Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês

E se os vikings tivessem colonizado a América?

Caso os nórdicos tivessem fixado residência no Canadá após seu desembarque – que aconteceu na vida real –, Colombo encontraria um continente bem diferente.

Por Fábio Marton Atualizado em 14 abr 2021, 16h33 - Publicado em 14 abr 2021, 16h32

Para alguns, talvez a maioria, a história deve soar especulativa. Mas não é: os vikings de fato estiveram no continente americano muito antes dos outros europeus. A prova final está num assentamento nórdico do século 11, arqueologicamente comprovado, em L’Anse Aux Meadows, na ilha de Newfoundland, Canadá, descoberto em 1960 e declarado Patrimônio da Humanidade pela ONU.

Essa descoberta corroborou antigas sagas nórdicas, que falam do norueguês Eric, o Vermelho (c. 950-1003), descobridor da Groenlândia, e seu filho, Leif Ericsson (c. 970-1020), o líder da primeira incursão europeia na América, identificada com o assentamento no Canadá. Isso aconteceu num período relativamente curto, na virada dos anos 900 para 1000.

O assentamento, consistindo em uma grande residência comunal com vários quartos e diversas utilidades – entre elas, uma forja, uma oficina de ferreiro e uma marcenaria –, durou pelo menos 20 anos. E pode ter abrigado até 160 pessoas. De acordo com as sagas (e não contradizendo o registro arqueológico), a colonização foi abandonada por conflitos com os nativos e entre os próprios nórdicos. E a América ficaria para ser “descoberta” quase 500 anos depois.

Para que os vikings decidissem superar esse momento de estresse e colonizar de fato a América do Norte, eles precisariam de um bom motivo. Aparentemente, não havia. A colônia em L’Anse Aux Meadows não parece ter sido realmente uma colônia, mas uma feitoria, uma base de exploração. Não há sinais de habitação permanente, como tumbas. No lugar disso, parece ter sido uma madeireira, talvez fábrica de barcos, para servir à Groenlândia, onde não existem árvores. Um uso não totalmente vital, quando a Islândia já provia os habitantes da Groenlândia com madeira a cada viagem que faziam para vender seus produtos: pele de foca e marfim de morsa.

Não havia ouro naquela região da América, tampouco as especiarias que, mais tarde, moveriam as Grandes Navegações. Mas havia um lugar para morar. O que tem algo de irônico, porque a Groenlândia é um caso de propaganda enganosa. Eric, o Vermelho, batizou a ilha gelada assim (“Terra Verde” em norueguês medieval) para tentar atrair migrantes, o que conseguiu.

Bastaria, talvez, que o marqueteiro Eric estivesse na viagem do filho – da qual ele desistiu por cair do cavalo a caminho do barco, tomando isso como mau presságio. Eric morreria durante uma epidemia antes do retorno de sua cria. E Leif preferiu gastar o resto de sua vida pregando o cristianismo (que adotou adulto, a contragosto do pai) na Groenlândia, sem fazer muito caso de sua própria descoberta.

Nem Eric, nem Leif, nem os escritores das sagas entenderam o achado. Eles tomaram o mapa-múndi medieval, no qual o planeta é dividido em três partes iguais (África, Ásia e Europa), e concluíram que haviam achado uma península da Europa, na Groenlândia, e uma extensão da África, no Canadá.

  • Mas suponhamos que Eric, sem cair do cavalo, visitando o Canadá, tenha voltado à Noruega para contar a história – abrindo o caminho para a colonização de uma terra realmente verde. Colonizar era algo que os nórdicos faziam bem: por essa mesma época, já tinham colônias no Leste Europeu (o Rus de Kiev, que daria origem à Rússia e à Ucrânia), na França (Normandia), na Grã-Bretanha (então quase toda sob domínio do rei nórdico Cnut, o Grande), no sul da Itália, via Mediterrâneo.

    Continua após a publicidade

    Na América, em número suficiente, poderiam perdurar. Para lidar com os povos nativos, faria sentido abrir mão do confronto e adotar saídas mais diplomáticas, igual fariam os espanhóis e portugueses, que se aliavam a um povo contra outro.

    Como aconteceria depois, junto com essas guerras, viria o morticínio causado por doenças – que, na história real, mataram até 90% da população original das Américas entre 1492 e 1600. Isso ocorreria 500 anos antes. E pior: a Peste Bubônica, do século 14, aportaria neste continente também.

    Mas nada disso significa que uma eventual colonização viking seria igual à que a América teve de fato. Rússia, Sicília, Normandia: nenhum desses lugares têm linguagem ou cultura nórdicas. Eles se tornavam iguais aos nativos. Se decidissem ficar na América do Norte, o mesmo se daria por aqui.

    O que acabaria por surgir é uma nova civilização, mestiça. Essa população teria algum contato com a Europa, mas não muito mais que a própria Groenlândia teve (que foi pouco: eles basicamente foram esquecidos, perderam o contato e, quando os noruegueses foram procurá-los, no século 17, não havia mais ninguém por lá).

    O novo grupo teria sobre seus vizinhos as vantagens do domínio do aço, da roda, de animais de tração, de barcos mais avançados, do alfabeto. Essa cultura américo-nórdica, então, poderia se espalhar de alguma forma pelos três subcontinentes das Américas, incluindo este aqui onde nascemos.

    O que nos traz, 500 anos depois, a Colombo e Cabral. Com uma América quase isolada, praticamente só conhecida pelos nórdicos, a história europeia seguiria quase inalterada. Haveria a corrida das especiarias, que levou à colonização real da América.

    Quando os outros europeus chegassem, porém, a diferença tecnológica não seria tão grande. E, talvez o mais decisivo de tudo, os moradores daqui já seriam imunes às doenças europeias, superadas séculos antes. Não haveria uma “conquista”, portanto. Uma América indígena livre, e situada estrategicamente entre a Ásia e a Europa, bem que poderia entrar ela própria no negócio de especiarias. Na vida real, o México serviu de corredor para as especiarias espanholas que partiam das Filipinas.

    Fica outra questão: como o mundo se desenvolveria sem o ouro que os ibéricos levaram das Américas? O metal amarelo destas bandas, afinal, bancou a Revolução Industrial. O fato é que ela aconteceria, mas não da mesma forma, na mesma velocidade, ou no mesmo lugar. A Europa certamente não teria a mesma força e, sem o ouro colonial, a burguesia não teria superado a nobreza por lá. Talvez a Revolução Industrial tivesse acontecido por aqui mesmo. E o mapa-múndi teria outro desenho, com as Américas, e não Europa, no meio.

     

    Continua após a publicidade
    Publicidade