GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.
Tecnologia

A vida privada de Steve Jobs

Ele foi um gênio da tecnologia. Mas também um homem inseguro, mau amigo, pai cruel. E sua primeira filha, Lisa, escreveu um livro contando tudo.

Lisa e Steve raramente se viam. Ela morava em Nova York, onde trabalhava escrevendo artigos para revistas femininas. Mas, em 2011, sentiu que era hora de se reaproximar.

A cena que encontrou ao abrir a porta da casa do pai em Palo Alto, na Califórnia, foi ainda mais chocante do que as imagens divulgadas pela imprensa. Com câncer de pâncreas em estado terminal, Steve mal levantava da cama, onde recebia morfina e um soro intravenoso que fornecia 150 calorias por hora. Tinha as pernas tão finas quanto os braços. Ao lado dele estava Segyu Rinpoche (Antônio Carlos Silva), um monge brasileiro de 63 anos que fundou um centro budista na Califórnia e se tornou conselheiro espiritual de Jobs. “Toque os pés dele”, disse. Lisa obedeceu – e viu a expressão do pai mudar de um jeito estranho e ao mesmo tempo familiar. Ela lembrou que, ao longo da vida, Steve tinha o hábito de fazer a mesma cara, franzindo a testa, quando estava feliz ou com raiva. Agora ele estava feliz, e fez questão de confirmar. “Isso é bom”, disse, fechando os olhos. E naquele momento, após décadas de encontros e desencontros, Lisa Brennan-Jobs finalmente alcançou seu maior sonho: ser aceita pelo pai. 

Fruto de uma gravidez inesperada, Lisa era tratada por Jobs como filha bastarda. Em 1980, quando a menina tinha 2 anos, o governo da Califórnia processou Steve por não pagar pensão. Ele se recusou, alegando que era estéril. Só aceitou contribuir, com US$ 500 por mês, depois que um exame de DNA provou que era o pai. E dinheiro não faltava. Em dezembro daquele ano, a Apple lançou suas ações na Bolsa. “Da noite para o dia, meu pai tinha mais de US$ 200 milhões”, diz Lisa em seu livro de memórias Small Fry, inédito no Brasil. Esse termo em inglês tem vários significados (mais sobre eles daqui a pouco), que ilustram bem o quão dura foi a relação dos dois – com momentos de revirar o estômago.

As caixas azuis

Steve e Chrisann Brennan tinham 17 anos quando se conheceram na escola Homestead em Cupertino, na Califórnia. O ano era 1972. A mãe de Chrisann tinha esquizofrenia e o pai vivia fora, viajando a trabalho. Steve surgiu na vida da garota como um salvador. “O que mais impressionou minha mãe foram os olhos gentis dele, comparados com os olhos da minha avó, que tinha um olhar de ódio”, diz Lisa.

No primeiro encontro, o pai de Chrisann perguntou a Steve o que ele seria quando crescesse. “Um vagabundo”, respondeu o rapaz. O pai não aprovou o namoro da filha com aquele cabeludo de calça furada, mas também não impediu. Chrisann foi morar com Steve numa casinha alugada com o dinheiro da venda das “caixas azuis” – uma engenhoca que ele inventara com o amigo Stephen Wozniak. Ao serem ligadas na rede de telefonia, essas caixas emitiam um som que enganava a central e permitia telefonar de graça para qualquer lugar do mundo – numa época em que o interurbano custava uma fortuna.

Um dia, entre doses de LSD e canções de Bob Dylan, Steve fez uma profecia. “Vou ser rico e famoso”, afirmou. “Também vou morrer jovem.” O namoro não passou daquele verão, pois Chrisann achava Steve temperamental e irresponsável. Ele ficou arrasado e mal conseguiu continuar seu trabalho na Atari, a empresa que popularizou os videogames.

A fase na Atari exemplifica bem o caráter duvidoso que Jobs podia ter. Ele estava trabalhando num game chamado Breakout (que viria a se tornar um clássico), mas não conseguia fazer progresso, e pediu ajuda ao amigo Wozniak – um expert em hardware. Woz deu um jeito de fazer o jogo rodar com menos chips, o que barateava o custo de produção do cartucho. Por conta disso, a Atari pagou US$ 5 mil de bônus a Jobs – que, em vez de dividir a grana com o amigo, deu apenas US$ 350 a ele.

