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Fezes de 2 mil anos revelam extinção de bactérias da microbiota intestinal humana

Pesquisadores sequenciaram o genoma dos microrganismos presentes em oito “peças” fossilizadas. 39% das espécies encontradas não eram conhecidas anteriormente.

Por Luisa Costa Atualizado em 13 Maio 2021, 19h52 - Publicado em 13 Maio 2021, 19h38

Enquanto você fica irritado com a privada entupida, o cocô pode ser ouro para alguns pesquisadores. Não o seu, claro – os cientistas estão mais interessados nos excrementos fossilizados dos seus antepassados. Uma equipe internacional de pesquisadores analisou fezes humanas de 2 mil anos encontradas em cavernas no México e nos Estados Unidos. O estudo publicado ontem (12) no periódico Nature sugere que dezenas de espécies de bactérias foram extintas no nosso intestino.

Milhares de bactérias e microrganismos moram no intestino humano. Elas compõem a microbiota intestinal, e influenciam diversas funções do corpo – desde o bom funcionamento do sistema digestivo até alterações de humor. Acontece que essa biodiversidade não permaneceu intacta ao longo da história. O conglomerado de bactérias sofreu alterações associadas à industrialização, alimentos processados e o uso indiscriminado de antibióticos.

Para compreender essas alterações e a composição das microbiotas intestinais dos humanos no passado, os coprólitos (como é chamado o cocô fossilizado) podem oferecer algumas pistas.

A partir de oito amostras de coprólitos, que datam de mil a 2 mil anos atrás, os cientistas reconstruíram 498 genomas de micróbios presentes ali. O material genético estava bastante danificado, e a equipe precisou reidratar os pedaços de fezes para recuperar o DNA das bactérias milenares. 

  • O segundo desafio foi descobrir se o DNA das amostras era mesmo de bactérias intestinais, e não de outros microrganismos que pudessem estar no solo onde as fezes foram encontradas. Para isso, os pesquisadores compararam os genomas encontrados com as bactérias intestinais típicas de outros mamíferos. Assim, eles  concluíram quais delas moraram dentro dos humanos e quais eram invasoras de fora.

    Entre os 181 genomas que eram antigos e provavelmente originários do intestino humano, 39% representam espécies que não eram conhecidas anteriormente – o que evidencia que tínhamos uma maior diversidade microbiana no passado. Além disso, os cientistas perceberam que a flora intestinal observada se diferenciava da contemporânea pela presença significativamente menor de marcadores de resistência a antibióticos, por exemplo.

    Em seguida, os coprólitos foram comparados com 789 amostras atuais de microbiotas intestinais humanas de oito países, tanto de pessoas que vivem em sociedades industrializadas quanto de pessoas que vivem em sociedades não industrializadas. O que os cientistas perceberam foi que muitas bactérias encontradas nas amostras milenares se assemelham às presentes na flora intestinal “não industrial” de hoje.

    Uma das bactérias perdidas com o tempo foi a Treponema succinifaciens. Ela aparece apenas ocasionalmente no intestino de pessoas que vivem estilos de vida não industriais hoje – com dietas mais ricas em fibras, por exemplo –, mas estava presente em todos os coprólitos. 

    O estudo facilita a investigação da história evolutiva dos microrganismos intestinais e sugere que a dieta não é o único fator que molda a flora intestinal – afinal, as novas informações sobre o velho cocô mostram que tanto populações industriais quanto não industriais sofreram alterações e saíram perdendo na diversidade microbiana. 

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