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Macaco-prego: um gênio da selva

Ele trabalha em troca de salário, investe em amizades certas e adula o chefe. O primata mais habilidoso das Américas é um prodígio de inteligência emocional

A cena é digna de filme. Uma fêmea de macaco-prego, carregando um filhote nas costas, é atacada por outros membros do bando. Desesperada, começa a gritar por socorro. Do meio das árvores surge um macho heróico que a ajuda a se livrar da encrenca. E ele não é sequer o pai do bebê. Simplesmente um amigo.

A etóloga Patrícia Izar Mauro, da Universidade de São Paulo (USP), ficou espantada quando presenciou o salvamento, em 1999, num parque estadual paulista. Mas o gesto do macho, apesar de nobre, não foi de todo desinteressado. Dando uma mão à amiga, o esperto macaquinho estava investindo no próprio futuro. O bom-mocismo é uma forma de chamar a atenção das outras fêmeas do grupo. “A amizade com alguém do sexo oposto mostra que ele pode ser um bom companheiro e um bom pai”, conta a pesquisadora, que acaba de concluir uma tese de doutorado sobre o assunto.

Os estudos de Patrícia e de outros cientistas têm revelado, nos últimos anos, que os macacos-prego não são apenas os primatas mais habilidosos das Américas, mas possuem uma incrível capacidade de se relacionar em grupo. Dois macacos podem se aliar contra um terceiro. Eles sabem se aproximar do chefe do bando em troca de proteção ou comida. “Eles percebem muito bem as relações de status entre os integrantes do bando e escolhem as amizades certas”, diz Patrícia. Essa inteligência emocional era considerada exclusividade dos macacos mais evoluídos, como o babuíno e o chimpanzé, ambos africanos. Agora não é mais. O macaco-prego entrou nessa elite. “Nenhum outro primata americano tem uma organização social tão complexa”, afirma a etóloga.

Um trabalho publicado este ano pelo primatologista holandês Frans de Waal, da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, mostra a que ponto essas relações podem chegar. De Waal pôs dois macacos-prego em uma jaula, separados por uma tela. Para conseguir um prato de comida que ficava em cima de uma tábua, eles precisavam puxá-la juntos para dentro da jaula. Só que apenas um podia ter acesso ao prato. Rapidamente estabeleceu-se um acordo: aquele que alcançava o petisco comia e depois o passava ao companheiro. “Na selva eles cooperam em caçadas”, afirma De Waal. “Atuando juntos, dividem o que conseguirem no fim.” Trabalho de equipe, bem remunerado.

Apetite favorece a inteligência

Quando se fala em bicho inteligente, a primeira palavra que vem à cabeça é o chimpanzé. Não é para menos. Parente mais próximo do homem, esse macaco africano consegue aprender por observação, usar ferramentas e se reconhecer no espelho.

Os macacos-prego pertencem a um grupo menos evoluído de primatas, o dos macacos do Novo Mundo. Apesar da distância, são muito mais parecidos com seus primos de terceiro grau da África do que com seus conterrâneos, como o macaco-aranha e o muriqui. “Eles podem andar sobre duas patas e também são perfeitamente capazes de aprender por observação”, ressalta o etólogo Eduardo Ottoni, da Universidade de São Paulo.

As razões desse desenvolvimento cognitivo só começaram a ser compreendidas muito recentemente. Duas delas são fisiológicas. A primeira é o tamanho do cérebro, proporcionalmente maior nesses micos do que nos outros macacos americanos. A outra é o chamado polegar pseudo-opositor, que dá uma destreza enorme ao animal. Ele consegue pescar, abrir latas e frutas e escavar a terra movido pelo ímpeto de encontrar comida.

O apetite insaciável, aliás, é marca registrada dos espertos macacos-prego. Onívoros de carteirinha, eles são capazes de procurar comida nos lugares mais improváveis (veja quadro ao lado). Para comer coquinhos, seu prato preferido, usam uma ferramenta: ajeitam o fruto cuidadosamente numa pedra e jogam uma outra em cima, com força. Se não houver frutas nem insetos à mão, eles mudam a dieta e podem atacar plantações ou mesmo assaltar casas.

