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Ciência

O mistério da inteligência animal

Novas pesquisas mostram que cachorros, gatos, macacos e elefantes entendem humanos, conversam entre si, se chamam por nomes e criam a própria tecnologia.

por Sílvia Lisboa 13 out 2020 11h14

Texto: Sílvia Lisboa | Edição de Arte: Dois Pontos Design | Design: Andy Faria

Você pede a patinha ao seu cão, e ele a entrega com satisfação. Você diz “deita”, ele rola no chão. Você diz “senta”, ele obedece na hora. Você chega abatido do trabalho, e ele parece ler sua mente. Senta ao seu lado no sofá e coloca a cabecinha na sua coxa como se dissesse “estou aqui para o que você precisar”. Você até se esquece da discussão com o chefe e pensa como um animal pode entender o que você fala – e o que você não fala também.

Não há dúvidas para a ciência: seu mascote é inteligente. Os mais de 15 mil anos de convívio tornaram o cachorro a espécie que melhor nos entende. Em 1994, o especialista em comportamento animal Stanley Coren, hoje professor da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, publicou A inteligência dos Cães, mostrando que existiria até mesmo o equivalente a diferenças de QI entre as espécies – o border collie, por exemplo, teria o mais alto escore no ranking cognitivo dos peludos. Coren usou a facilidade de adestramento como o critério para ordenar a lista de 110 raças. Mas os cientistas estão descobrindo que a inteligência canina vai muito além disso.

Novos estudos mostram que os cães têm habilidades cognitivas sofisticadas, como memória episódica, capacidade de aprender sozinhos, de resolver problemas, de tomar as próprias decisões, compreender a linguagem humana e até de interpretar as emoções do dono ou intuir o que ele está pensando – um tipo de “teoria da mente” rudimentar. Essas capacidades foram sendo buriladas ao longo dos milênios de convívio com a gente. Na corrida evolutiva e milhares de cruzamentos depois, ganharam as raças mais hábeis no convívio humano. Uma prova disso é a atenção que os cães dispensam aos amantes dos bichos. Os peludos sabem, depois de um rápido contato visual, quem eles devem ignorar e em quem eles podem confiar – uma esperteza que tira vira-latas das ruas todos os dias.

Nossos melhores amigos teriam, inclusive, o fator g ou a inteligência geral. Em um experimento com 68 border collies, os psicólogos Rosalind Arden e Mark Adams descobriram que um cão que se sai bem em uma tarefa tende a se sair bem em outras. Um mascote hábil em resolver um problema tende a ser bom também em interpretar o que seu dono sente.

<strong>AMIGÃO ESPERTO – Os milênios de convívio com a gente dotaram os cães com capacidades cognitivas sofisticadas.</strong>
AMIGÃO ESPERTO – Os milênios de convívio com a gente dotaram os cães com capacidades cognitivas sofisticadas. Tim Flach/Getty Images

Para descobrir isso, a dupla fez uma série de testes. Em um deles, os voluntários caninos tinham de descobrir onde estava uma guloseima a partir de uma pista visual. Aqueles que achavam o esconderijo mais rápido ganhavam mais pontos. A velocidade do processamento de informações é uma característica da inteligência nos peludos – assim como nos humanos.

Eu sei o que você fez no verão passado

Os cães nos copiam até na capacidade de recordar eventos específicos, uma habilidade conhecida como memória episódica. Em um experimento húngaro, 35% dos cães imitaram uma ação feita pelo dono uma hora antes quando, inesperadamente, receberam uma ordem para fazê-lo. “Essas descobertas mostram que os cães recordam eventos passados tão complexos como as ações humanas”, dizem os cientistas da Universidade Eötvös Loránd, de Budapeste. O achado surpreendeu até mesmo os pesquisadores.

Isso porque esse tipo de memória, nos humanos, está associada a fatores como introspecção e consciência. Ainda não há formas de demonstrar que os cãezinhos sabem quem são. Experimente colocar seu mascote diante de um espelho: ou ele não dará bola ou vai latir muito pensando que está diante de outro cachorro. Porém, alguns pesquisadores acreditam que a descoberta desse tipo de memória é um indício forte de que os quadrúpedes teriam um “eu” próprio.

Os gatos não ficam para trás. Os felinos também gravam detalhes de locais, coisas ou ações. Foi o que pesquisadores da Universidade de Kyoto descobriram por meio de um teste que envolvia uma simples tarefa de busca de alimento. No experimento, 49 gatos pareciam recordar os recipientes que ainda tinham comida num intervalo de 15 minutos.

