sua arte”, ressalta Servin.

Até agora, haviam apenas relatos descritivos da voz da pintora. A fotógrafa Gisèle Freund era amiga de Kahlo e fotografou seus últimos anos de vida – supostamente quando o áudio teria sido gravado. A fotógrafa descreve a voz da artista como “quente e melodiosa”.

A Fonoteca Nacional abriga milhares de arquivos de áudio com as falas das mais importantes figuras históricas do país, e a voz de Frida é uma das mais requisitadas pelos visitantes. Pesquisadores da fonoteca estão ouvindo mais 1300 arquivos de áudio do El Bachiller para verificar se existem mais trechos com a voz de Frida Kahlo.