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E se… o Brasil inteiro tivesse sido colônia da Holanda?

Teríamos uma realidade mais parecida com a do Suriname e da África do Sul do que com a dos belos canais de Amsterdã. Entenda por quê.

Por Fábio Marton Atualizado em 5 jun 2020, 16h38 - Publicado em 29 Maio 2020, 16h08

Saída há alguns meses da extenuante quarentena, Pauwelsburg está em polvorosa: é Natal. Apesar da recomendação dos médicos de continuar a evitar aglomerações, nada segura a procissão. Sinterklaas vai sobre seu trenó, em suas roupas vermelhas de bispo e barba branca, pela Pauwelsburg Bowerk, a mais importante avenida da cidade.

É acompanhado por seu ajudante, Zwarte Piet, um homem branco em blackface. Praticamente só há gente branca na procissão. Ao passar pelo Monumento da Independência, uma escultura modernista gravada com o ano de 1985, é interrompida por um protesto, repleto de indianos, indonésios e negros. Eles gritam “WEG MET APARTHEID!”.

Apesar da epidemia, a cidade teve um Natal como todos os anos.

Sinterklaas é o termo em holandês para Papai Noel. De fato, a imagem básica do Papai Noel e seu nome em inglês, “Santa Claus”, vêm da Holanda. Zwarte Piet (“Pedro Negro”) é o ajudante de Papai Noel holandês. Weg met, como usado nos protestos aqui, significa “abaixo”. E apartheid é… apartheid.

A procissão de Papai Noel com Pedro Negro acontece na Holanda do mundo real e causa protestos da comunidade negra no país, que tem sua origem principalmente nas ilhas do Caribe. Mas, neste caso de um Brasil que teve a Holanda no lugar de Portugal, o contexto seria um país à beira do colapso social.

A primeira coisa quase certa sobre uma colonização holandesa é que ela não daria à luz um país desenvolvido.

A primeira coisa quase certa sobre uma colonização holandesa é que ela não daria à luz um país desenvolvido. Lembre-se: há uma diferença entre colônia de exploração e colônia de povoamento. Na primeira, os colonizadores não criam raízes e tentam tirar o máximo proveito possível. Na segunda, eles chegam para ficar, criando uma extensão de sua terra natal.

A divisão é certeira, e aconteceu independente da cultura e da religião do colonizador. O Reino Unido fundou os EUA e a Austrália, mas também Jamaica e Belize. A França fundou o Québec, que viraria parte do britânico Canadá, e também o Haiti. Em suas incursões coloniais nos trópicos, o propósito dos impérios europeus era obter materiais exóticos em uma terra vista como hostil.

E hostil era: não podiam plantar trigo, odiavam o clima e eram expostos a doenças tropicais letais, como a malária. Ainda por cima, eles estavam em minoria numérica diante dos nativos e escravos. Já em locais de clima temperado, similar ao do Velho Mundo, os europeus podiam simplesmente reproduzir seu modo de vida.

Com a Holanda, fundadora de Suriname e Aruba, não foi diferente. A experiência vista como positiva no nordeste do Brasil aconteceu justamente porque um holandês, Maurício de Nassau, decidiu tratar essa possessão tropical holandesa mais ou menos como colônia de povoamento, e não colônia de exploração – um exceção rara.

A experiência vista como positiva no nordeste do Brasil aconteceu justamente porque um holandês, Maurício de Nassau, decidiu tratar essa possessão tropical como colônia de povoamento, e não colônia de exploração – um exceção rara.

Nos seus anos governando o litoral pernambucano, entre 1637 e 1643, Johan Maurits van Nassau-Siegen desenvolveu a arquitetura, infraestrutura e até ciência nas cidades de Olinda e Recife, chamando uma missão de pintores naturalistas e construindo um observatório astronômico.  O que fica fora da história por quem idealiza os holandeses: a colônia brasileira não estava sob o domínio do governo holandês – na época, ele era subordinado à Espanha. O Brasil holandês era um empreendimento da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

Isto é: Nassau estava mais para “CEO” que governador do Brasil holandês. Sua atuação incomum foi por suas pretensões políticas, de ser visto como um grande administrador.

