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Como a ambição de um presidente moldou a América do Sul

O paraguaio Solano López afundou seu país, mas suas ações ajudaram no processo que levou à Proclamação da República no Brasil

A América do Sul vivia um momento delicado nos idos de 1860. O Uruguai, pequeno e dividido entre dois partidos, Blanco e Colorado, sofria uma influência exagerada dos vizinhos enormes. Dom Pedro II acompanhava de perto essa ex-província, que tinha uma significativa população brasileira.

O Paraguai era governado por Francisco Solano López, que tinha planos ambiciosos para o país. A Argentina ainda estava se formando como nação – duas forças políticas lutavam pela hegemonia do território nacional: a Confederação Argentina, liderada por Justo José de Urquiza, e o Estado de Buenos Aires, de Bartolomé Mitre.

Em 1862, Mitre tornou-se o primeiro presidente da Argentina unificada. Mas ainda era um governo frágil. Para impor seu poder, ele dificultou a navegação na Bacia do Prata, o que atingia diretamente o Paraguai e, especialmente, o nordeste do país, curral político dos federalistas do rival Urquiza.

Em retaliação, paraguaios e federalistas se uniram para levar suas exportações para o Uruguai, evitando o porto de Buenos Aires. O Uruguai era governado pelos blancos, então isso significou uma aliança entre federalistas argentinos, paraguaios e blancos uruguaios.

Para fazer oposição, os colorados uruguaios acabaram ganhando apoio de Mitre. Eles também tinham a simpatia de Pedro II, por questões econômicas, já que os nacionalistas blancos criaram medidas protecionistas no comércio de charque. Por causa da mão de obra escrava, proibida no Uruguai, mas não no Brasil, o gado uruguaio competia em desigualdade com o gaúcho. Logo, o produto brasileiro era irremediavelmente mais barato.

O tom da briga entre os partidos aumentou em direção a uma guerra civil no Uruguai e, rapidamente, a uma guerra continental. Em 1864, o Brasil, com o aval de Buenos Aires, invadiu o país, em apoio aos colorados. Solano López, para defender os parceiros blancos, apreendeu um navio brasileiro no Paraguai.

Em seguida, invadiu o atual Mato Grosso do Sul. De nada adiantou, e no começo de 1865 os colorados já haviam tomado o poder em Montevidéu. López, então, invadiu a Argentina com o intuito de chegar ao Uruguai e ajudar os blancos a enfrentar colorados e brasileiros.

López tinha um currículo interessante. Filho de ditador, fez uma longa turnê na Europa para se sofisticar, voltou com uma mulher polêmica e igualmente megalomaníaca, tornou-se o novo ditador e criou o maior exército do continente.

Ou seja, tinha muitas armas e um país inteiro debaixo do braço, tudo o que o resto da América do Sul não possuía. Logo, podia se impor como um mediador da crise dos vizinhos. Em vez disso, conseguiu um feito diplomático: unir os rivais Brasil, Argentina e Uruguai contra ele próprio.

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A guerra passou a ser do interesse de todos os envolvidos. Mitre queria solidificar a Argentina e acabar com o apoio que López e os blancos davam aos federalistas de Urquiza. Os blancos, por sua vez, queriam um Uruguai fortalecido com o apoio militar paraguaio. O Brasil, que antes não desejava o confronto, achou que ele definiria as fronteiras ainda nebulosas entre ele e os vizinhos. Por fim, o Paraguai almejava ser uma potência regional, com acesso ao mar. Todos acreditavam que o conflito acabaria rápido. Erraram feio.

Apesar de pequeno e pobre, o Paraguai tinha um contingente de 64 mil soldados, além de 28 mil reservistas. Já o Exército brasileiro era uma brincadeira desordenada de 18 mil homens. À medida que a guerra avançou, porém, o Brasil tomou corpo. Escravos, nobres, brancos, negros, mulatos, índios, pobres e analfabetos, mestiços, fazendeiros e oficiais de carreira lutaram lado a lado.