Foi isso o que aconteceu em Fernandópolis, interior de São Paulo, em fevereiro de 1999. A população da cidade entrou em pânico com uma misteriosa quadrilha que aproveitava a ausência dos moradores para roubar comida. O caso foi resolvido em março, quando a Polícia Florestal prendeu, em flagrante, um bando bem organizado de 55 micos assaltantes. Os coitados haviam sido soltos numa mata na vizinhança da cidade, depois que o zoológico municipal fechou, e estavam com fome. Tiveram de apelar para o crime.

A sociedade dos micos também é mais democrática que a média. Os outros primatas normalmente se organizam em torno de um macho dominante que controla o abastecimento do grupo. Entre os macacos-prego o poder é diluído. “Não existe um único líder no bando. As chefias são formadas por até três animais”, diz Eduardo Ottoni. Os mandachuvas dividem a própria comida com os seus subordinados.

“São os únicos, além do homem e do chimpanzé, capazes de partilhar alimento”, observa Ottoni.

Sem precisar disputar o coquinho de cada dia a mordidas, sobra tempo para atividades sociais e para cultivar amizades. Com relações tão complexas, o macaco-prego só podia mesmo ser um sujeito muito esperto.

Nome popular: macaco-prego

Ordem: primata

Nome científico: Cebus apella

Hábitat natural: florestas tropicais

Longevidade: 40 anos

Gestação: seis meses

Peso adulto: 1 a 3 kg

Distribuição: América Latina

Cata piolho

Retirar parasitas dos companheiros é um dos passatempos favoritos do prego. Esse acarinhamento libera endorfinas, substâncias químicas que ajudam a relaxar

Filhinho da mamãe

Os filhotes nascem depois de seis meses de gestação. Passam até um ano e meio grudados nas costas da mãe

Líder discreto

Os líderes de um bando de macacos-prego não são facilmente identificáveis. Ao contrário do que acontece com a maioria dos primatas, a chefia pode ser exercida por mais de um animal

Grupo numeroso

O tamanho de um bando de macacos-prego aumenta de acordo com a quantidade de comida disponível. Em cativeiro, um grupo pode ter cinquenta indivíduos

Parceria lucrativa

Os primatas normalmente brigam por comida. Os macacos-prego cooperam e dividem entre si o resultado da busca

Cavalheiro gentil

Por pura amizade, o macho amigo dá comida na boca da fêmea, que carrega o filhote nas costas

Decifrador em ação

Para pegar o amendoim guardado na caixa, este animal precisou adivinhar a sequência correta de abertura dos três ferrolhos. E conseguiu

Tecnologia animal

O líder dos macacos-prego do zoológico de Goiânia, conhecido como Hulk, descobriu como pescar com isca. Ele agita uma banana na beira da lagoa do zôo, à espera de um peixe distraído. Então agarra sua vítima e a divide com o resto do bando. Outros macacos tentaram aprender a técnica, mas não conseguiram

Algo mais

O nome popular do macaco-prego (Cebus apella) vem do formatodo seu pênis, que tem a glande achatada como a cabeça de um prego. Ele é um ótimo mico de circo. Sua inteligência se presta direitinho ao aprendizado de truques engenhosos.

Macaco-praga

Quem já teve um contato imediato com um macaco-prego sabe que não dá para dar bobeira. Colares, relógios, bolsas e tudo o mais que estiver ao alcance será surrupiado. Sem direito a resgate. “Nada escapa à curiodidade deles”, conta a etóloga Patrícia Mauro, da Universidade de São Paulo. “Uma vez um macaco quebrou o meu cronômetro para ver se tinha comida dentro.” Nos zoológicos, os bichos sabem identificar um pacote de salgadinhos e preferem refrigerantes a água. Em Goiás, a fama de arteiro valeu ao macaco-prego o apelido de macaco-praga. “Eles destelham casas e atacam plantações de milho, às vezes por pura pirraça”, conta a bióloga Rackel Balestra, da Universidade Federal de Goiás. “Conseguem pegar até sete espigas cada um.” Imagine o estrago que um bando organizado de vinte ou trinta animais pode fazer. No Departamento de Biologia da faculdade, em Goiânia, ninguém mais tem sossego. Há alguns anos, os professores começaram a dar comida aos micos que iam passear no departamento e eles se acostumaram. Identificaram os benfeitores e passaram a bater nas janelas das suas salas quase todo dia. Bem-feito. Quem mandou facilitar?