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Não deu tão certo. Em 1643, ele acabou removido da posição pelos acionistas da Companhia das Índias – “sua gastança desnecessária”, estaria atrapalhando os lucros da empresa. Com a saída de Nassau, os holandeses voltaram a tratar o lugar como colônia de exploração. Por conta disso, perderam o apoio local. Dois anos depois, começou a Insurreição Pernambucana, que acabaria por levar à retomada do poder pelos portugueses em Recife e Olinda.

Caso o Brasil holandês tivesse continuado, e se expandido por todo o nosso território atual, talvez tivéssemos virado um Suriname gigante. O menor país da América do Sul, e único a ter holandês como língua oficial, fica encravado entre as guianas, fazendo fronteira com o Amapá e o Pará, e tem apenas 575 mil habitantes. A história do Suriname parece com a do  Brasil em parte: foi um produtor de açúcar vivendo de mão de obra africana.

Mas a semelhança para por aí: o Suriname aboliu a escravidão em 1863 e, depois disso, importou uma grande quantidade de trabalhadores não da Europa, mas da Indonésia e do Sri Lanka (a enorme ilha ao sul da Índia), onde havia colônias holandesas – a ponto de o hinduísmo ser praticado hoje por 22,3% dos surinameses.

Nossa  independência chegaria, mas talvez só no século 20 – como aconteceu no Suriname, a colônia holandesa na América do Sul.

Tem outra diferença: a independência só veio em 1975. O Suriname não era parte da América Espanhola, que foi libertada aproveitando a fraqueza da Espanha após as guerras napoleônicas. Tampouco teria a situação única do Brasil, que viu o Rio de Janeiro se tornar a capital de Portugal com a chegada da corte, em 1808, culminando na paradoxal independência justamente pelo herdeiro do trono português em 1822. Ou seja: nossa  independência chegaria, mas talvez só no século 20.

Há uma diferença também em miscigenação. Os portugueses e espanhóis que não tinham como voltar para a Europa acabaram por se casar com as nativas. No Suriname, os holandeses se misturaram muito menos: os mestiços no país hoje são só 15% da população. O Suriname manteve um grupo branco minoritário e dominante até sua independência, quando a maioria preferiu fugir para a Holanda.

Na África do Sul, também fundada por holandeses, a história foi diferente. Ainda que a população mestiça sul africana seja, hoje, ainda menor que a do Suriname (8%), lá eles fizeram colônias de povoamento.

O clima é mais frio do que um brasileiro típico imagina: o país fica quase inteiro ao sul do Trópico de Capricórnio, com as partes mais povoadas em latitudes mais próximas às do Uruguai e da Argentina, inclusive passando por neve bem mais que o Brasil. Joanesburgo, a maior cidade do país, é mais fria que qualquer capital brasileira, e a Cidade do Cabo, uma de suas três capitais, tem um clima semelhante a Curitiba, mas ao nível do mar – tem até praia com pinguim nos arredores da cidade.

Assim, no sul do Brasil, talvez a experiência fosse mais parecida com a da África do Sul. Os holandeses perderam o domínio da colônia da Cidade do Cabo durante as guerras napoleônicas, em 1795. Sua história é de conflito com os nativos bantu e com os britânicos, que tomaram o poder da colônia original em 1806.

Eles fundaram diversas repúblicas pelo interior do país, que terminariam conquistadas pelos britânicos até a derrota final dos holandeses em 1902, e a formação oficial da África do Sul em 1910.

Mas os descendentes dos holandeses seguiram na elite econômica, e implementaram o Apartheid, a brutal política de segregação racial, em 1948. Apartheid é uma palavra em africâner, um idioma local nascido do holandês antigo, que significa “separação”.

Um Brasil inteiramente colonizado pela Holanda, então, teria uma distância social ainda maior entre Sul e Norte, e entre os brancos e a maioria da população. Ou seja: o pior do Brasil estaria aqui, mas ao quadrado.

 

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