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Desastres naturais: Natureza em fúria

Além de causar destruição, as piores catástrofes naturais de todos os tempos ajudaram a moldar nossa história

Reinaldo José Lopes

Nós, humanos, pensamos que tudo na Terra está sob nosso controle. Mas, de vez em quando, a natureza inventa jeitos devastadores de provar que isso não passa de mera presunção.

Pode não ser um consolo, mas o planeta só continua favorável à vida, em parte, porque esses desastres acontecem. Quando as placas tectônicas (as “balsas” de rocha sobre as quais os continentes se apóiam) se chocam criando vulcões, terremotos e ondas gigantes chamadas tsnunamis, novas rochas e solos nascem. “A água, o dióxido de carbono e o enxofre essenciais para a criação e manutenção da vida são reciclados pelos vulcões”, afirmou o geólogo britânico Simon Winchester no livro Krakatoa.

Além de provocar mortes e mudanças físicas no planeta, os grandes desastres ajudaram também a virar do avesso a história humana. Com isso em mente, fizemos uma lista dos mais assustadores ataques de fúria da natureza e chegamos a cinco que podem ser considerados os mais marcantes de todos os tempos. Candidatos fortes ficaram de fora, como o terremoto que teria matado 830 mil pessoas na província chinesa de Shensi, em 1556. Mas, além da conta assustadora de vítimas, outros espasmos atmosféricos e geológicos inspiraram revoluções, derrubaram governos e fizeram o homem repensar a sua relação com a natureza. Com vocês, as cinco piores e mais transformadoras catástrofes naturais da história.

Bangladesh, 1970

Ciclone deflagrou aindependência do país

O povo que sofreu a pior catástrofe natural do século 20 convivia com uma espécie de bomba-relógio. Afinal, o litoral quente e úmido de Bangladesh (na época, Paquistão Oriental) sempre foi um celeiro de ciclones (tipos de redemoinhos gigantes). Era comum que a força de tempestades tropicais perturbasse o oceano e criasse marés altas. Na noite do dia 12 de novembro, porém, esse fenômeno chegou ao extremo. O redemoinho nasceu nas águas do golfo de Bengala e avançou para a costa, criando ondas de até 6 metros. Elas avançaram pelas regiões densamente povoadas do delta do rio Ganges na manhã do dia 13. Muitos se afogaram enquanto ainda dormiam. Só na ilha de Bhola (nome que batizou o ciclone), 100 mil pessoas morreram.

Fazia décadas que os paquistaneses orientais estavam descontentes com o governo central do Paquistão e o auxílio precário às vítimas só aumentou a revolta deles. Os principais políticos do lugar afirmaram que a união com o Paquistão era coisa do passado. Em 26 de março de 1971, Bangladesh se declarou independente e ganhou esse nome.

A catástrofe também inaugurou a era dos grandes shows de música pop em prol de uma causa – cortesia do ex-beatle George Harrison, fã da tradição cultural e religiosa da região. Em Nova York, nos Estados Unidos, ele reuniu estrelas como Bob Dylan, Eric Clapton e o indiano Ravi Shankar e conseguiu cerca de 10 milhões de dólares para as vítimas do ciclone.

Mortos*: 500 mil

Duração: dois dias

Intensidade: ventos de 190 km/h

Causa: tempestade tropical, seguida de ondas e enchente

*Número estimado

Lisboa, 1755

Terremoto fez com quedesconfiassem de Deus

Era 1º de novembro, dia de Todos os Santos, e as igrejas e casas da capital portuguesa estavam cheias de velas. Os cerca de 275 mil moradores de Lisboa logo desejariam que elas estivessem apagadas quando três tremores violentos, que começaram às 9h30, abriram fissuras no chão e derrubaram prédios. “O tipo de solo contribuiu para a gravidade do terremoto”, afirma o geólogo Caetano Juliani, do Instituto de Geociências da USP. “Em bacias sedimentares, como em Lisboa, o material do solo é muito plástico e chacoalha mais.”

Nos escombros, o fogo das velas e lareiras iniciou um incêndio. Muitos fugiram para o porto – e foram engolidos pelo tsunami que varreu a cidade meia hora depois. Igrejas e palácios, inclusive a residência do rei dom José I, desapareceram sob as ondas de até 6 metros.

O norte da África e países como a França, a Espanha e a Inglaterra também foram atingidos.

A grandiosidade do desastre fez escritores e filósofos se questionarem sobre a existência e a bondade de Deus. No romance satírico Cândido (publicado em 1758), por exemplo, Voltaire, o autor, fez com que o personagem-título e seu mentor, Pangloss, presenciassem a catástrofe e discutissem seu significado. Em Portugal, a reconstrução da capital, prontamente ordenada pelo primeiro-ministro, marquês de Pombal, deu a ele poderes quase absolutos. A nova Lisboa que ele fez surgir era uma cidade de avenidas largas e planejadas, muito diferente da que existira antes.

Mortos*: 100 mil

Duração: cerca de 10 minutos

Intensidade: 8,7 graus Richter

Causa: colisão de placas tectônicas

*Número estimado

Indonésia, 2004

O mundo inteiromobilizado pelaonda gigante

A atitude não podia ser mais inocente: quando o recuo anormal do mar anunciando o tsunami aconteceu, muita gente – especialmente crianças – avançou para a praia e se pôs a coletar peixes deixados pelas ondas. A tragédia de 26 de dezembro do ano passado só foi tão devastadora porque o oceano Índico não tem um sistema de aviso eficaz, nem está acostumado a esse tipo de onda – sem falar na alta densidade populacional das áreas atingidas (15 países na Ásia e na África, sendo que os que mais sofreram foram Indonésia e Sri Lanka), ainda mais inflada pelos turistas.

