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Zygmunt Bauman: pensamentos profundos num mundo líquido

Zygmunt Bauman expõe a fluidez das relações afetivas em sua visão bem particular da vida na pós-modernidade.

ara quem frequenta livrarias, mas não tem familiaridade com a leitura de filosofia, o nome Zygmunt Bauman pode ser apenas aquele autor que tem várias obras nas prateleiras com títulos que usam muito as palavras “líquido” e “líquida”. Dos mais de 50 livros escritos por esse polonês que morreu em 2017, aos 91 anos, cerca de 30 foram traduzidos para o português e lançados no Brasil. Material suficiente para transmitir claramente suas ideias sobre um mundo “líquido”.

“Escolhi chamar de modernidade líquida a crescente convicção de que a mudança é a única coisa permanente e a incerteza, a única certeza.” A frase, repetida pelo sociólogo em textos e palestras, é irmã de outra, mais popular, que ele usava com foco nas conexões pessoais em tempos que levam o indivíduo a associações menos duradouras: “Hoje os relacionamentos escorrem por entre os dedos”.

Chamado de pessimista por suas críticas amargas ao pós-modernismo, Bauman se recusava a classificar as relações amorosas como união. Para o filósofo, as “relações líquidas” seriam experiências pessoais de cada um, sem a construção da identidade de um casal, da integração entre dois indivíduos. Nessa fluidez, a vida de cada um estaria propensa a mudar de uma hora para outra, às vezes de forma imprevisível.

Além do aspecto pessoal de suas discussões sobre a efemeridade das relações, seus temas se expandem para um painel da sociedade na virada do século, falando sobre globalização, ética, política e comunicação.

Nessa análise, a sociedade de consumo e o desenvolvimento da tecnologia acabam tendo papel decisivo para facilitar o individualismo. “Os telefones celulares ajudam a ficarmos conectados àqueles que estão a grandes distâncias. Mais do que conectar, os celulares permitem preservar essa distância.”

Para Bauman, a jornada individualista no mundo do consumo sustenta ideologicamente o enriquecimento voraz daqueles que já dispõem de dinheiro e posses.

O autor parte do individual para o global com extrema facilidade, notadamente em seus estudos sobre a cultura num planeta marcado pela renovação constante das relações internacionais, que levam ao debate inevitável sobre a revalidação ou transformação de conceitos de cidadania e direitos humanos. Bauman discute a relação amorosa fugaz na sociedade líquida no mesmo tom e na mesma intensidade em que faz propostas sobre a coexistência de indivíduos diferentes em comunidades às vezes construídas e delimitadas por contingências bélicas.

Em uma de suas frases mais contundentes, Bauman destaca a necessidade de luta pelos direitos da diferença em paralelo à marcha por direitos de igualdade. “Nós não deveríamos construir muros, deveríamos construir pontes.”

Nascido em Poznan, Bauman fugiu da invasão de tropas nazistas na Polônia em 1939. Aos 14 anos, foi com a família para a União Soviética. No ano seguinte, ingressou no partido comunista polonês e se alistou no exército. Com o final da Segunda Guerra, voltou para estudar em Varsóvia. Em 1945, entrou para o Serviço de Inteligência Militar, onde atuou por três anos. Em 1953, foi expulso do exército polonês. Um ano depois, concluiu mestrado e passou a lecionar na Universidade de Varsóvia.

Por 15 anos, fez críticas duras ao governo comunista da Polônia. Em 1968, o expurgo antissemita feito em retaliação aos protestos contra a censura do regime obrigou Bauman e a mulher, Janina, ao exílio em Israel. Em 1971, foi para a Inglaterra dar aulas na Universidade de Leeds, na qual dirigiu o departamento de sociologia até 1990, quando se aposentou.

Entre as publicações que fez antes de atingir a grande popularização de seu trabalho em meados dos anos 1990, o maior impacto veio com Modernidade e Holocausto, de 1989. Influenciado por livros de Theodor Adorno e Hannah Arendt, ele afirma que o Holocausto não deve ser analisado como uma descida à barbárie pré-moderna.

