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Aventura nas trevas

Com equipamentos especiais e muita coragem, pesquisadores de vários ramos da ciência desvendam os segredos do mundo fascinante das cavernas

Gisela Heymann

“Isto não é um treinamento.” A frase assustou os trinta espeleólogos, como são designados os estudiosos das cavernas, entregues ao que deveria ser um exercício simulado de salvamento. A finalidade era montar uma equipe especializada em socorro, como as que existem em países da Europa e nos Estados Unidos, mas o treino terminou antes do previsto, dando lugar a uma operação real que poucos estão aptos a executar. Uma pesquisadora deveria fingir ter caído de um lance de 15 metros do chamado Abismo do Juvenal, no município de Iporanga, vale do Ribeira, no sul de São Paulo – a maior caverna do gênero no Brasil, com 252 metros de altura. Na queda, ela simularia uma fratura na clavícula. Uma maca seria usada para o resgate, numa manobra extremamente complicada. A maca teve de ser desmontada para passar por estreitos labirintos, o que fez com que, em vez dos quarenta minutos previstos, só essa primeira etapa demorasse quatro horas. Chegando ao fundo, a surpresa desagradável: a espeleóloga estava em estado de hipotermia, vítima de uma queda brusca de temperatura. Imediatamente, o exercício se transformou num salvamento verdadeiro. “A experiência foi muito marcante. Alguns colegas fizeram coisas impossíveis, como carregar a maca com uma só mão”, conta João Allievi, 38 anos, presidente da Sociedade Brasileira de Espeleologia, que há catorze anos percorre as cavernas do Brasil. O grupo levou cerca de vinte horas para chegar, a salvo, ao topo do abismo. Mesmo quando acidentes não ocorrem, a espeleologia — esta mistura de esporte e pesquisa científica — não é atividade fácil: são necessários equipamentos especiais, geralmente importados, além de ótimo preparo físico, para escalar morros, atravessar rios subterrâneos, descer abismos e caminhar horas a fio sobre um solo cheio de buracos e reentrâncias. Mas para os 1500 espeleólogos militantes do Brasil a aventura sem dúvida vale a pena. “Depois de nos acostumarmos com o escuro e com a falta de horizonte — o reator de carbureto preso ao capacete ilumina no máximo 20 metros à frente —, começamos a perceber um mundo completamente diferente”, conta Allievi. “E, acredite, é até relaxante.”

De fato, atravessada a boca da caverna, que pode ser ou tão pequena, a ponto de dificultar a passagem, ou grande como um prédio de 58 andares (a maior do Brasil, chamada Casa de Pedra, também em Iporanga, mede cerca de 170 metros de altura), a paisagem se transforma, resultando em um cenário ao mesmo tempo assustador e fascinante. Para começar, o verde desaparece, porque, sem a luz solar, não acontece nas plantas o processo de armazenamento de nutrientes conhecido como fotossíntese, sem o qual elas não sobrevivem. Em conseqüência, a fauna também rareia, porque não há comida para todos. “Os animais cavernícolas — aranhas, besouros, mosquitos — não podem ser exigentes”, comenta Eleonora Trajano, zoóloga da Universidade de São Paulo, especializada em bioespeleologia. “Eles têm de aproveitar os detritos trazidos pelos rios, os bichos que acabaram caindo ou se perdendo no interior das cavernas, ou ainda o guano (dejetos) dos morcegos, que, por sua vez, se alimentam do lado de fora.”

Como se sabe, a grande atração das grutas (cavernas horizontais) e abismos (cavernas verticais) são as estranhas esculturas, chamadas espeleotemas, que crescem lenta e ininterruptamente durante milhares de anos, presas ao chão, às paredes ou mesmo penduradas no teto. As mais conhecidas são espécies de cones formados pelo gotejamento de água com carbonato de cálcio (mineral principal das rochas calcárias). Parte dessa mistura fica presa ao teto, formando as estalactites, enquanto outra pinga no chão, acumulando-se em estalagmites. Dependendo do clima da região, uma formação dessas leva em média meio século para crescer 1 centímetro.

