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História da depressão: no canto da vida

Em 2.500 anos de história, a melancolia inspirou grandes obras da arte e da ciência – e é um dos maiores problemas que a humanidade precisa enfrentar

Por Lúcia Monteiro - Atualizado em 26 abr 2017, 15h34 - Publicado em 28 fev 2006, 22h00

O cotovelo apoiado na perna, a coluna curva, o rosto pálido e inclinado, caído sobre a mão. O corpo parece tenso e pesado, e o olhar, perdido no infinito. Olhe para o senhor da imagem acima e você terá a impressão de fazer parte de um mundo em que o dia tem 50 horas e até o Sol faz seu percurso em um ritmo mais lento que de costume. Uma sensação? Frio. Um sabor? Amargo. Cor? Preta. Desejo? A inércia completa.

Não são sensações incomuns. Em maior ou menor grau, nada menos que 340 milhões de pessoas têm momentos semelhantes a esse. É a estimativa do número de casos mundiais de depressão feita pelo grupo de saúde mental da Organização Mundial da Saúde. Ele também estima que uma em cada 4 pessoas desenvolverá a doença ao longo da vida. Mas nem sempre foi assim: ao longo da história, a situação foi vista de forma bem diferente.

O senhor acima é apenas um dos últimos representantes de uma tradição de mais de 2.500 anos. Trata-se de uma escultura do artista australiano Ron Mueck, sem título, mas conhecida como Grande Homem graças aos seus mais de 2 metros de altura. Assim como ele, inúmeras pinturas, esculturas e personagens da literatura ilustraram a mesma atitude cabisbaixa perante a vida. Hoje em dia, basta um exame rápido para diagnosticar pessoas como depressivas. Mas se estivéssemos na Grécia antiga falaríamos de melancolia e, na Europa medieval, de acédia. O melhor retrato já feito dessa história é a exposição Melancolia – Genialidade e Loucura no Mundo Ocidental, em que estão reunidas as imagens que aparecem nesta reportagem. Para entender esse processo até chegar à guerra declarada contra a depressão dos dias de hoje, é melhor começar do começo.

Homens de exceção

No mundo ocidental, quem primeiro notou características depressivas e as sistematizou em torno de um nome foi Hipócrates, considerado o pai da medicina, no século 4 a.C. Ele cunhou o nome melancolia a partir de duas outras palavras: mêlas = negro e kholê = bile. Melankholia significa portanto “bile negra”, segundo ele, um dos 4 humores que constituem o corpo humano – os outros seriam a bile amarela, o sangue e a fleuma. No texto intitulado Da Natureza do Homem, Hipócrates (ou seu genro Polibeu, não se sabe ao certo) estabelece uma correspondência entre os 4 humores, as 4 estações do ano e as 4 características fundamentais da matéria (quente, fria, seca e úmida). A cada um dos humores ele relacionou um sintoma psicológico. Em seu estado normal, o homem teria os 4 bem equilibrados. O problema se daria em casos de excesso de um ou de outro. Bile amarela demais causaria um temperamento raivoso, da mesma maneira que a bile negra em abundância provocaria a depressão. “Se a tristeza e a angústia não passam, o estado é melancólico”, disse Hipócrates em seus Aforismas.

No mesmo século, o filósofo grego Aristóteles, em uma obra conhecida como Problema 30, reparou em uma estranha coincidência: “Por que razão todos os homens de exceção na filosofia, na política, na poesia ou nas artes são manifestamente melancólicos?” Não foi o único a perceber isso. A propaganda do Prozac, o mais popular dos antidepressivos, enumera uma lista de “homens de exceção” acometidos pela doença: os americanos Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt, o pintor holandês Vincent van Gogh, os escritores Mark Twain e Ernest Hemingway, o inglês Winston Churchill, a atriz Marilyn Monroe e o bailarino Vaslov Nijinsky são alguns deles. A diferença é que, enquanto a indústria farmacêutica busca encorajar os doentes a se tratar, Aristóteles via na melancolia um atributo essencial da genialidade. Para ele, era um estado ao mesmo tempo patológico e desejável.

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Podemos imaginar uma balança para medir como a humanidade encarou a melancolia em diferentes períodos e lugares. Na Grécia antiga, a balança estaria equilibrada – o peso do lado positivo é igual ao do lado negativo. Já na Idade Média, a balança pesaria de maneira extremada para o lado negativo. Não se falava em melancolia, mas em acédia. A palavra saiu de uso tanto no português como em outras línguas latinas, mas continua presente no dicionário. De acordo com o Houaiss, significa enfraquecimento da vontade, inércia, preguiça ou desordem mental, caracterizada por apatia, melancolia e descuido. Pois não é que a acédia entrou para o temido rol dos 7 pecados capitais? Isso mesmo, junto com a gula, a avareza e o orgulho, por exemplo.