Sertanejos do Nordeste e ribeirinhos da Amazônia estiveram juntos pela primeira vez com paulistas e gaúchos. A identidade nacional aflorou, e pelo menos 135 mil homens foram mobilizados. Muitos foram obrigados a se apresentar, mas ainda assim um terço deles era de voluntários, entre eles o próprio imperador, “Voluntário Número Um”, que montou acampamento na frente de batalha.

O Paraguai começou com tudo. As forças de López penetraram no Brasil, mas foram expulsas pelos aliados, que viraram o jogo e cruzaram o Rio Paraná, até que empacaram na Fortaleza de Humaitá. Localizada em uma curva estreita do Rio Paraguai, em um terreno elevado, o forte exigiu meses de luta para ser tomado. Os 50 quilômetros seguintes levaram três anos de guerra e 100 mil vidas. Depois dessa, não dava mais para o Paraguai.

Com a economia canalizada para manter as Forças Armadas, o país mergulhou no caos. Não havia gente suficiente para colher a minguada produção alimentícia, e o que sobrou o exército tomou. Todo o algodão do Paraguai era destinado à confecção de uniformes de soldados. Com o bloqueio estrangeiro, em 1867 López pediu doação de roupas à população. Era tudo no jeitinho – pintores paraguaios retrataram os combatentes descalços, com as calças levantadas, provavelmente uma adaptação aos terrenos cheios de arbustos das batalhas.

López, enfraquecido e cada vez mais desesperado, matava homens que não cumpriam obrigações. A nota de corte para ser convocado caiu drasticamente. Aleijados, velhos, qualquer um servia para o exército. Paranoico, o ditador prendeu e executou quem ele acreditava que estava tramando para derrubá-lo. Matou o próprio irmão. Açoitou a própria mãe.

Em 1868, os aliados tomaram Assunção. López estava foragido na selva, com uma comitiva que incluía seu amor, Eliza Lynch. A controversa ex-cortesã de Paris chocou a sociedade paraguaia com seus costumes e transformou a -capital em uma festa incessante no verão de 1864.

Ela, que anos antes se preparava, pelo menos na intenção megalomaníaca de López, para se tornar primeira-dama do Cone Sul, agora estrelava, foragida, uma bizarra caravana na floresta, ao lado de seu querido ditador, garrafas de vinho e soldados mirins (isso porque, apesar de tudo, López não jogou a toalha e estava formando um novo exército, que tinha até meninos de 8 anos com barba falsa).

Para o marquês de Caxias, comandante-em-chefe da Tríplice Aliança, a guerra já havia terminado. Velho e doente, Caxias quis dar fim ao conflito. Afinal, a bandeirinha do Império do Brasil tremulava em Assunção. Mas Pedro II não estava satisfeito, já que o inimigo estava à solta.

“Eu não negocio com López! É uma questão de honra, e eu não transijo!”, escreveu. Caxias, herói de guerra e futuro duque, foi embora para casa, sem dar satisfações ao governo. Ele foi substituído pelo jovem conde d’Eu, marido da princesa Isabel. Uma de suas primeiras medidas no Paraguai foi abolir a escravidão, ato que mostrou que a família imperial já pensava em acabar com o regime escravo no Brasil.

Porém, manter a guerra foi um golpe nos cofres brasileiros. O governo gastou 614 mil contos de réis, uma dinheirama que equivalia a 11 vezes o orçamento para o ano de 1864. O déficit, que já era grande, ficou muito maior. O império o carregaria até sua queda.

O Brasil empreendeu uma perseguição sanguinária a López. O ditador usou mulheres, crianças e idosos como escudos, trucidados sem piedade pelo exército brasileiro. Sem saber a hora de parar, o conde d’Eu se tornou um criminoso de guerra, que degolava prisioneiros desarmados e executava crianças a sangue-frio.

Em 1870, em Cerro Corá, ao norte de Assunção, mais de um ano após a ocupação da capital, López foi morto ao tentar cruzar um rio para fugir. Só então o conflito terminou. O corpo do ditador foi retalhado e Madame Lynch, como ela era conhecida, foi forçada a cavar a sepultura do amante.

