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De Judas a Bin Laden

A história do terrorismo começou com um grupo que tinha um apóstolo de Cristo entre seus membros. E não deve terminar com o ataque aos Estados Unidos

Denis Russo Burgierman

A Palestina está ocupada por uma nação poderosa. Em meio à população oprimida surge um grupo de terroristas que começa a empreender atentados contra os invasores, exigindo que eles deixem a cidade sagrada de Jerusalém. Não, não estamos falando do terrorismo muçulmano nos territórios ocupados por Israel. Essa história é muito mais antiga que o Islamismo – data do ano 6, quando Jesus ainda era menino. Os judeus não são os invasores, mas os oprimidos. É deles que parte o terrorismo.

O terrorismo é tão antigo quanto o homem – desde sempre há pessoas usando o medo, a ameaça, a intimidação para alcançar seus objetivos. Mas coube aos Sicarii, um grupo radical de militantes judeus, a discutível honra de ser o primeiro grupo terrorista organizado da história.

Para protestar contra a ocupação do Império Romano – uma espécie de Estados Unidos da época –, os Sicarii matavam romanos e judeus colaboracionistas nas ruas, de forma a criar pânico. Os assassinatos eram cometidos a punhaladas (daí o nome Sicarii, ou “homens do punhal”, em grego. O sobrenome do apóstolo Judas, Iscariote, é interpretado por alguns estudiosos como uma corruptela de Sicarii e um indício de que Judas pertencia ao grupo).

Em 66, os Sicarii tomaram parte em um violento levante contra os romanos, que durou quatro anos – algo como a Intifada dos muçulmanos de hoje. Durante a guerra, a sagrada Jerusalém foi arruinada e o principal templo dos judeus, arrasado – até hoje se faz um jejum anual em memória dessa tragédia. Em 73, os últimos Sicarii, acuados, cometeram suicídio coletivo. A ocupação romana da Palestina duraria mais 600 anos.

Começou assim, com uma derrota, a sangrenta história do terrorismo organizado. Não é à toa que ela se originou no Oriente Médio. Como qualquer um que já jogou uma partida de War sabe, a região fica bem na confluência de três continentes, lugar propício para o encontro entre civilizações incapazes de se comunicar. É assim desde a aurora da humanidade (tudo indica que os primeiros confrontos entre os Homo sapiens vindos da África e os neandertais saídos da Europa tenham se dado lá).

O segundo ato da história do terrorismo foi encenado 11 séculos depois da derrota dos Sicarii, também no Oriente Médio – mais a nordeste, no Irã. O protagonista era Hassan II, grão-mestre dos Nizarins, um grupo dissidente islâmico que entraria para a história com outro nome: Ordem dos Assassinos. A palavra assassino vem de hashishiyun – “haxixe” em persa –, droga que os Nizarins supostamente inalavam antes de saírem às ruas para matar sultões, mulás, vizires, ulemás e xeques (conheça o significado desses nomes na matéria de abertura de “Superintrigante.que ousassem se opor à seita.

A ordem era minoritária entre os muçulmanos, contra os quais ela declarou guerra. Mesmo assim, e apesar de colecionar inimigos poderosos, os Nizarins duraram 100 anos. A única explicação para a longevidade é a eficiência de suas táticas terroristas. Nenhum governante, por maior que fosse seu exército, queria irritar Hassan II, com medo de se tornar a próxima vítima dos punhais de seus 70 000 assassinos.

A palavra “terrorismo” só veio surgir bem depois, para designar o período mais sangüinolento da Revolução Francesa – entre 1793 e 1794, sob o comando de Robespierre –, quando 17 000 cabeças rolaram das guilhotinas, sem julgamento público ou advogado de defesa. “Ao contrário do terrorismo praticado pelos Sicarii e pelos Nizarins, o terror revolucionário francês se exercia de cima para baixo”, diz Gayle Olson-Raymer, especialista em história do terrorismo da Universidade Humboldt, na Califórnia. O objetivo passou a ser espalhar o medo para evitar a oposição, não para intimidar um poder maior.

