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Os mistérios do caminho de Santiago

Nosso repórter percorre o Caminho de Santiago e conta o que viu, o que sentiu e o que aprendeu em uma das mais famosas rotas de peregrinação do mundo.

No ano de 813, numa noite clara da Galícia, região no norte da Espanha, um eremita chamado Pelayo teria visto intensas luzes celestes descendo sobre o campo. Na manhã seguinte, ele relatou o que vira ao bispo da região, Teodomiro de Iria. O bispo ordenou que o lugar fosse investigado. E, para espanto de todos, foi encontrada ali a ossada de Tiago, o apóstolo de Cristo incumbido de evangelizar a Península Ibérica. Tiago fora decapitado pelos romanos na Palestina, no ano de 44 d.C., ao retornar de sua missão evangelizadora. Seus restos foram colocados numa barca e ela, por um desígnio inexplicável, teria atingido o litoral galego.

Oito séculos mais tarde, coube a Pelayo descobrir a mortalha de Tiago e colocar a cidade de Santiago de Compostela – derivação de “São Tiago dos Campos Estelares” – para sempre na rota das grandes peregrinações religiosas. Outros 12 séculos se passaram e lá estava eu, trilhando, de bermuda, com um par de tênis e outro de camisetas, o famoso Caminho de Santiago. A seguir, as minhas anotações de viagem.

1. O “caminho francês”

Assim que deixei a charmosa cidadezinha de Saint Jean Pied de Port, no sul da França, que dista 800 quilômetros de Santiago de Compostela e marca o início de um dos itinerários possíveis, o “caminho francês”, parei diante de uma placa que mostrava a figura de um peregrino e, abaixo, a inscrição Camiño de Santiago. Segui na direção da seta até uma estradinha de terra. Ao longe, vi um caminhante com sua mochila, atravessando uma senda esverdeada. Fiquei ali, parado, até ele se perder na paisagem. Era um estupendo fim de tarde europeu, daqueles em que o sol demora quatro horas para se pôr. Uma brisa suave refrescava o calor de quase 30 graus. Senti ali todo o encantamento da jornada. Uma viagem por uma das regiões mais belas do mundo cujo principal atrativo, paradoxalmente, é olhar para dentro de si, conhecer-se melhor, crescer espiritualmente.

2. Bienvenido a España, tio!

Entrei na Espanha pela província de Navarra. Em Irache, uma das dezenas de pequenas cidades que cruzei pelo caminho, topei com um magnífico convento beneditino construído há 800 anos: o Monastério de Irache. Carmelo, o simpático monge que toma conta do lugar há 25 anos, me contou que, certa vez, flagrou um casal de turistas franceses transando no confessionário da igreja. E os abençoou, porque não havia mais nada a fazer. De outra feita, deu abrigo a um peregrino espanhol que viajava praticamente nu para demonstrar seu desapego aos bens materiais.

3. “A vida é o próprio caminho”

Ainda em Navarra, encontrei uma ciclista de cabelos brancos pedalando numa subida muito íngreme. Passei por ela e ela me acenou alegremente. Parei, sorri de volta e ficamos batendo papo enquanto recuperávamos a respiração. Ela tinha 62 anos e se chamava Rickie Van Lier. Era holandesa e saíra de Amsterdã havia um mês. Atravessara a Bélgica e a França com sua bicicleta e agora estava a menos de dez dias de alcançar Santiago. “Nesse tempo na estrada percebi que a vida é a própria estrada. Temos que ir em frente”, disse, enquanto se refrescava do calor do sol espanhol com a água que carregava em um antigo cantil. “Todos os dias pego o caminho e sigo. Não me pergunto sim ou não. Simplesmente sigo.”

4. Os cajados de Don Juanito

Na cidade de Azqueta, encontrei Juanito, uma das figuras mais populares do Caminho. Ele é o construtor oficial dos cajados dos peregrinos. “Herdei essa tradição da minha família. Foi minha bisavó, há mais de 140 anos, quem a começou”, me disse ele, com sua fala pausada e firme. “Peregrinar é muito importante porque gera algo verdadeiro. Todos levamos uma vida falsa: o prazer dos excessos e o dinheiro nos comandam. No Caminho aprende-se muito sobre o que a vida de fato é ou deveria ser.”