Usando a imagem de um quadro na parede que poucas lições pode transmitir, diz que as sociedades não conseguiriam entender a conexão do Holocausto com a modernidade. Segundo Bauman, essa relação contempla racionalidade e ordenação. Apresenta como algo lógico a necessidade de seguir ordens. Isso alimenta a tendência de admitir a obediência a regras como algo essencialmente bom. Dessa maneira, o extermínio de judeus seria uma opção radical da ação em que a sociedade visa eliminação de elementos estranhos e não classificáveis. Um fenômeno que o filósofo acreditava ser passível de repetição nos tempos atuais.

O número de seguidores de seu trabalho foi várias vezes multiplicado com a discussão da “modernidade líquida”. Esse conceito balizou um esgarçamento nas relações amorosas que trouxe à reflexão uma angústia nos sentimentos humanos, na urgência de encontrar um par perfeito. O que Bauman classifica como “amor líquido” é o desejo das pessoas de vivenciar o afeto, mas sem compromisso para que os laços mantidos sejam fluidos o suficiente para que a busca por relações continue como força motora, sem a imposição de alcançar a realização plena dessa procura intensa.

Essas emoções fluidas, para Bauman, têm origem na destruição de forças criativas pelo capitalismo e no consumismo como guia de comportamento na vida social. Cria-se um ambiente de incerteza em que o desapego pode ser um instrumento de versatilidade num movimento ininterrupto de supostos avanços. As pessoas acabam conseguindo apoio numa sensação potencial de eterno recomeço. E essa constante sensação transforma a vida numa experiência urgente e sem profundidade.

O medo e a insegurança neste início de século são temas preciosos na sociologia de Bauman. No livro Tempos Líquidos, um de seus volumes mais vendidos, ele afirma que a desintegração da solidariedade, minada pelas relações efêmeras na pós-modernidade, leva o homem de encontro a seus problemas mais graves. Ele vê as cidades perderem uma de suas missões básicas, que é oferecer conforto e segurança a seus habitantes. Os agentes atuando contra isso podem ser externos, como o terrorismo, podem ser internos, como a solidão, e também o que ele chama de abalo estrutural da individualidade, como o desemprego.

Em Medo Líquido, que pode ser lido como obra complementar a Tempos Líquidos, Bauman praticamente faz um inventário dos medos modernos para mostrar como esses temores e inseguranças ajudaram a derrubar a proposta utópica de controle sobre os aspectos sociais e econômicos da vida cotidiana. É mais uma certeza da modernidade “sólida” perdendo espaço numa época de mudanças de comportamento à mercê de ações e reações transcorrendo de forma fluida no dia a dia.

Bauman construiu uma dissertação crítica diante de temas variados, como a cultura transformada em itens de mercado, a crescente instrumentalização do consumismo com os cartões de crédito, a inadequação dos modelos consagrados de educação, num espectro que vai do global, como os efeitos da crise financeira de 2008, até a introspecção pessoal que chega a produzir problemas como depressão e anorexia.

Seus trabalhos mais recentes se voltaram para o que chamou de “enormes contingentes de seres humanos, destituídos de meios de sobrevivência em seus locais de origem, que vagam hoje pelo mundo”. Em Vidas Desperdiçadas, ele decreta: “Nosso planeta está lotado!”. Bauman admite a consolidação de uma população fora-da-lei, que jamais será incorporada ao sistema produtivo nem manterá qualquer tipo de relação estável. O foco passa a ser qual o destino reservado a essas massas e como políticas de seguranças nacionais vão interferir nessa jornada.

Em seu último livro, Estranhos à Nossa Porta, ele aborda a crise dos refugiados e as reações da Europa ao enorme número de pessoas em busca de asilo. Bauman associa o medo provocado pelas caravanas de refugiados a um processo de desumanização imposto àqueles que chegam. Ele vê as crises migratórias como uma grande crise humanitária, que impõe a descoberta de novas maneiras de convivência, buscando harmonia no relacionamento com pessoas que têm posicionamentos políticos e origens diferentes.