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Em busca do Santo Prepúcio

Uma das relíquias mais curiosas da Igreja é também a mais polêmica: o prepúcio do menino Jesus. Ele é alvo de uma caçada que já envolveu o imperador Carlos Magno, dez papas, grandes roubos, uma caverna e até hippies.

 

Vinte e nove igrejas possuíam os pregos usados na crucificação de Jesus. Cerca de 70 diziam ter amostras do leite de amamentação de Maria. Pedaços da cruz, então, qualquer cidade tinha. A Idade Média viveu o milagre da multipli¬cação de relíquias cristãs. Uma banaliza¬ção que foi criticada por protestantes na época da Reforma e, depois, pela própria Igreja Católica, que parou de fomentar esse culto. Mas uma dessas relíquias não foi esquecida pelo tempo e talvez não te¬ria sido destruída: o prepúcio do menino Jesus. A “Santa Carne” já motivou dispu¬tas papais e atraiu peregrinos por séculos a Calcata, cidade italiana a 45 quilôme¬tros de Roma onde ela era preservada. Até que desapareceu na década de 1980.

No oitavo dia após o nascimento, Jesus foi circuncidado. Como todo bebê judeu, seu prepúcio, a pele que cobre a cabeça do pênis, deveria ser enterrado. A Bíblia não faz nenhuma menção a isso, mas o Evangelho da Infância, um texto apócri¬fo (excluído da Bíblia) publicado em 1677, faz. Segundo o livro, que retrata Jesus como uma criança mimada e in-consequente, a pele foi entregue a uma velha senhora, que o guardou em uma caixa com óleo perfumado – esse óleo ainda seria usado por Maria Madalena para limpar Jesus morto na cruz. A caixa foi escondida na loja do filho dela, sob a condição de não ser vendida. O curioso é que, segundo o texto, Maria não seguiu o costume religioso de enterrar o prepúcio do filho.

Por oito séculos, não houve nenhum relato da relíquia. Até que a história ga¬nhou novos contornos. Em 799, o papa de então, Leão 3º, estava em maus len¬çóis. Ele não era tido como nobre o sufi¬ciente para comandar a Igreja, o que, naquela época, já era motivo para sofrer atentados. Precisando de apoio para não ser assassinado, ele buscou ajuda logo no homem mais poderoso da Europa, o rei dos francos Carlos Magno. O monarca atendeu ao pedido e achou por bem in¬vadir Roma. Como resultado, acabou coroado imperador do Ocidente pelo próprio Leão 3º. Foi aí que, diz a lenda, ele teria dado ao pontífice uma caixa que continha o prepúcio, que ele recebera de presente após enfrentar muçulmanos em Jerusalém. Mas Carlos Magno nunca foi ao Oriente Médio, apenas enviou missões à Terra Santa para firmar acordos. Nessas viagens, presentes foram trocados – e o prepúcio seria um deles.

Outra versão, mais religiosa, diz que certo dia Carlos Magno estava rezando diante do Santo Sepulcro, um local em Jerusalém onde, de acordo com a tradi¬ção cristã, Jesus morreu, foi enterrado e ressuscitou. Durante a oração, uma criança surgiu do nada e pediu a ele que guardasse uma caixa que continha um presente, dizendo que era “feito de mi¬nha própria carne”.

Segundo estudiosos do assunto, é pro¬vável que o rei dos francos não tenha nenhuma ligação, de fato, com a história. “Após sua morte, em 814, surgiu a Carlos Magno S.A. Todo mundo queria uma parte da lenda carolíngia”, escreveu o jornalista David Farley no livro An Irre¬verent Curiosity (“uma curiosidade irreverente”, sem edição no Brasil). Ou seja, a saga do Santo Prepúcio teria sido grudada à de Carlos Magno, o “pai da Eu¬ropa”, em busca de legitimidade. Era co¬mum associar relí¬quias a personagens históricos para au¬mentar sua impor¬tância e prestígio.