5. Cenários surreais

Em La Rioja, uma planície aprazível com muitos vinhedos e que oferece magnífica vista das montanhas ao longe, entrei na cidade de Santo Domingo de la Calzada. Visitei a catedral. Como em tantas outras igrejas que cruzei pelo caminho, havia um ninho de cegonha, uma ave sagrada para os espanhóis, encrustrado na torre do sino. As cores ensolaradas, os matizes exóticos, a desconcertante poesia dos cenários que a Espanha oferece ajudam o viajante a entender um pouco mais o surrealismo de Luis Buñuel e Salvador Dalí.

6. O melhor e o pior de cada um

Em Castilla me deparei com o trecho mais difícil do Caminho. Na escaldante estrada que liga Carrión de los Condes a Terradillos de Templarios o cenário era composto de campos intermináveis e de uma infinita linha vermelha no horizonte. A distância entre as cidades nesse trecho é enorme. Quase não há sombra e o clima é muito quente. José Xavier, um espanhol de 35 anos, tinha acabado de ultrapassar esse trecho de provação quando o abordei. Estávamos na entrada de Sahagun, cidade com nítidas influências muçulmanas. “Até agora, o Caminho me mostrou o que há de pior e de melhor nas pessoas. De melhor, a solidariedade. O pior? A trapaça. Fui roubado dois dias atrás, levaram todo o meu dinheiro e a minha mochila. Só prossegui porque outros peregrinos me ajudaram.”

7. Cidades-fantasma

Depois da cidade de León, o viajante encontra a paisagem montanhosa da Galícia. É a última etapa do Caminho. São pequenas cidades de pedra – muitas delas fantasmas. Dá vontade de ficar ali para sempre, morando no meio daquela paz. Na Galícia está um dos pontos mais buscados pelos peregrinos: La Cruz de Hierro, uma cruz localizada bem no topo da montanha onde há séculos os viajantes depositam pedras ao seu redor depois de fazerem pedidos. Há também uma pilha de objetos relacionados aos pedidos erguida pelos peregrinos. No meio da tralha, dúzias de fitinhas do Senhor do Bonfim. É que os brasileiros, depois dos espanhóis, são os que mais freqüentam o Caminho de Santiago.

8. A energia que emana de Santiago

Na cidade de Ferreiros, a 100 quilômetros de Santiago, percebi o quanto estava perto do fim da jornada. Isso renovou a energia em minhas pernas. Não se recomenda ao peregrino andar mais de 30 quilômetros por dia – ritmo para completar o Caminho em 35 dias. Naquele dia, cheguei a fazer 20 quilômetros em duas horas e meia. Ao chegar à belíssima cidade de Portomarín, no fim do dia, ainda não sentia cansaço. Ao contrário: à medida que me aproximava de Santiago era tomado por uma alegria indescritível. No dia seguinte, cercado de graciosos bosques de pinheiros e araucárias, era impossível evitar a ansiedade de chegar logo à meta. Mantive a serenidade prestando atenção ao pio de um pássaro ou ao som de um rio correndo sobre as pedras.

9. Quando o fim significa um começo

Enfim, Santiago de Compostela. Uma velha senhora galega, com um lenço na cabeça e roupas negras, cruzou o meu caminho empurrando um carrinho de feno. Talvez ela já estivesse por ali, vestindo as mesmas roupas, com os mesmos dedos grossos de quem lida com a terra, quando o eremita Pelayo, em 813, afirmou ter visto as luzes que conduziram à descoberta dos restos de São Tiago. Observei-a longamente. Como se quisesse beber dela uma sabedoria de séculos. A jornada tinha chegado ao fim. Sentei no meio-fio, com o meu título de peregrino debaixo do braço – basta vencer os últimos 100 quilômetros do Caminho para obtê-lo –, e refiz um pouco da trajetória da minha vida. Como quero que a minha existência se dê, como a tenho conduzido. Quanto tenho de perdoar. Quanto perdão tenho a pedir.

Quanto quero mudar. Quanto quero crescer. Percebi que a jornada, a grande e a verdadeira andança de um peregrino que tenha aprendido alguma coisa trilhando o Caminho, não termina em Santiago. Para mim, na verdade, ela talvez tenha apenas começado ali.

* Ciro Pessoa é jornalista e compositor. Era o nono integrante da banda Os Titãs no início dos anos 80 e é autor de músicas como “Sonífera Ilha” e “Homem Primata”.