A história é a seguinte: no início do século 4, centenas de monges estabeleceram alguns dos primeiros grandes monastérios católicos nos desertos da Síria e do Egito (nos dois retiros mais importantes, a sudoeste de Alexandria, viviam 5.600). Esses monges, chamados de anacoretas, pretendiam se isolar do mundo para, assim, fugir de toda e qualquer tentação. Só que, mesmo distante de tudo, restava ainda um demônio: a acédia. Evágrio Pôntico, antigo diácono de Constantinopla que se retirou no deserto em 383, descreveu assim a tentação, também chamada de “demônio do meio-dia”: “Ele força o monge a manter os olhos fixos na janela, fora de sua célula, observando o sol para ver se ele está longe da 9a hora. Ele inspira a aversão pelo lugar onde o monge se encontra, por seu próprio modo de vida e pelo trabalho manual. Além disso, provoca a idéia de que a caridade desapareceu e que ninguém poderá consolar-lhe. O demônio da acédia usa todas suas forças para que o monge abandone sua célula e fuja”.

É assim, com essa roupagem de tentação que leva ao pecado, que a acédia chega à Idade Média. Em todo o ocidente medieval, a definição que impera é a do frade dominicano são Tomás de Aquino (1227-1274), grande filósofo do cristianismo. Para ele, trata-se de “uma tristeza devastadora, que produz no espírito do homem uma depressão tal que ele não tem mais vontade de fazer nada. A acédia é um desgosto pela ação”. Uma nova etimologia da palavra melancolia é forjada, o que contribui para aumentar a carga negativa: melan agora é ligada ao termo latino malus, que vale tanto para mal como para malsão, ou doente. Diante de definições tão desprezíveis, o que poderia fazer o homem medieval ao se sentir melancólico? Ora, não haviam muitas opções. Ou escondia o pecado, ou rezava para tentar banir o abominado sentimento de sua alma.

A melancolia só daria a volta por cima no século 19. Na Inglaterra dessa época, o prato mais pesado da balança é o da visão positiva: a moda elizabetana manda vestir preto e o spleen é um atributo essencial do romantismo. Órgão que se acreditava secretar a bile negra, o baço (ou spleen, em inglês), virou sinônimo de angústia, mau humor e depressão. As mulheres inglesas que andavam de cara amarrada por volta de 1800 diziam ter sido atingidas pelos vapores do spleen. Nada mais glamouroso, na época. Apesar de sofrido e devastador, o sentimento borocoxô é cultuadíssimo pelos românticos. Famoso poeta do período, o inglês George Gordon (1788-1824), mais conhecido como Lord Byron, influenciou escritores de diversos países. Os seguidores do chamado byronismo tinham em comum um sentimento de mal-estar, desajuste, solidão, desencanto e tédio, características resumidas na expressão mal du siècle (“o mal do século”, em francês). O tuberculoso e taciturno Álvares de Azevedo (183-1852), autor de A Lira dos Vinte Anos, é o escritor brasileiro que melhor incorpora a linha. Na França, o poeta Charles Baudelaire (1821-1867) representa bem o espírito nos versos de “A Morte dos Pobres”:

A Morte é que consola e nos faz viver;

É o alvo desta vida e a única esperança

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Que, como um elixir, nos dá fé e confiança,

E forças para andar até o anoitecer.

Em meio à tempestade e à neve a se desfazer,

É a luz que em nosso lívido

horizonte avança

É a pousada que um livro diz

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como se alcança,

E onde se pode descansar e adormecer.

É um Arcanjo que tem nos dedos imantados

O sono eterno e o dom dos

extasiados,

E arruma o leito para os nus e os desvalidos;

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É dos Deuses a glória e o místico celeiro,

É a sacola do pobre e o seu lar verdadeiro,

O pórtico que se abre aos

Céus desconhecidos!

Hoje em dia não se fala tanto de melancolia. A palavra ainda é usada para casos profundos de depressão, esse sim, o termo médico em voga. Mas qual é a diferença entre tristeza, melancolia e depressão? Bom, as fronteiras não são bem claras. De uma maneira geral, pode-se dizer que o termo depressão herdou boa parte dos atributos da melancolia do passado. Diferente dos gregos, no entanto, o mundo de hoje vê a depressão como uma doença sem qualquer implicação positiva. “A tristeza é uma emoção universal e tem o seu valor: leva à introspecção, ajuda a elaborar a frustração e contribui para o amadurecimento”, diz o médico Teng Chei Tung, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Do ponto de vista clínico, a depressão é uma doença incapacitante e, diferente da tristeza, não pode ser controlada pelo paciente sozinho.” Ou seja, a balança agora está no lado negativo.

