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Espião fez o Dia D dar certo

O arriscado, criativo e muitas vezes traiçoeiro trabalho dos agentes e espiões foi crucial para o desfecho da guerra. São heróis que, por dever de ofício, fogem dos holofotes. Um deles só foi descoberto 55 anos depois da guerra .

Por Moacir Assunção Atualizado em 31 out 2016, 18h21 - Publicado em 14 abr 2012, 22h00

Há um tipo de herói cuja maior conquista é permanecer no anonimato. São os espiões. A busca por informações secretas, a amizade cínica com poderosos e a divulgação proposital de dados falsos foram ferramentas que ajudaram – e muito – a definir o destino da guerra. Tome-se o caso do catalão Juan Pujol García. Era um agente duplo, condecorado por britânicos e alemães. O espião deu a notícia errada mais importante do conflito: o local (mentiroso) onde os Aliados preparavam o desembarque que passaria à história como Dia D. Os generais alemães remanejaram suas tropas para proteger o lugar errado. E a invasão aliada foi bem-sucedida. Pujol ganhou dinheiro dos dois lados e foi gastá-lo na Venezuela. O contrário de Fritz Kolbe: o alemão, que espionou para os americanos, não levou um tostão – e nunca reclamou disso. Era tão discreto que suas ações só foram descobertas, acidentalmente, mais de meio século depois do fim da guerra.

 

O alemão que odiava Hitler

QUEM
FRITZ KOLBE

NASCIMENTO
BERLIM (ALEMANHA)

ONDE ATUOU
BERNA, SUÍÇA

POR QUE É HERÓI?
FOI O MAIOR ESPIÃO AMERICANO NA GUERRA

O diplomata alemão Fritz Kolbe tinha aversão ao nazismo. Procurou a embaixada americana em Berna, na Suíça (um país neutro no conflito), para oferecer seus serviços. Foi aceito após ser entrevistado por Allan W. Dulles, que, no pós-guerra, seria o primeiro diretor da CIA. Revelou segredos nazistas, como os planos de deportação de judeus italianos e a construção dos temíveis foguetes V1 e V2 – dados sobre a localização das fábricas permitiram o bombardeio das instalações.

Kolbe voltou a Berna 6 vezes durante a guerra. Repassou aos americanos mais de 1600 documentos. Um antigo diretor da CIA, Richard Helms, lembrou em sua biografia: “As informações de Kolbe foram as melhores que um agente aliado conseguiu obter durante toda a 2ª Guerra”. Kolbe tentou ser reintegrado ao serviço diplomático da Alemanha Ocidental, mas muitos de seus colegas, alguns ex-nazistas, o acusaram de traição. Foi então para a Suíça, onde trabalhou como representante comercial. Morreu esquecido em 1971. Nunca recebeu nada pelo trabalho de espião. Só foi “descoberto” em 2000, graças a uma reportagem da revista Der Spiegel que revirou os arquivos da Biblioteca do Congresso americano.

 

“Amigo” da Gestapo era superspião judeu

QUEM
LEOPOLD TREPPER

NASCIMENTO
NOWY-TARG (IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO)

ONDE ATUOU
BÉLGICA

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POR QUE É HERÓI?
LIDEROU A ORQUESTRA VERMELHA, CENTRAL DE ESPIONAGEM DE MOSCOU

Quando a Bélgica foi invadida pela Alemanha, em 1940, Jean Gilbert era aliado de Hitler. Sua empresa mantinha negócios com a máquina de guerra nazista, e ele frequentava a roda dos altos oficiais do Führer. Foi um choque para a Gestapo descobrir, durante um interrogatório em 16 de novembro de 1942, que aquele bon vivant carismático era na verdade o chefe da Orquestra Vermelha, organização de espionagem soviética. Seu nome real era Leopold Trepper. Entre 1940 e 1941, a Orquestra transmitiu informações secretas para a URSS de dentro da Alemanha e da Europa ocupada. Além de espiões tradicionais, era formada por intelectuais e acadêmicos, também envolvidos no salvamento de judeus. Trepper, judeu nascido na Polônia em 1904, usava seus negócios para obter informações e ao mesmo tempo financiar o esquema de espionagem. Quando foi preso e interrogado, recebeu proposta para se tornar agente duplo. Fingiu aceitá-la e uniu-se à Resistência Francesa. Ao voltar a Moscou, foi preso e acusado de traição. Passou 12 anos na prisão de Lubyanka, até a morte de Stálin. Reabilitado como um dos maiores espiões de todos os tempos, morreu em Israel, aos 78 anos.