A Guerra do Paraguai matou cerca de 480 mil pessoas entre 1864 e 1870, em um universo de até 1,3 milhão de habitantes, o que faz do país o Estado moderno com a maior perda de população causada por um conflito. O Paraguai foi devastado. Quase um quarto do território foi perdido para os inimigos. A poligamia informal se tornou comum. Com tantas viúvas, órfãs e solteiras, o país ficou conhecido como a Terra das Mulheres.

Desde então, a política no Paraguai é um pântano. Somente em 1916, após seis golpes de Estado, um presidente conseguiu cumprir o mandato até o fim. Houve oito revoluções fracassadas. Eleições democráticas, só em 1993. Em 1999, o presidente Raúl Cubas Grau foi acusado de envolvimento no assassinato de seu vice e renunciou. Em 2012, um processo de impeachment que durou menos de 48 horas destituiu Fernando Lugo do cargo.

Se a guerra moldou toda a história do Paraguai, para o Brasil não foi diferente. A vitória transformou o exército brasileiro em algo que ele nunca tinha sido: uma força política, capaz de bater de frente com a aristocracia do império, caso fosse necessário. O que não demorou a acontecer.

Em 1884, o tenente-coronel Sena Madureira, veterano da guerra e comandante da Escola de Tiro Campo Grande, no Rio de Janeiro, recebeu com festa o jangadeiro cearense Francisco José do Nascimento, um dos líderes abolicionistas do país. O governo considerou um ato de indisciplina, já que a escravidão ainda era lei e cabia ao exército ajudar na captura de escravos que fugiam. Sena Madureira acabou demitido e trocou farpas na imprensa com o ministro da guerra, o civil Franco de Sá.

A atitude de Sena Madureira foi questionada, mas ele foi defendido por outro veterano do conflito no Paraguai, onde teve uma série de promoções por atos de bravura. O marechal Deodoro da Fonseca argumentou que apenas a discussão pública entre militares era proibida pela legislação. Como o tenente-coronel fora atacado por uma autoridade civil, ele poderia responder à altura.

Porém, antes que o ofício com a defesa de Deodoro, que então era presidente em exercício da província do Rio Grande do Sul, chegasse ao Rio de Janeiro, o novo ministro da guerra, Alfredo Chaves, puniu Sena Madureira. Isso uniu o exército em solidariedade, e a chamada Questão Militar ficava mais forte. Na época, os militares reclamavam do soldo, congelado por anos, da redução dos efetivos depois da guerra e da falta de modernização de equipamentos, entre outros assuntos. Era demais para uma classe que se via como a salvadora do País.

Em 1889, os republicanos convenceram Deodoro de que o então presidente do Conselho de Ministros de Pedro II, o Visconde de Ouro Preto, havia expedido uma ordem de prisão contra ele. Não era verdade, mas bastou para que Deodoro juntasse um pequeno batalhão e marchasse pelo Rio de Janeiro exigindo a deposição de todo o ministério. Deodoro, então, soube que o novo ministro-chefe seria Gaspar Silveira Martins, seu desafeto – os dois tinham disputado o amor da mesma mulher na juventude, e viraram rivais para o resto da vida. “Aí já é demais”, Deodoro talvez tenha pensado.

O fato é que isso levou Deodoro, que até então não via o Brasil sem a monarquia, a derrubar Pedro II e instituir um governo provisório. Estava proclamada a República. Graças a uma rivalidade romântica. E, principalmente, graças à Guerra do Paraguai. Dois anos depois, a República se consolidaria sob o punho de ferro do sucessor de Deodoro: o marechal Floriano Peixoto, outro que ganhou destaque no exército quando combateu as forças de Solano López.

A história do Brasil República começou ali, e ainda hoje há ecos da maior guerra da América Latina: em 2014, 150 anos após o início do conflito, o Paraguai pediu a devolução de um importante canhão. Mas ele permanece no Museu Histórico Nacional, no Rio.

Este conteúdo foi publicado originalmente no livro 3 mil anos de guerra, do jornalista e autor do blog Conta Outra, Felipe Van Deursen.