Jobs ao lado de Steve Wozniak, amigo e sócio

Jobs ao lado de Steve Wozniak, amigo e sócio (Justin Sullivan/Getty Images)

Em 1974, Steve e Chrisann viajaram (separados) à Índia para mergulhar no zen-budismo. Voltaram e começaram a ficar de vez em quando, sem morar juntos. Em 1976, Steve fundou a Apple com o amigo Wozniak, e no ano seguinte Chrisann engravidou. Em 1978, quando ambos tinham 23, Lisa nasceu, na fazenda de um amigo do casal no Oregon. Steve só apareceu dias depois. “Ela não é minha filha”, advertia a quem quisesse ouvir – embora tivesse ido até lá para conhecê-la.

Para criar a menina, Chrisann recebia ajuda financeira do Estado e trabalhava como faxineira e garçonete. Chegou a ter um emprego no setor de embalagens da Apple, mas por pouco tempo. A relação piorou à medida que a fama de Steve crescia. Em 1983, ele foi capa da revista Time. A reportagem destacava que a filha bastarda de Jobs e o novo e mais avançado computador da Apple tinham o mesmo nome: Lisa(1). Steve respondeu dizendo que “28% da população masculina dos EUA” poderia ser o pai da garota. Era uma crítica exageradíssima aos exames de DNA da época, que tinham uma pequena margem de erro. Para Lisa, essa postura de Jobs tinha motivo. “Eu era uma mancha em sua espetacular ascensão, já que a nossa história não se encaixava com a narrativa de grandeza que ele devia querer”, escreve.

Rejeitar um filho é uma das atitudes mais cruéis que existem. No caso de Lisa, um elemento tornava a situação ainda mais trágica: Steve Jobs, ele próprio, havia sido abandonado pelos pais biológicos.

  1. Lançado em janeiro de 1983, o Apple Lisa foi um dos primeiros computadores com interface gráfica (ícones, janelas e mouse), muito mais avançada do que as antigas máquinas modo texto. Custava US$ 10 mil – o equivalente a US$ 25 mil em valores atuais –, e por isso vendeu pouco. Seu sucessor foi o Macintosh, mais simples e 75% mais barato, que chegou em 1984.

"Small Fry"

Em 24 de janeiro de 1955, nasceu o bebê do sírio Abdulfattah Jandali com a americana Joanne Schieble. Ele era filho de empresário, ela, professora, os dois eram bem jovens (ele tinha 24, ela 23). A família de Joanne não aceitou o casamento, pois Jandali era árabe, e resolveram dar o bebê. Os pais adotivos foram Paul e Clara Jobs, casal de classe média baixa de San Francisco. 

Steve amava os dois, mas aos 20 e poucos anos foi atrás da mãe biológica. Encontrou o médico que havia feito seu parto e lhe perguntou qual era o nome dela. O doutor disse que não sabia e nem poderia dizer, pois isso violaria a confidencialidade. Quando Steve saiu do consultório, o médico escreveu: “Por ocasião da minha morte, favor dizer a Steve Jobs que eu conheço, sim, a sua mãe, e que o nome dela é Joanne.” Quatro horas depois, o médico morreu de ataque cardíaco. Steve recebeu a carta, encontrou a mãe e soube que tinha uma irmã mais nova, Mona, com quem formou um vínculo imediato.

Ele só não queria saber de Lisa. Aos 7 anos, a menina já tinha mudado de casa 13 vezes com a mãe por falta de dinheiro. Mas, a partir de seu oitavo aniversário, Steve passou a visitá-la uma vez por mês. Ele tinha sido afastado da Apple após o fiasco de vendas do computador Lisa, e estava montando outra empresa de tecnologia, a NeXT. A dinâmica se repetiria nos anos seguintes. “Quando fracassava no trabalho, ele se lembrava de nós. Começava a nos visitar, queria uma relação comigo”, diz Lisa.

Sempre que aparecia, Steve levava a filha para andar de skate. E ela aos poucos nutriu um intenso amor pelo pai. “Ele era rico, mas tinha buracos no jeans; era bem-sucedido, mas quase não falava; era elegante, mas desajeitado; era famoso, mas parecia desolado e sozinho; inventou um computador e lhe deu o meu nome, mas não mencionava isso”, escreve Lisa. “Esses traços contrastantes poderiam ser qualidades, dependendo do ângulo. E agora que ele estava em minha vida, ainda que só uma vez por mês, eu não tinha esperado em vão.”