“O clima mais favorável à formação das ornamentações e das próprias cavernas é o tropical úmido”, informa o geólogo Ivo Karmann, da USP. “O calor e a umidade aumentam a vegetação, que libera no solo dióxido de carbono. A substância, por sua vez, torna ácida a água da chuva, e a acidez corrói facilmente as rochas.” Naturalmente, a dissolução não é algo que aconteça do dia para a noite; muito ao contrário. Uma caverna antiga, totalmente preenchida por espeleotemas, pode ter 500 mil anos. Essa é a idade das mais antigas cavernas brasileiras, situadas no vale do Ribeira, nos Estados de São Paulo e Paraná.

Ao longo dessa eternidade, a água da chuva foi-se infiltrando no solo, descendo por ranhuras e fendas até encontrar o lençol freático, local já preenchido por água. Quando isso ocorre, os dois líquidos se misturam e começam a abrir condutos subterrâneos. Com os movimentos de acomodação de regiões da crosta terrestre, a água procura caminhos mais fáceis para correr. O túnel original, então, é preenchido por ar. A sustentação daqueles condutos, no entanto, é muito precária e eles acabam desmoronando. Formam assim imensos salões até encontrar uma abertura natural para o meio externo. Blocos de pedras, desníveis e fendas se alternam no caminho, além de rios que aproveitam os condutos subterrâneos para escoar.

Para os estudiosos das cavernas, quanto mais obstáculos, melhor. Depois de alguns passos, pode-se encontrar uma galeria até então inexplorada. “No começo, a gente nem percebe o que está em volta, porque os olhos estão fixos no chão”, lembra Allievi. “Só depois de algum tempo começamos a perceber todos os detalhes.” Além das estalactites e estalagmites, outras ornamentações enriquecem os salões. Às vezes, a gota que se infiltra é tão pequena que nem chega a cair. Forma assim frágeis esculturas, que podem crescer para os lados, dar voltas e até subir, guiadas pelo próprio processo de cristalização.

As helictites, como elas são chamadas, têm desenhos tão estranhos quanto delicados. Podem sugerir uma espiral, um arranjo de flores ou até um malabarista, como a encontrada na caverna de Santana, em Iporanga. Outras formas, ainda mais frágeis e quebradiças, completam a estranha paisagem: cabelos de anjo, agulhas, flores de calcita e as raríssimas pérolas, que se distinguem por crescer soltas dentro de poças de água. Para descobrir novos desenhos, salões, outras entradas de uma caverna já conhecida, os pesquisadores se preparam durante dias. A ajuda dos moradores da região é fundamental quando se quer achar grutas e abismos: eles sabem onde estão os sumidouros (o ponto em que um rio desaparece para correr nas galerias subterrâneas) e as ressurgências (onde o rio volta à superfície). Uns e outros são indícios da existência de cavernas nas imediações.

Munidos de cordas, travas, capacetes e até coletes salva-vidas, os espeleólogos, sempre em grupo, começam a pesquisa. Os trechos mais perigosos são, sem dúvida, os rios, lagos e cachoeiras: afinal, no escuro é difícil, quase impossível, determinar a profundidade ou mesmo o tamanho das massas de água. Além disso, a correnteza pode ser forte a ponto de arrastar o mergulhador para dentro de um conduto ou para baixo de uma pedra. Em abril deste ano, um grupo de espeleólogos se aventurou pela caverna de Santana. O objetivo era chegar ao salão Taqueupa, famoso pela beleza de seus espeleotemas.