O agente “D”

QUEM
JUAN PUJOL GARCÍA

NASCIMENTO
BARCELONA (ESPANHA)

ONDE ATUOU
BARCELONA

POR QUE É HERÓI?
CONVENCEU HITLER DE QUE O DESEMBARQUE DO DIA D NÃO SERIA NA NORMANDIA

Juan Pujol García, que durante a guerra usava os codinomes Garbo (para os Aliados) e Arabal ou Alaric (para os alemães), foi um dos espiões mais bem-sucedidos do conflito. O agente duplo, nascido em Barcelona, em 1912, e morto em Caracas, em 1988, convenceu os oficiais nazistas de que a Operação Overlord, o desembarque na Normandia, era apenas uma tática diversionista. Na verdade, dizia ele, os Aliados lançariam suas tropas em Pas-de-Calais, na França. Diante da informação, o próprio Hitler retirou 4 divisões do Exército a caminho da Normandia e as deslocou para a outra região. O general Dwight Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas, destacou em seu relatório sobre a operação a importância da participação do agente duplo catalão na derrota nazista: “Se o 15º Exército alemão tivesse entrado na batalha em junho ou julho, provavelmente nos derrotaria unicamente pela quantidade e pela qualidade dos seus efetivos”. Pujol queria espionar para os britânicos, mas foi recusado. Ofereceu então seus serviços aos alemães, que buscavam alguém que pudesse entrar (e espionar) no Reino Unido. Nessa época, chegou a procurar o consulado brasileiro em Madri para pedir asilo para sua família. Depois de várias recusas, conseguiu ser ouvido por espiões ingleses. Trabalhava sob a fachada de tradutor da BBC. Sua história foi contada nos livros Garbo – O Espião que Derrotou Hitler, de Javier Juárez (Relume Dumará),. e Garbo – The Spy who Saved D-Day, de Tomás Harris (inédito no Brasil). Ganhou a medalha de membro do Império Britânico (ao qual, aparentemente, de fato servia) e a Cruz de Ferro dos nazistas. Sua maior qualidade era o encanto pessoal, apesar de ser feio, baixo e calvo. Acabou seus dias falido na Venezuela. Orgulhava-se de ter sobrevivido a dois grandes conflitos – a 2ª Guerra e a Guerra Civil Espanhola – sem disparar um tiro.

Inglês inspirou 007 e escapou da corte marcial

QUEM
PATRICK DALZEL-JOB

NASCIMENTO
LONDRES (INGLATERRA)

ONDE ATUOU
BODEN (NORUEGA)

POR QUE É HERÓI?
SALVOU OS 2500 MORADORES DA CIDADE DE UM BOMBARDEIO NAZISTA

Ao noticiar a morte de Patrick Dalzel-Job, em 2003, os jornais ingleses afirmaram que ele era o mais provável modelo do escritor Ian Fleming para criar o agente James Bond (outras inspirações teriam sido David Scherr, líder do MI5, o serviço de inteligência britânico, e o sérvio Dusan “Dusko” Popov). Fleming e Job fizeram parte do Comando 30, grupo que coletava segredos da inteligência alemã. Nasceu em Londres em 1916. Aos 24 anos, alistou-se na Marinha inglesa e foi encarregado de organizar o desembarque aliado na Noruega, país onde morava até o início da guerra. Além das múltiplas habilidades (era velejador, mergulhador e paraquedista), seu nome é associado a 007 também por esse feito. Em 1940, os alemães resolveram bombardear a cidade de Boden, no país nórdico. Sabendo desse plano, Job montou uma operação de salvamento por conta própria, à revelia do almirantado britânico. Levou os 2500 habitantes de Boden de barco para outra cidade. Salvou a população local, mas sua insubordinação o levou à corte marcial. O rei norueguês Haakon 7º, no exílio em Londres, intercedeu por ele e o condecorou por heroísmo.

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