No século seguinte, o avanço dos explosivos e das armas de fogo aumentou o potencial destrutivo dos atentados e diversos grupos perceberam o poder persuasivo do terror contra governos opressores. A maior vítima da nova tendência foi o governo czarista da Rússia. Inspirados em teóricos do terror como Mikhail Bakunin, grupos anarquistas começaram a mirar dirigentes para “desorganizar o Estado”. Em 1881, o czar Alexandre II voou pelos ares. Em 1918, já sob o governo comunista (outro regime entusiasta do terrorismo de Estado), foi a vez de Nicolau II ser assassinado, com toda sua família.

O começo do século XX registrou o crescimento do terrorismo nacionalista, que se espalhou pela Europa. Foi também nessa época que o mundo começou a perceber o impacto que um único atentado podia ter na história. Veja o caso de Gavrilo Princip, um sérvio de 19 anos. Em 1914, com apenas dois disparos de pistola – um no pescoço do arquiduque Francisco Ferdinando, filho do imperador austro-húngaro Francisco José, e outro no estômago de sua esposa Sofia –, o garoto, membro do grupo nacionalista Jovem Bósnia, deu início a um conflito que envolveu dezenas de países, despedaçou dois grandes impérios e deixou 8,5 milhões de mortos: a Primeira Guerra Mundial.

Daí para a frente, o terrorismo tomou outros rumos. Em vez de tentar acertar chefes de Estado, numa afronta direta ao governo, os grupos passaram a escolher alvos de grande visibilidade, geralmente civis, com o objetivo de provocar repercussão mundial e divulgar a causa. Foi assim em 1972, quando terroristas palestinos seqüestraram e assassinaram boa parte da delegação israelense nas Olimpíadas de Munique. O atentado chocou o planeta – num grau só comparável ao que, no mês passado, reduziu o World Trade Center, em Nova York, a entulho.

Ainda na década de 70 surgiu outra novidade macabra: os atentados suicidas. Com bombas instaladas no próprio corpo ou pilotando um carro (ou avião) explosivo, os militantes tornaram-se muito mais letais e ficou fácil planejar um ato – para começar, a fuga tornou-se desnecessária.

Essa tendência culminou, no dia 11 de setembro, com a enorme destruição imposta aos Estados Unidos. No mesmo dia, o presidente americano George W. Bush declarou em tom belicoso que acabaria com o terrorismo. Que ele tenha em mente que muita gente já tentou fazer o mesmo, igualmente por meio da violência – o Império Romano, o clero muçulmano e o czar da Rússia, para citar alguns. Ninguém teve sucesso.

Século do terror

Os principais atentados dos últimos 100 anos

1901

O anarquista Leon Czolgosz mata a tiros o popular presidente americano William McKinley. A onda de atentados anarquistas que começara na Rússia chega à América

1914

Ao lado, você vê os corpos do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua esposa Sofia. O crime, cometido por um nacionalista sérvio, deu início à Primeira Guerra Mundial

1930

Ocorre o primeiro seqüestro de avião, no Peru. A partir dos anos 50, à medida que voar ficou mais comum, essa nova modalidade de terrorismo espalhou pânico pelo mundo

1946

Extremistas judeus detonam duas minas no Hotel King David, em Jerusalém. O atentado matou dezenas de civis e apressou a retirada das tropas britânicas e a criação do Estado de Israel

1972

O grupo palestino Setembro Negro invade a vila olímpica de Munique, seqüestra a delegação israelense e mata nove atletas

1995

O extremista americano Timothy McVeigh explode um prédio do governo em Oklahoma, mata 168 e assusta os americanos, ao mostrar que o terrorismo pode vir de dentro

2001

No pior atentado da história, dois dos maiores prédios do mundo são derrubados, o centro militar americano é maculado e cerca de 6 000 pessoas morrem