Nas noites de quarta, Lisa dormia na casa do pai enquanto a mãe tinha aula na faculdade de artes. A mansão ficava em Woodside, a 20 minutos de Palo Alto. Os banheiros tinham azulejos mouriscos e torneiras de bronze. Na cozinha, Steve oferecia à filha sucos escuros, cenoura ralada com groselha, trigo bulgur e “o melhor azeite de oliva do mundo”. Também repetia que morreria cedo. “Me enterre debaixo de uma macieira”, dizia. “Sem caixão.”

Numa dessas noites, Lisa não conseguiu dormir e foi até o quarto do pai, onde ele via TV. “Tive um pesadelo. Posso dormir na sua cama?”, ela perguntou. “Acho que sim”, ele respondeu, secamente. Lisa notou que seus pedidos o incomodavam. Ele não era o pai que ela tinha imaginado. “Sim, havia um elevador, um piano e um órgão na casa. Ele era rico, famoso e bonito, mas aquilo era temperado pelo vazio que eu sentia perto dele, um sentimento de muita solidão”, ela escreve.

O pior era quando ele a provocava com piadas sem graça. Por exemplo, quando disse que os rapazes iam adorar a cama que a tia Mona daria para ela. “Quem você vai convidar para essa cama?”, ele perguntou. Steve também a apelidou de Small Fry. “Imaginei que era aquela batatinha frita do fundo do saco. Achei que ele estava me chamando de ‘tampinha’ ou desprezível”, diz Lisa. “Depois, fiquei sabendo que fry é um termo para designar os peixes jovens, que são jogados de volta ao mar para crescerem.”

Ao andar de skate, Steve levantava a filha pelas canelas. Lisa balançava lá no alto, com medo de se esborrachar no chão. “Com o tempo, aprendi que ele sempre acabava caindo. Mas eu deixava que me carregasse, porque isso parecia importante para ele”, diz. Pai e filha não andavam de mãos dadas. Steve só segurava a mão dela ao atravessar a rua. “Você sabe por que nos damos as mãos?”, perguntou uma vez. “Porque sim?”, sugeriu ela, esperando que ele dissesse “porque eu sou o seu pai”. “Não”, respondeu ele. “Pelo seguinte: se um carro estiver a ponto de te atropelar, eu posso jogar você para fora da rua.” 

O humor de Jobs podia azedar rápido, principalmente em restaurantes. Chrisann e Lisa tinham cuidado ao pedir os pratos, pois ele condenava o consumo de carne, que considerava impura. Um dia os três foram almoçar com Sarah, prima de Lisa. “Quero hambúrguer”, pediu a menininha. Após as primeiras mordidas, a cara de Steve se contraiu. “O que há de errado com você?”, ele perguntou. “Você não sabe falar. Você não sabe nem comer. Você está comendo merda.” Sarah segurou o choro, mas ele continuou. “Você já pensou em como a sua voz é horrível? Não quero passar nem mais um minuto com você.”

Pouco tempo depois, Steve começou a namorar Tina, uma engenheira que havia trabalhado na Apple. Quando a beijava diante de Lisa, Steve passava a mão em seus seios. “Mmmm”, ele dizia. Steve e Tina terminaram e voltaram pelo menos dez vezes em seis meses. “Quando terminavam, ele mal podia caminhar de tristeza”, diz Lisa. “Ficava amarelado e pálido, comendo só cenouras. Quando voltavam, ele pulava e cantava.” Toda vez que Tina o largava, Steve aparecia na casa de Chrisann. “Embora quase não falasse com a gente, era a nós que ele procurava quando a vida ficava difícil”, diz Lisa. Ela percebia um tom fatalista no pai. Foi assim no dia em que ambos viram um mendigo, estropiado e desdentado, na rua. “Esse sou eu daqui a dois anos”, disse Steve.