Mal dos macambúzios

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Como foi que a melancolia se transformou em doença, entrou na seara da psiquiatria e passou a ser combatida com uma intensidade semelhante à da Idade Média? É verdade que os gregos já viam o lado patológico da melancolia. Mas nada comparado ao problema de saúde pública de nossos dias. A partir do século 18, os médicos começaram a se interessar pelas doenças mentais. Eram os chamados alienistas, que consideravam a melancolia como um tipo de loucura ou como uma mania. O fundador da psiquiatria na França Philippe Pinel (1745-1826) – aquele que deu origem à expressão “ficar pinel” – e, mais tarde, seu aluno Jean-Etienne Esquirol (1772- 1840) estão entre os mais notáveis estudiosos da área. Em 1915, Freud comparou a melancolia ao luto. Segundo ele, “ambos provocam uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo exterior, a perda da capacidade de amar e a inibição de toda a atividade”. A diferença seria que, enquanto o luto é a dor pela perda de alguém ou algo, o melancólico se ressente da perda do “eu”, o que também traria uma diminuição da auto-estima.

Um grande avanço veio com a descoberta – por acaso – dos antidepressivos. Na década de 1950, percebeu-se que a isoniazida, enzima usada para tratar tuberculosos, produzia nos doentes uma inesperada sensação de ânimo e bem-estar. Uma reação similar foi notada com a inipramina, um antialérgico. Usadas para tratar depressivos, no entanto, essas substâncias provocavam muitos efeitos colaterais, já que não haviam sido criadas com esse fim específico. Os antidepressivos agem sobre algumas substâncias que regulam a transmissão de impulsos nervosos, os neurotransmissores – em especial sobre a serotonina, que além de influenciar o temperamento, controla a liberação de hormônios que regulam estados como o sono e a fome. Deprimidos apresentam distúrbios na regulação de serotonina, mas comece a brincar com essa substância e você corre o risco de desregular o organismo inteiro.

A primeira droga capaz de agir sobre a serotonina sem tantos efeitos colaterais foi o Prozac, que começou a ser vendido nos Estados Unidos em 1988. Graças a ele, os antidepressivos se tornaram populares. “O remédio é tão seguro que dá a impressão de que qualquer médico pode tratar a depressão”, afirma Tung, do Hospital das Clínicas. “Mas hoje em dia a medicação é acompanhada com mais cuidado. A associação dele com outros medicamentos pode gerar intoxicação. Estudos sugerem até que tratamentos com antidepressivos podem agravar a depressão ou levar ao suicídio.”

Mesmo com remédios, as estatísticas atuais sobre a depressão são alarmantes. Além dos 340 milhões de pessoas com a doença, estima-se que em 2020 ela será a 2a principal causa de incapacidade no mundo, atrás apenas de doenças cardíacas (hoje, ela ocupa a 4a posição desse ranking). Não é à toa que, entre as medicações só comercializadas com receita médica, os antidepressivos são os campeões de venda. Por outro lado, nunca a depressão foi tão estudada quanto hoje, o que abre a perspectiva de melhores remédios.

Mas será que estamos no caminho certo? “Não acredito que nós hoje compreendemos melhor a melancolia do que os gregos”, diz o historiador da arte Jean Clair, curador da exposição Melancolia, que estudou as abordagens artísticas da depressão por mais de 10 anos. “Nossa época a nega. É preciso ser feliz, engraçado, divertido, positivo e, nesse contexto, a melancolia é proibida. Se você se sente melancólico, toma um Prozac. O ideal do homem hoje em dia é se manter constante o tempo todo, sem alterações de humor, como as frutas e os legumes do supermercado, que têm sempre a mesma cor, o mesmo tamanho e o mesmo gosto.” A mostra reúne 250 obras, entre telas, desenhos, gravuras e esculturas, todas com o tema da melancolia. “O público se dá conta de que a melancolia faz parte da nossa cultura e não é apenas uma doença. Além do mais, é reconfortante saber que o que sentimos se inscreve na história e foi responsável por algumas das mais importantes obras de arte”, diz Jean Clair. Na França, a mostra atraiu 330 mil pessoas em 3 meses. Na esteira do seu sucesso, foram lançados mais de 10 livros sobre o tema. “O sofrimento da melancolia constitui o homem, da mesma maneira que os peixes têm espinha”, diz o professor Jackie Pigeaud, da Universidade de Nantes, França, conhecido por seus estudos sobre a história do pensamento médico. Pacientes com depressão clínica devem buscar ajuda e procurar se tratar, mas ficar triste ou ter alterações de humor não deve ser motivo de vergonha. Como diz Pigeaud: “Anormal é não sofrer nunca e estar sempre contente”.

Para saber mais

Tristeza Maligna, de Lewis Wolpert

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Flores do mal, de Charles Baudelaire

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