A viagem de ida e volta requer, no mínimo, dois dias de andanças dentro da caverna — dos quais dezesseis horas galgando aclives, descendo abismos, atravessando cachoeiras. Depois de uma noite, o grupo percebeu que o nível do rio tinha subido pelo menos 3 metros por causa das chuvas, atingindo o teto do conduto e, portanto, impedindo a passagem para a outra margem. O nível só voltaria ao normal dois dias depois. Precavidos, os exploradores tinham bastante comida, carbureto e pilhas para lanternas, reservas indispensáveis em tais situações. Longas estacas nas cavernas não são muito raras. Já na sua primeira experiência em grutas, em 1975, a bioespeleóloga Eleonora Trajano ficou nada menos de quinze dias na chamada Operação Tatus I, na qual onze pesquisadores do Centro Excursionista Universitário da USP permaneceram na caverna de Santana. virtualmente sem comunicação com a equipe externa. Apenas avisavam por um intercomunicador o horário em que acordavam ou iam dormir. Sem saber quando era dia ou quando era noite, os pesquisadores perderam a noção do tempo. Os ciclos de vigília chegaram a durar 36 horas e os de sono, dezoito. Operação semelhante foi realizada em 1987, dessa vez por grupos de espeleólogos mineiros. Durante 21 dias, eles pesquisaram exaustivamente a gruta do Padre, no município de Santana, sudoeste da Bahia. Eleonora estuda, durante suas excursões, a evolução de uma espécie de bagres sem olhos. Esses peixes, isolados do mundo exterior há pelo menos 10 mil anos, mudaram em virtude da escuridão. Ficaram albinos, pois a pigmentação tornou-se inútil, já que ali não há luz da qual o peixe precise ser protegido. A ausência de luz também acabou com a necessidade da visão. Assim se modificaram igualmente algumas espécies de invertebrados, como besouros, centopéias e crustáceos. Em compensação, tendem a desenvolver mais o tato e o olfato. Em muitas partes do mundo, as cavernas talvez sejam o melhor lugar para encontrar, em perfeito estado de conservação, vestígios humanos de tempos antigos. Na pré – história, há dezenas de milhares de anos, o homem usava as bocas de cavernas como morada, abrigo temporário, acampamento de caça ou local de cerimônias. As provas dessa ocupação estão muitas vezes intactas, protegidas do sol, da chuva e sob temperatura constante. “Chegamos a encontrar fogueiras inteiras, pontas de lanças, cerâmicas, restos de alimentos e até cemitérios de antigas tribos indígenas”, relata a arqueóloga Erika Marion Robrahn, da USP. Os ossos calcinados com marcas de cortes, por exemplo, sugerem animais descarnados nas refeições. Não muito longe, um círculo de lascas indica que alguém sentou-se ali para esculpir objetos pontiagudos. Nas paredes estão as célebres pinturas rupestres. As mais antigas têm formas vagamente geométricas. Depois, surgem os desenhos de animais. Finalmente, o homem aparece representado em todas as suas atividades: caça, pesca, ritos primitivos, partos, etc. As escavações em busca de sinais dos grupos que em épocas distintas ocuparam tais grutas atraem um número crescente de pesquisadores. Eles sabem que no silêncio das cavernas, onde o tempo parece correr mais lentamente, muitos segredos ainda esperam ser revelados.

 

 

 

Um homem das cavernas

Quando o calouro da Faculdade de Direito João Allievi foi procurado em 1972 pelo Centro Excursionista Universitário da USP para dar um curso de mergulho, sua especialidade até então, não podia imaginar que a partir daí sua vida iria tomar outro rumo. Pois, numa excursão, teve a oportunidade de conhecer as esculturas de pedra da caverna do Morro Preto, em Iporanga, no sul de São Paulo. Foi um deslumbramento — e ele, então, passou a ocupar todo o tempo livre com explorações no vale do Ribeira e em São Domingos, no centro de Goiás. Depois de se formar, teve outro motivo para ir com freqüência a Iporanga: defender, como advogado, as sessenta famílias que viviam há mais de um século no Bairro da Serra, na zona rural do município, ameaçadas de expulsão. “Depois de seis anos, dei a sorte de ganhar o processo”, conta Allievi com modéstia. Durante esse tempo, nas inúmeras viagens à região, aproveitou para fotografar todas as cavernas, rios e cachoeiras que encontrava. Acabou por formar um vasto arquivo de imagens e por escrever um livro sobre cavernas brasileiras em parceria com o arquiteto e também espeleólogo Clayton Ferreira Lino. Há cinco anos, Allievi abandonou a advocacia para se dedicar a uma empresa especializada em turismo ecológico e à Sociedade Brasileira de Espeleologia. Ele resume sua experiência: “Não há nada melhor do que integrar-se à natureza”.

 

 

 

Para saber mais:

Mergulho na água

(SUPER número 10, ano 4)

 

Artes subterrâneas da água

(SUPER número 12, ano 5)

 

Vozes do inferno

(SUPER número 1, ano 7)