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Maias construíram o primeiro sistema de filtração de água do Ocidente

O bisavô do filtro de barro: na cidade de Tikal, a água da chuva passava por minerais porosos antes de ser armazenada.

Por Bruno Carbinatto 12 nov 2020, 19h06

Conhecidas por seus templos e palácios, as ruínas da cidade de Tikal, no interior da Guatemala, são hoje consideradas Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Séculos atrás, o local serviu como centro político e cultural da civilização maia, que se estendia por grande parte da América Central. E foi lá que, segundo um novo estudo, o primeiro sistema de filtração de água do hemisfério ocidental foi inventado.

A descoberta foi feita por arqueólogos que escavaram diversos reservatórios de água da região nos últimos anos. O maior deles, chamado Corriental, curiosamente, apresentava uma água com muito menos impurezas e contaminação de coisas como coliformes fecais, metais pesados e algas que produzem toxinas do que os outros reservatórios menores espalhados pela cidade. 

Uma análise mais próxima revelou fragmentos microscópicos de zeólitos nos sedimentos do fundo do reservatório. Zeólitos (ou zeólitas) são minerais vulcânicos com estrutura extremamente porosa que funcionam como uma “peneira”: a água líquida consegue passar por seus poros minúsculos, enquanto impurezas como metais e até micróbios ficam retidos neles. Esse material é usado até hoje para filtrar líquidos, incluindo água potável.

  • Acontece que, na região de Tikal, não há ocorrência natural de zeólitos – o local mais perto que contém o material fica a cerca de 30 quilômetros da cidade. Isso indica que os maias propositalmente transportaram esse mineral de locais distantes para depositá-lo nos reservatórios – criando assim o primeiro sistema de filtração de água do Ocidente de que se tem notícia. A equipe estima que o reservatório tenha ficado ativo entre 200 a.C e 1100 d.C, ou seja, desde o fim do chamado período pré-clássico da civilização maia até o fim do período clássico.

    Caminho das águas

    Os resultados, publicados na revista Scientific Reports, contradizem a ideia comum entre arqueólogos de que as civilizações americanas pré-colombianas não possuíam sistemas complexos de filtração de água. De fato, isso até pode ser verdade para outros povos do continente: os astecas, por exemplo, obtinham água pura diretamente de nascentes, e construíram um complexo e famoso sistema de aquedutos para transportar o líquido até sua enorme capital, Tenochtitlán. Os incas também construíram aquedutos em menor escala, que traziam água limpa das montanhas para suas cidades na América do Sul. Outras tribos e civilizações menores pelas Américas também obtinham água de fontes naturais permanentes (rios, lagos). Quando era necessário algum tipo de purificação, optavam por ferver o líquido.

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    Com os maias, a história é outra. Tikal floresceu em um local de mata fechada, longe de corpos permanentes de água, como rios e lagos. Mesmo assim, conseguiu se manter por mais de mil anos e, em seu auge (por volta de 700 d.C), abrigava dezenas de milhares de pessoas. Para saciar a sede dessa gente em épocas de seca, era necessário construir reservatórios por toda a cidade para armazenar a água da chuva.

    Infelizmente, os detalhes do sistema de filtração não ficaram preservados na história. Os pesquisadores especulam, porém, que o processo funcionava graças à pavimentação das várias praças do local. Com isso, a água da chuva escorria para canais que levavam aos reservatórios – algo parecido com o que acontece hoje com o escoamento para os esgotos e bueiros, ainda que em menor escalar.

    É provável que, em pelo menos uma das entradas do reservatório, houvesse camadas de rochas contendo zeólitos, e a água passava por ele antes de ser depositada. De tempos em tempos, esses minerais iam se desgastando e sendo quebrados pelo fluxo da água, e por isso acabavam indo para o fundo dos reservatórios. Até então, acreditava-se que o uso de zeólitos para filtrar água tinha começado só milênios depois, já no século 20.

    Outras formas de filtração, porém, precederam a técnica maia em diferentes culturas do outro lado do mundo. Egito, Grécia e China, por exemplo, utilizavam diferentes meios para purificar água, como areia, cascalho e plantas, mas as datas exatas do surgimento dessas práticas não são precisas. Mas tudo indica que essas técnicas eram menos complexas (e efetivas) que a dos maias.

    O sistema de filtração por minerais é apenas mais uma tecnologia usada pelos maias. A civilização possuía arquitetura de ponta, conhecimentos avançados de astronomia e matemática e técnicas complexas de escultura. É seguro afirmar que eles não sabiam das propriedades microscópicas do zeólitos, é claro, mas é provável que observaram na prática que a água que os atravessava ficava mais pura.

    Infelizmente, Tikal caiu há cerca de mil anos, por razões ainda não totalmente compreendidas. Os historiadores acreditam que a população cresceu demais, e a agricultura local e os reservatórios de água não deram conta de abastecer todo mundo. Além disso, a cidade estava em um estado de guerra constante com povos vizinhos e rivais.

    E, por mais irônico que pareça, a contaminação da água  pode também ter levado a cidade ao seu fim. O sistema de filtração descrito aqui foi encontrado apenas em um dos principais reservatórios, o Corriental – o restante não usava a tecnologia, ou, se usava, deixou de aplicá-la em algum momento. A mesma equipe de pesquisadores descobriu que, no período analisado, vários dos reservatórios tinham alto níveis de mercúrio, cianobactérias, algas tóxicas e outras substâncias que podem ter envenenado a população. 

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