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De que cor, afinal, era o cavalo branco de Napoleão?

A história da arte revela a resposta definitiva de uma das mais famosas piadinhas do imaginário popular.

Não é aquela famosa (e velha) pegadinha. A pergunta é séria– e a resposta é óbvia: o cavalo era de várias cores. Claro que Napoleão Bonaparte, em toda sua carreira militar (desde a época que era amiguinho dos jacobinos até sua derrota em Waterloo), usou diversos cavalos – historiadores falam em mais de 50. Um dos mais conhecidos é o famoso Marengo, que ganhou, assim como seu dono, biografias e epítetos épicos – “o poderoso corcel”, “o garanhão tordilho”. Tudo isso além de ter seu esqueleto remontado e exposto no National Army Museum, em Londres.

Mas o curioso vem agora: essa piadinha não surgiu do nada. E ela tem relação com uma das imagens mais icônicas de Napoleão – a obra Napoleão cruzando os Alpes, de Jacques Louis David.

Napoleão surge com sua capa esvoaçante e um dedo para cima, montado em seu cavalo… Branco? Marrom?

Nós da SUPER ficamos na dúvida. Uma pessoa insistia, de memória, que o cavalo era branco. Outra, que era castanho. Uma busca rápida no Google deixou as coisas ainda mais confusas: uma foto do quadro mostrava o cavalo com pêlo claro. Outra, com pêlo escuro.

A verdade é que ambas estavam certas. E erradas. Nessa pintura, Napoleão monta um corcel branco. E castanho. Ele veste, ainda, duas roupas completamente diferentes.

Conheça o Curioso Caso dos Cinco Napoleões

Terceira versão da obra (1802)

Terceira versão da obra (1802) (Jacques-Louis David/Reprodução)

Segunda versão da obra (1801)

Segunda versão da obra (1801) (Jacques-Louis David/Reprodução)

Essa segunda versão, com menos definição de imagem, costuma ser menos conhecida – e parece até “photoshop” (o contraste da segunda tela é bem mais acentuado que o da primeira, lembrando mesmo um filtro de edição). Na verdade, ambas as versões são verdadeiras. E não são as únicas. Elas têm mais 3 colegas homônimas.

David cansou a mão de tanto pintar Napoleão e criou CINCO versões diferentes da travessia dos Alpes. Napoleão gostou tanto do resultado que pediu para David fazer cópias, todas diferentes, para espalhar por outros lugares.

As cinco versões

Na verdade, tudo começou com a necessidade de um símbolo para representar uma nova era. Em 1799, um golpe de estado, conhecido como 18 de Brumário, pôs fim a Revolução Francesa e colocou Napoleão Bonaparte no poder, como cônsul único. O país saia de uma crise de uma década e voltava a emergir como potência. Era preciso documentar essa ascensão.

Nada melhor do que usar uma campanha militar. Em maio de 1800, Napoleão liderou suas tropas através dos Alpes em uma empreitada contra os austríacos (de acordo com a história oficial, mas boatos afirmam que ele nem foi junto com as tropas, e sim dias depois. E não foi teria ido de cavalo e, sim, de mula). Muitos apostavam que a tentativa seria um fracasso desde o início, mas os franceses venceram a Áustria na Batalha de Marengo (sim, que divide o nome com o cavalo famoso), em junho.

Apesar disso, o retrato que celebra essa vitória não foi encomenda do futuro Imperador francês. A iniciativa de documentar o feito nos Alpes veio do Rei Carlos IV, da Espanha (país que havia se aliado aos novos governos franceses ainda na época da Revolução), que queria pendurar uma imagem de Napoleão em uma galeria de pinturas de outros grandes líderes militares, que ficava no Palácio Real de Madri – para cimentar, com a representação, a aliança entre os dois países.

Bonaparte gostou da ideia, mas não facilitou para o autor da obra. Ele se recusou a posar para o pintor, que só teve como referência um retrato anterior do líder e o uniforme que ele usou na Batalha de Marengo. Reza a lenda que David usou um de seus filhos, posando no topo de uma escada, para desenvolver o molde do corpo de Napoleão na pintura.

O futuro Imperador, porém, não deixou de dar seus pitacos na obra. A ideia do retrato equestre foi dele, e, segundo biógrafos, o Cônsul pediu para ser retratado “sereno, em um cavalo de fogo”. David obedeceu a risca, e demorou só 4 meses para completar sua obra prima: começou em outubro de 1800 e entregou em janeiro de 1801.

Napoleão ficou lisonjeado com a imagem. Aquela figura imponente, em um cavalo sob montanhas foi o primeiro retrato oficial dele como líder supremo da França. Não demorou para ele ordenar que mais três versões fossem pintadas.

A versão original (1800-1801), acredite, não é a que está na capa da matéria. Ela mostra o manto de Napoleão alaranjado (quase amarelo) e um cavalo branco com uma mancha preta na face. Hoje está exposta no museu do castelo de Malmaison, na França. Veja abaixo:

Primeira versão da obra (1800-1801)

Primeira versão da obra (1800-1801) (Jacques-Louis David/Reprodução)

A segunda versão (1801), que você viu acima com o cavalo castanho e o contraste bem forte, foi encomendada para o Castelo de Saint-Cloud, em Paris. Mas sua morada original foi destruída na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), e os vencedores não humilharam pouco a França derrotada: além da coroação de Guilherme I da Prússia ter sido em Versalhes, eles se apossaram da pintura de Napoleão, que hoje está exposta no Palácio de Charlottenburg, em Berlim.

A terceira versão (1802) é a mais famosa. Ela foi encomendada para a biblioteca do Les Invalides, em Paris, mas ficou escondida durante o período conhecido como Restauração Bourbon (1814 a 1830). Em 1837, o rei burguês, Louis-Philippe de Orleans, recuperou o quadro e o colocou no Museu Histórico do Palácio de Versalhes, onde permanece até hoje.

A quarta versão (1803) é bem semelhante a terceira, mas com um fundo mais escuro. Ela foi encomendada para o palácio da República Cisalpina, um estado criado por Napoleão no norte da Itália, em 1797. O pedido era por uma nova pintura,  “Napoleão dando vida à República Cisalpina”, mas David simplesmente fez mais uma versão de Napoleão cruzando os Alpes. Após a queda de Bonaparte, o exército austríaco confiscou a obra. Hoje ela está no Palácio Belvedere, em Viena. Confira:

Quarta versão da obra (1803)

Quarta versão da obra (1803) (Jacques-Louis David/Reprodução)

A quinta e última versão foi um experimento do próprio David, não encomendado por ninguém. Permaneceu no ateliê do pintor até sua morte, em 1825. Ela abusa do contraste e dos tons de azul, e opta por um cavalo branco machado de preto no rosto e com uma crina branca e preta. Hoje se encontra também no Museu do Palácio de Versalhes:

Quinta versão da obra (sem data definida)

Quinta versão da obra (sem data definida) (Jacques-Louis david/Reprodução)

Apesar de tudo, todas as versões representam o mesmo: Napoleão como um herói. Mesmo os Alpes estando no nome do quadro, o ambiente é um mero cenário para a figura principal. Na rocha abaixo à esquerda, o nome de Napoleão é esculpido ao lado dos nomes de Aníbal e Carlos Magno – duas outras grandes figuras ​​que lideraram tropas sobre os Alpes.

Sobre o cavalo, nosso protagonista, nada pode ser afirmado. Na verdade, cavalo branco em muitas pinturas é uma mera convenção artística: o branco ajuda a distinguir a figura principal dos outros elementos da pintura. A cor de Marengo, portanto, permanece um mistério.