Proibição absurda

Laurene, a (fria) esposa de Steve

Laurene, a (fria) esposa de Steve (Governo do Chile/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0))

Em 1991, Jobs se casou com a mulher com quem ficaria até o fim da vida: Laurene Powell. Os dois se conheceram numa palestra dele na Universidade Stanford, onde Laurene fazia MBA. Um monge budista celebrou a cerimônia, para 40 convidados, num hotel da Califórnia. “Não é o amor que une as pessoas. São os valores – os valores em comum”, disse Jobs no discurso, com um tom sério, olhando para Laurene.

Quando ela deu à luz seu primeiro filho (Reed), Steve convidou Lisa para morar na mansão. Com uma condição grotesca: ela não poderia ver a mãe durante seis meses. “Quero que você dê uma chance a esta família”, disse ele. Lisa aceitou, contrariada. Sentiu alívio por sair da casa de Chrisann, com quem brigava sem parar. E culpa por abandoná-la.

Lisa enfim morava com o pai, mas se sentia terrivelmente só. Ela e a mãe se viam em segredo, temendo que ele descobrisse. Steve exigia que a filha cuidasse de Reed após as 17h, quando a babá ia embora. E a repreendia quando ela chegava tarde por participar do grêmio estudantil. “Isso não está funcionando”, afirmou Steve. “Se quiser ser parte desta família, você vai ter que se dedicar mais.” Às vezes Lisa ia dormir chorando e com frio, pois a calefação de seu quarto não funcionava.

Quando tomou coragem para pedir ao pai que a mudasse de cômodo, a resposta foi não. “Sinto frio. Você pode consertar a calefação?”, perguntou ela. “Não até a gente reformar a cozinha”, disse Steve. “E não vamos fazer isso tão cedo.” A situação piorou quando roubaram a bicicleta de Lisa. O pai disse que compraria outra desde que a filha lavasse os pratos toda noite. E trocasse as fraldas do irmão. Mais tarde, Lisa conseguiu levar o pai e a madrasta a uma sessão de terapia de família. A garota revelou que se sentia sozinha na casa. Nem “boa-noite” eles lhe davam. Laurene não se comoveu. “Nós somos só pessoas frias”, afirmou.

O fim

Jobs em foto de março de 2011, sete meses antes da morte

Jobs em foto de março de 2011, sete meses antes da morte (Justin Sullivan/Getty Images)

Em setembro de 2011, Steve mandou uma mensagem a Lisa pedindo que o visitasse. Também pediu a ela, em seu leito de morte, que não escrevesse um livro contando a relação dos dois. Lisa  mentiu – e concordou. 

“Estou muito feliz que você esteja aqui”, disse Jobs, com lágrimas no rosto. “Esta é a última vez que você vai me ver.”

“Ok”, respondeu a filha, sem acreditar muito naquilo. (Steve morreria um mês depois.)

“Eu não passei tempo suficiente com você quando era pequena. Queria que tivéssemos mais tempo. Fico te devendo essa.”

“Está bem.”

“Não, não está bem. Não passei tempo suficiente com você. E agora é tarde demais.”

Mas Jobs manteve a ambivalência, com uma pitada de acidez, até o fim. Isso fica evidente no relato de Lisa sobre o que viria a ser o último encontro dos dois.

“Antes de me despedir, fui ao banheiro passar perfume. Era um spray natural, então depois de alguns minutos ele não tinha mais odor de rosas. Ficava meio com cheiro de pântano, mas eu não sabia disso na época. 

“Quando entrei no quarto, ele estava tentando levantar. Eu o vi pegar as duas pernas com um braço, virar o tronco 90 graus, empurrar a cabeceira da cama e usar os dois braços para colocar as próprias pernas no chão. Quando nos abraçamos, senti suas costelas, suas vértebras. Ele tinha cheiro de doente.”

“Eu volto logo”, disse.

Lisa começou a se afastar, mas Jobs a deteve. “Lis?”

“O quê?”

“Você está com cheiro de privada.”

* * *

Lisa Brennan-Jobs em foto atual. Ela tem 41 anos

Lisa Brennan-Jobs em foto atual. Ela tem 41 anos (NBC/Getty Images)

Lisa e os outros três filhos de Jobs receberam partes da herança do pai (na casa dos milhões de dólares). Ela diz que se tivesse acesso a toda a fortuna, US$ 20 bilhões, doaria à Fundação Bill e Melinda Gates – dirigida pelo arquirrival do pai. “Seria perverso demais?”, indagou em entrevista ao New York Times. “Eles têm feito coisas boas.”