As ondas de 10 metros de altura nasceram de um terremoto poderosíssimo. A partir do epicentro (ponto atingido em primeiro lugar), cerca de 160 quilômetros a oeste da ilha indonésia de Sumatra, surgiram marolas de 60 centímetros que cresciam cada vez mais conforme a profundidade diminuía e viajavam a 800 km/h. A energia total liberada pelo evento foi equivalente a 37 mil bombas atômicas de Hiroshima.

Ainda é cedo para uma conta fechada dos milhares de mortos e milhões de desabrigados. O certo é que gente de todas as condições sociais e origens – das tribos quase pré-históricas da ilha de Andaman, na costa da Índia, aos turistas escandinavos na Tailândia – foi atingida pelo desastre. Nações do mundo todo reagiram à tragédia com generosidade, enviando dinheiro, donativos e voluntários com rapidez sem precedentes.

Mortos*: mais de 280 mil

Duração: cerca de 7 horas

Intensidade: 9 graus Richter

Causa: terremoto

*Número estimado

Pompéia, 79

A era romana congelada

Hoje, parece impossível viver à beira de um vulcão e não se dar conta do perigo. Mas era assim que os moradores do balneário romano de Pompéia levavam a vida no ano de 79, pois já fazia quase 2 mil anos que o monte Vesúvio não entrava em erupção. Quando a montanha soltou um estrondo, o chão tremeu e uma nuvem preta encobriu o sol, as pessoas saíram para a rua, curiosas.

Alguns minutos depois do primeiro rugido, o vulcão lançou uma saraivada de pedras e começou a fazer as primeiras vítimas. Outros morriam ao respirar a fumaça: “A explosão superaquecida causa o fenômeno da fluidização”, afirma o geólogo Caetano Juliani. “É como se as partículas virassem um líquido, que causa sufocamento.” De Miseno, a 30 quilômetros de Pompéia, o naturalista romano Plínio, o Velho, observava tudo. Protótipo de cientista, ele não resistiu à tentação de ver o fenômeno de perto e navegou até Estábia, mais próxima do Vesúvio. “Teve medo? Parece que não, já que ficou o tempo todo atento aos movimentos e formas daquela nuvem maligna”, disse o sobrinho dele, Plínio, o Jovem, que sobreviveu à tragédia.

No fim do processo, duas avalanches cobriram Pompéia com 6 metros de cinzas e pedras. Em Herculano, outra cidade próxima, a enxurrada de detritos chegou a 23 metros. Muitos dos que conseguiram fugir até o mar morreram sufocados, inclusive Plínio, o Velho. A coisa foi tão rápida que as cidades ficaram congeladas no tempo, tornando-se os registros mais detalhados da era romana que chegaram até nós.

Mortos*: 16 mil

Duração: dois dias

Intensidade**: 5 no IEV***

Causa: presença de um vulcão

*Número estimado

**Valor estimado com base em relatos da época

***Índice de Explosividade Vulcânica (o máximo é 8)

Krakatoa, 1883

O vulcão que acendeuo fundamentalismo

A ilhota entre Java e Sumatra, na Indonésia, deixou claro que estava passando por uma fase de mau humor vulcânico. Relatos de navios davam conta de uma chuva de cinzas e de um mar coalhado de pedras-pomes flutuantes. Tudo não teria passado de uma nota de rodapé no jornal londrino The Times de 24 de maio se os três cumes da ilha de Krakatoa – aliás, Krakatau, pois foi por erro de telegrafistas e jornalistas que o nome ganhou a forma atual – tivessem sossegado, como pareceu a princípio.

Mas não sossegaram. Num domingo, 26 de agosto, “simplesmente ouvimos o ronco de um terremoto à distância”, afirmou um sobrevivente. A fumaça lançada pelo vulcão fez com que a “noite” chegasse às 2 da tarde. Nas áreas mais próximas, muita gente morreu por causa do calor. Mas o maior assassino foi o tsunami que a erupção gerou: há relatos de ondas de 30 metros, que carregaram um navio para o meio da ilha.

Na explosão final, Krakatoa se autodestruiu num estrondo que foi ouvido a quase 5 mil quilômetros dali, nas ilhas Maurício. Foi a primeira catástrofe acompanhada minuto a minuto pelo mundo, graças à invenção do telégrafo submarino. Na época, a Indonésia era colônia holandesa, e seus habitantes muçulmanos, arrasados pela tragédia, começaram a ver com maus olhos os dominadores cristãos. No mesmo ano do desastre, fundamentalistas islâmicos assassinaram soldados da Holanda. Em 1888, uma rebelião explodiu e foi sufocada – mas a chama do islamismo inspiraria a independência indonésia, no século 20.

Mortos*: 36.417

Duração: cerca de 100 dias

Intensidade: 6,5 no IEV***

Causa: presença de um vulcão

*Número estimado

**Valor estimado com base em relatos da época

***Índice de Explosividade Vulcânica (o máximo é 8)

Para saber mais

Na livraria:

Krakatoa – O Dia em Que o Mundo Explodiu – Simon Winchester, Objetiva, 2004

Pompeii – Peter Connolly, Oxford University Press, Reino Unido,1990

Na internet:

http://www.aoml.noaa.gov/hrd/tcfaq