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Anomalia climática pode ter tornado Primeira Guerra mais letal

À época, uma corrente inesperada de ventos frios dominou a Europa – o que pode ter contribuído para elevar o número de mortes. É o que sugere um novo estudo

Por Bruno Carbinatto - 29 set 2020, 18h53

O início do século 20 foi marcado por duas grandes tragédias globais: entre 1914 e 1918, a Primeira Guerra Mundial causou mais de 20 milhões de mortes. No último ano do conflito, começou a pandemia de gripe espanhola. Uma das mais letais da história, ela faz com que a Covid-19 pareça fichinha: foram 500 milhões de infectados – um terço da população mundial na época – e pelo menos 50 milhões de mortos.

Agora, cientistas acreditam ter encontrado evidências de que uma anomalia climática nessa época pode ter contribuído para aumentar o total de fatalidades. Tudo por causa de chuvas torrenciais e temperaturas baixíssimas. O estudo que defende essa hipótese foi publicado na revista científica GeoHealth.

Não é novidade que o clima na época da Primeira Guerra Mundial era péssimo, ainda mais para soldados que já viviam em condições muito precárias nos campos de batalha – desorganizados, sujos e sem estrutura. Os relatos históricos revelam uma época de temperaturas congelantes em algumas partes da Europa, combinadas com chuvas fortes que causavam muitos alagamentos, inclusive nas trincheiras e túneis, que se tornaram símbolos dos combates da época.

Mas, até agora, não se entendia muito bem o porquê dessas condições climáticas tão peculiares. Usando amostras de gelo dos Alpes Suíços – que guardam informações sobre a atmosfera dos séculos passados em suas camadas mais profundas –, a equipe descobriu que, entre 1914 e 1919, uma enorme quantidade de cloro e de sódio foi preservada no gelo. Isso indica que ventos marítimos estavam passando pela Europa nessa época, já que carregam sal consigo.

A região da Europa central de fato recebe ventos gelados vindas do Atlântico Norte, próximo da região da Islândia. Mas, em geral, uma outra corrente de ventos mais quentes vinda do sul, na região dos Açores, faz um balanceamento dessas temperaturas e torna o clima mais ameno. Os resultados das amostras, porém, mostram que, ao longo desses seis anos, a entrada de ventos frios do Norte foi anormalmente mais alta, causando um desequilíbrio nas temperaturas.

Os pesquisadores descobriram que essa anomalia acontece, mais ou menos, uma vez por século, sendo que a do século 20 foi especialmente forte e coincidiu justamente com o período da guerra e da pandemia. Comparando os dados de mortes durante todo o conflito com os dados climáticos, o grupo descobriu que havia pico de mortes justamente nas épocas em que a corrente de ar gelada do norte também era mais intensa.

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Muitos relatos históricos bem documentados falam de soldados morrendo afogados, de frio, de pneumonia, infecções ou de outras consequências causadas pelo clima péssimo. Na famosa Batalha do Somme, uma das mais letais da guerra, o campo de batalha virou um grande lamaçal devido a precipitação pesada. Mais tarde, a poeta britânica Mary Borden descreveu o episódio como um “túmulo líquido”.

Além disso, o clima pode também ter influenciado o espalhamento da gripe espanhola em 1918 e 1919. Sabemos que o vírus da gripe, apesar de existir ao longo do ano todo, é mais transmissível em épocas de inverno, devido a tendência de pessoas se aglomerarem mais em ambientes fechados. Na época em que a pandemia atingiu seu pico, a influência dos ventos frios também estava anormalmente alta, segundo os pesquisadores.

“Não estou dizendo que essa foi ‘a’ causa da pandemia, mas certamente foi um fator agravante, que exacerbou uma situação já explosiva”, disse em comunicado Alexander More, cientista climático e historiador do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade Harvard.

“Uma das coisas que aprendemos na pandemia de Covid-19 é que alguns vírus parecem permanecer por períodos mais longos no ar úmido do que no ar seco”, comentou Philip Landrigan, diretor do Programa da Saúde Pública Global do Boston College, que não fez parte da equipe do estudo. “Portanto, faz sentido que, se o ar na Europa estivesse excepcionalmente úmido durante os anos da Primeira Guerra Mundial, a transmissão do vírus poderia ter sido acelerada.”

No entanto, a equipe sugere que as mudanças climáticas podem ter causado o próprio início da pandemia. Eles descobriram que, por conta do período frio, os patos-reais da Europa não migraram para o norte como comumente fazem em temperaturas mais amenas. Essas aves são conhecidas por serem reservatórios de vários vírus, inclusive o vírus da gripe espanhola, o influenza H1N1. Sem migrar, os animais ficaram mais perto de centros urbanos e em ambientes de guerra na Europa ocidental, e daí o vírus pode ter saltado para humanos.

Vale salientar, no entanto, que essa última parte é altamente especulativa – e precisa, portanto, de mais investigação antes de ser tomada como verdade. A origem exata da gripe espanhola ainda é um mistério – sabemos, no entanto, que ela provavelmente não surgiu na Espanha. De qualquer modo, o estudo serve para alertar sobre como o clima pode impactar a saúde pública do planeta.

“Essas reorganizações atmosféricas acontecem e afetam as pessoas”, disse More. “Eles afetam a forma como nos movemos, a quantidade de água disponível, os animais que estão ao nosso redor. Os bichos, por sua vez, trazem suas próprias doenças com eles, e suas migrações dependem do meio ambiente e de como ele muda, ou de como nós o mudamos.”

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