<strong>ARQUIVO MENTAL – Cães e gatos têm memória episódica, como seus donos. isso significa que eles são capazes de se lembrar de fatos e de locais onde estiveram anos antes. </strong>
ARQUIVO MENTAL – Cães e gatos têm memória episódica, como seus donos. isso significa que eles são capazes de se lembrar de fatos e de locais onde estiveram anos antes. adogslifephoto/iStock

Apesar de serem bem menos sociais que os cães, os felinos têm um modo peculiar e astuto de chamar nossa atenção, outro traço distintivo da inteligência da espécie. A cientista Karen McComb, da Universidade de Sussex, na Inglaterra, descobriu que gatos emitem uma súplica em uma frequência impossível de ser ignorada. Mesmo pessoas que não têm – e nem convivem – com gatos puderam identificar, ao ouvirem miados gravados, quais eram os gatos que estavam famintos. Os miados tinham uma frequência parecida com o choro de bebês. “Embora não despertem o mesmo sentimento de urgência que o choro das crianças, são acusticamente programados para torná-los difíceis de ignorar”, relatou Karen.

Gatos x cães

Mas quem venceria a disputa do QI: cães ou gatos? Ainda não há um veredito, mas talvez os cachorros ainda estejam em vantagem. Primeiro, porque têm cérebros maiores. Em geral, crânios robustos são associados à maior capacidade intelectual, mas esta não é uma relação de causa e efeito.

Um estudo da Universidade de Oxford, divulgado em 2010, revelou que o cérebro dos cães cresceu em ritmo acelerado enquanto o dos felinos, em cadência bem mais lenta. Para os cientistas, que compararam a evolução de 500 espécies de mamíferos, a explicação reside no fato de que os cães são mais sociáveis do que os gatos. E animais sociais precisam pensar mais.

Os felinos, porém, têm quase o dobro de neurônios na região mais nobre do cérebro, o córtex, responsável pelo aprendizado e memória. Isso daria a eles uma capacidade maior de processamento de informações, o que poderia compensar o cérebro mais enxuto. E a disputa segue. Talvez ainda sejam necessários mais uns milênios para um desempate no placar.

Macacos na Idade da Pedra

Em 14 de maio de 2013, os veterinários Jean-Felix Kinani e Dawn Zimmerman observavam gorilas no Parque Nacional dos Vulcões, no Havaí, quando viram algo inédito. Uma fêmea, batizada de Ruanda, que era observada por cientistas, usou uma ferramenta para conseguir comida. Ruanda viu um macho usar a mão para coletar formigas em um buraco. Rapidamente, ele retirou a mão e sacudiu o braço para evitar as mordidas dos insetos. Ruanda foi lá e fez a mesma coisa. Porém, logo em seguida, ela pegou um pedaço de madeira de 20 centímetros e o afundou no buraco. Depois, retirou a vara apinhada de bichos e os lambeu. Foi a primeira vez na história que um gorila selvagem havia feito isso.

A descoberta mostrou que os gorilas são capazes de usar a habilidade de produzir ferramentas, um traço de inteligência que colocou a civilização humana na Idade da Pedra e mais próxima de dominar o planeta. Até pouco tempo atrás, essa habilidade era vista como uma exclusividade da espécie mais evoluída da Terra. Ledo engano. Bonobos, chimpanzés, orangotangos e, agora sabemos, também gorilas não só usam folhas para buscar comida, se defender ou criar estratégias para se locomover na floresta, mas também esculpem suas próprias ferramentas em pedras. Elas foram encontradas por primatólogos nos parques da África, nas florestas do Brasil e nas praias da Tailândia, e não deixam dúvida de que não fomos os únicos a dominar a capacidade de criar tecnologia.

Para a ciência, os primatas são os nossos primos mais inteligentes. E, entre eles, os orangotango saem na frente – não só criam lanças e facas como ensinam a arte às novas gerações. A exemplo dos cães, os macacos têm um ranking de inteligência, divulgado em 2006 na revista Nature. A lista, feita pela Universidade de Duke, é bem mais sofisticada do que a produzida por Stanley Coren e combina resultados de diferentes tipos de testes com os cachorros, como habilidade de criar ferramentas, navegar em labirintos, encontrar comida, identificar sons estranhos etc.

Chimpanzés e bonobos, por exemplo, têm uma inteligência estratégica semelhante à de uma criança. São capazes de pensar em prós e contras, intuir o que o outro pensa e tomar decisões com base nisso. No experimento que revelou essa faceta, cientistas liderados pelo biólogo Alejandro Sánchez-Amaro, do Instituto de Antropologia Evolutiva Max Planck, compararam como chimpanzés, bonobos e crianças coordenavam suas ações num jogo chamado snowdrift, em que os participantes têm de estudar a reação do adversário antes de tomar uma decisão para conseguir uma recompensa. Macacos se igualaram às crianças na arte de coordenar decisões para garantir que ambos saíssem premiados.

<strong>PRIMATAS TECH – Macacos fabricam as próprias ferramentas e são hábeis negociadores.</strong>
PRIMATAS TECH – Macacos fabricam as próprias ferramentas e são hábeis negociadores. GlobalP/Getty Images

Os chimpanzés têm outras duas habilidades surpreendentes: eles identificam números e têm uma memória visual superior à nossa. Em um teste feito em 2007 na Universidade de Kyoto, três exemplares da espécie superaram 12 humanos adultos em um teste para ordenar números do 1 ao 9 numa tela. Eles viam a sequência e tinham de tocar no número 1. Quando faziam isso, os demais números eram cobertos por quadrados brancos. A tarefa era tocar os quadrados na ordem crescente dos algarismos ocultos.