FÁBRICA DE RELÍQUIAS
O achado era um incremento a uma po¬lítica de Roma vigente no século 9: todas as igrejas deveriam ter pelo menos um artefato ou pedaço de corpo de algum grande personagem cristão. Foi a farra das relíquias. Pequenas e grandes cidades começaram a procurar (e inventar) ob¬jetos, a fim de atrair mais fiéis, dinheiro e prestígio. As igrejas desenterraram e desmembraram santos. Expunham para adoração pedaços de corpos apodreci¬dos. Mas o que fazia a roda da fortuna girar de verdade eram objetos ligados a Jesus. Aí sobrou para seu pênis circunci¬dado – e o cordão umbilical, que também estaria em Roma. Ao longo da Idade Mé¬dia, 18 localidades catalogaram o Santo Prepúcio entre as próprias relíquias. Uma cidade francesa foi batizada em ho¬menagem a ele: Charroux, que significa “carne vermelha”.

No século 14, o prepúcio de Charroux ficou famoso, rivalizando com o romano em peregrinações. Isso simbolizou o ra¬cha que a Igreja vivia. Naquela época, havia um papa na Itália e outro na cidade francesa de Avignon. Quando Roma re¬cuperou o pleno domínio, no século se¬guinte, o prepúcio francês perdeu a vez. Mas a relíquia romana não teve muito sossego. Em 1527, ela foi roubada duran¬te o Saque de Roma, comandado pelas tropas do imperador do Sacro Império Romano-Germânico Carlos 5º. O soldado alemão que furtou a peça foi capturado ao se aproximar da cidade de Calcata, quando tentava sair da Itália. Ele não foi preso por estar com o Santo Prepúcio, mas pelo simples fato de ser estrangeiro. Acabou liberado, deixando para trás a relíquia – talvez por medo de, aí sim, ser pego em um crime muito mais grave. Ou por fé, ao se dar conta do que levava.
Roma sabia que o prepúcio estava na região de Calcata, mas ninguém tinha noção de exatamente onde. A prisão, que funcionava em uma caverna, foi desati¬vada sem que as pessoas da cidade sou¬bessem que a relíquia estava ali.

Diz a lenda que, três décadas depois, um padre observou que as mulas sempre se curvavam à entrada da caverna. Curioso, resolveu entrar para ver o que havia lá. Descobriu o relicário e, apesar de ninguém conseguir abri-lo, tinha cer¬teza de que se tratava do Santo Prepúcio, devido a uma fita com uma inscrição parcialmente apagada. Roma cogitou reavê-lo, mas como a caverna já havia se tornado ponto de peregrinação, Calcata foi oficializada como terra do verdadeiro e único Santo Prepúcio. “Os outros pre¬tendentes foram ignorados ao longo dos séculos”, explica Farley, que também é autor do documentário A Relíquia Per¬dida de Jesus Cristo.

Na virada do século 19 para o 20, a França voltou a defender sua legitimida¬de peniana. As cidades de Conques e Charroux (de novo) disseram ter redes¬coberto seus prepúcios medievais. Foram motivo de piada. A Igreja perdeu a paci¬ência e decidiu excomungar quem falas-se do assunto e dar um basta ao culto a relíquias consideradas excêntricas. Quanto ao tesouro de Calcata, ele deveria ser escondido. Com isso, a cidade perdeu a vocação turístico-religiosa. Para pio¬rar, ainda precisou ser evacuada, pois estava em uma zona ameaçada por ter¬remotos. Os habitantes construíram ou¬tra cidade, chamada Calcata Nuova, e a velha rapidamente ganhou uma nova e inusitada população. Nos anos 60, empolgados pela beleza do local e pelo teto grátis, boêmios, hippies e artistas se estabeleceram em Calcata – e estão lá até hoje. Ao tomarem conhecimento da re¬líquia curiosa, uns se encantaram pelo seu misticismo enquanto outros a viam como uma excentricidade divertida.

Em 1983, o prepúcio foi roubado. Não era preciso muita astúcia: ele estava guardado em uma caixa de sapato na casa do padre local. O roubo virou notícia in¬ternacional, e surgiram muitas especu¬lações sobre os ladrões. Bandidos co¬muns, satanistas, neonazistas… Ou o próprio padre, que teria vendido ou en¬tregado ao Vaticano, já que moradores dizem tê-lo visto viajar um dia antes.

Desde então, caçadores de relíquias buscam evidências de onde ela estaria. O mistério segue vivo. No passado, dez pa-pas concederam indulgências, uma es¬pécie de perdão oficial da Igreja, a quem celebrasse a relíquia. Hoje, ninguém no Vaticano fala do assunto ou sequer reco¬nhece a existência do Santo Prepúcio.