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Um chimpanzé chamado Ayumu, nascido e criado na universidade, foi o campeão. Ele levava 60 milissegundos para tocar no quadrado certo. Quando os números eram exibidos por 700 milissegundos, tanto Ayumu quanto os universitários eram capazes de acertar 80% das vezes. Mas, quando o tempo de exposição caía pela metade ou menos, os humanos pagavam mico.

A memória talvez seja o aspecto da inteligência mais notável dos nossos primos da selva. Chimpanzés e orangotangos têm a chamada memória autobiográfica, ou seja, podem se valer de experiências e conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Um estudo dinamarquês de 2013 revelou que eles são capazes de recordar eventos de três anos atrás. Ao serem apresentados a uma nova arrumação de um mesmo local onde já haviam estado anos antes, eles se lembraram instantaneamente onde buscar uma ferramenta escondida.

Bicharada astuta

Golfinhos têm nomes próprios, aves e elefantes sabem falar e plantas aprendem. Conheça a vida inteligente que existe no céu, no mar e na floresta.

GOLFINHOS SE CHAMAM PELO NOME

Dar nome a coisas é extremamente raro no reino animal. Cabia ao homem essa habilidade única. Até um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de St. Andrews, Reino Unido, revelar que golfinhos identificam-se uns aos outros por meio de uma espécie de apito-assinatura, que os diferencia. No estudo, os golfinhos foram expostos a diferentes apitos.

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federicoriz/iStock

Ao ouvirem os apitos de golfinhos amigos, se aproximaram dos alto-falantes e reproduziram sua própria assinatura vocal. Eles também têm autoconsciência. Para comprovar, pesquisadores colocaram pintas pretas nos golfinhos do aquário de Nova York. Os animais colocavam as partes pintadas em frente ao espelho, como se quisessem entender o que era aquilo.

NÃO É SÓ PAPAGAIADA

Alex, um papagaio-cinzento, que morreu em 2007 aos 31 anos, sabia identificar objetos pela cor, formato e composição. Também contava até seis. Foi Alex, com seu cérebro do tamanho de três castanhas-do-pará, que desmistificou a noção de que o tamanho do cérebro determina a capacidade cognitiva.

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GlobalP/iStock

O chapim é a única espécie não humana a construir sentenças. Ele tem dez diferentes notas no repertório vocal, que podem ser usadas sozinhas ou associadas.

OS SURPREENDENTES CORVOS

Betty, um corvo da Nova Caledônia, um arquipélago da Oceania, foi flagrada por pesquisadores da Universidade de Oxford construindo uma ferramenta para pescar alimentos. O feito de Betty é parte do repertório natural da espécie, uma das mais inteligentes do reino animal. Um novo estudo da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, mostrou que corvos da mesma espécie da Betty dominam relações de causa e efeito.

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drbimages/iStock

A pesquisa testou a habilidade dessas aves na caça de alimentos em tubos com água rasa. Em seis das quatro tarefas, as aves conseguiram elevar o nível da água usando objetos sólidos, como pedras, com o objetivo de pegar a comida. Para os pesquisadores, os resultados indicam que os corvos têm uma compreensão do mesmo nível de crianças entre 5 e 7 anos neste tipo de tarefa.

PLANTAS PODEM OUVIR E SE DEFENDER

Há indícios de que as plantas são capazes de aprender e tomar decisões. Um estudo da Universidade do Missouri mostrou como, ao ser exposta ao som de uma lagarta comendo uma folha, a Arabidopsis thaliana passou a produzir químicos defensivos, o que sugere que ela pode ouvir e se defender de uma ameaça.

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BWFolsom/Getty Images

Em outro experimento, da Universidade Western Australia, simulou-se derrubar as plantas da espécie mimosa pudica várias vezes. Mas, em dado momento, as plantas pareceram memorizar o ocorrido e pararam de reagir a ele fechando as pétalas, como de costume.

ELEFANTES FALAM COREANO

Elefantes são capazes de distinguir diferentes etnias humanas pela voz. No experimento da Universidade de Sussex, na Inglaterra, cientistas gravaram a voz de dois homens quenianos de etnias diferentes: um Maasai e um Kamba. O primeiro grupo tem o histórico de matar elefantes, e o outro não. Quando os animais ouviram o Maasai, demonstraram medo, mas não exibiram reação com a frase dos Kamba.

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Divesh_Mistry/iStock

Em outro estudo, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, elefantes escolheram o container certo 68% das vezes para o qual os pesquisadores apontavam. Em 2012, um elefante asiático chamado Koshik embasbacou um grupo de cientistas liderado por uma pesquisadora da Universidade de Viena, quando imitou os fonemas de cinco palavras em coreano. Koshik não compreendia o significado das palavras, mas acredita-se que ele tentou reafirmar laços afetivos.

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