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Meio sapiens, meio neandertal

Os ossos de uma criança achados em Portugal sugerem que ela era filha de duas espécies distintas - duas humanidades com corpos e culturas diferentes, habitantes da Terra há 30 000 anos.

Denis Russo Burgierman

Tente se imaginar na Pré-História, em um grupo de homens e mulheres usando peles de animais, empunhando lanças de madeira, de olho atento no horizonte, à espreita de algum animal que possa ser transformado em almoço. Você e seus amigos rumam para o norte, mais frio, porque ao sul, onde é hoje a África, já há gente demais e a comida escasseia. Nenhum conhecido seu jamais havia pisado ali.

Então, surge à sua frente um ser fora do comum. Uma espécie nunca vista. Ele e seus companheiros estão adornados mais ou menos como você, mas, ao contrário de todos os outros homens que você conhece, os estranhos não são negros – eles têm a pele muito branca. Também são baixos, com braços e pernas incrivelmente fortes, crânio grande e mandíbula larga.

Cenas como essa provavelmente começaram a acontecer há uns 100 000 anos, primeiro no Oriente Médio e mais tarde na Europa. Elas colocaram frente à frente, pela primeira vez, as duas espécies humanas que à época habitavam a Terra – o Homo sapiens, que é o homem atual, e o Homo neandertalensis, extinto cerca de 20 000 anos atrás.

O primeiro mulato

A essa altura, você faz uma idéa do susto provocado por esses contatos iniciais. Mas nem os pesquisadores poderiam supor que, em seguida, até casamento entre as duas estirpes teria rolado. O primeiro indício de um possível enlace entre as espécies foi anunciado em junho passado pelo arqueólogo João Zilhão, presidente do Instituto Português de Arqueologia, e pelo paleoantropólogo americano Erik

Trinkaus, da Universidade Washington, em Saint Louis, Estados Unidos. Os dois cientistas divulgaram a descoberta de uma criança de 4 ou 5 anos, morta há cerca de 25 milênios. Ela tinha a mandíbula delicada e os dentes pequenos, traços típicos dos sapiens, os negros altos, com 1,75 metro, da reunião imaginária descrita acima. Mas os ossos dos seus braços e pernas eram surpreendentemente grossos e curtos, como os dos neandertais, os brancos baixinhos, com 1,65 metro, presentes naquele episódio.

Essa mistura de traços, para Zilhão, significa que o garoto português foi um híbrido de sapiens com neandertal, o primeiro mulato pré-histórico já encontrado. Se for verdade, será uma reviravolta na idéia de que os nossos ancestrais levaram os bandos de pele clara à extinção. É até possível que, depois de se conhecer, eles tenham passado a competir por comida . Mas já não se pode descartar a possibilidade de os encontros do passado terem produzido mais amigos do que inimigos.

drusso@abril.com.br

Algo mais

O primeiro esqueleto de neandertal foi encontrado em 1856, no vale do Rio Neander, Alemanha. O nome do fóssil veio daí, pois a palavra vale, em alemão, se escreve tal. Tinha traços tão grosseiros que, em vez de Homo neandertalensis, por pouco não foi batizado de Homo stupidus (homem estúpido, em latim).

Os ossos de uma criança agitam a ciência

No dia 6 de dezembro de 1998, o arqueólogo João Zilhão percebeu que estava diante de um achado importante assim que bateu os olhos no esqueleto da criança acidentalmente desenterrado por um trator perto da cidade de Leiria, em Portugal. No mesmo dia, mandou um e-mail para o escritório do amigo Erik Trinkaus, em Saint Louis, Estados Unidos. Trinkaus é quem mais entende da anatomia neandertal, enquanto Zilhão, grande especialista na cultura dessa espécie, nada conhece de ossos. Uma semana mais tarde, o americano estava com a passagem na mão e no começo de janeiro desembarcou na Europa para examinar a criança. Foi ele quem percebeu que o menino podia ser uma prova da mistura entre neandertais e sapiens no passado.

Respostas à altura

Essa conclusão, publicada na revista americana Procedimentos da Academia Nacional de Ciências, provocou rebuliço na comunidade científica. Na mesma edição da revista, outro figurão da paleontologia, Ian Tattersall, do Museu de História Natural de Nova York, desceu a lenha na pesquisa. Para ele, os braços e as pernas robustas do garoto não provam que ele tivesse sangue neandertal. Poderia ser só um sapiens que ficou mais atarracado ao se adaptar ao frio, já que, quanto mais curtos os membros, menor é a área de pele exposta ao ar gelado. O americano Daniel Lieberman, da Universidade George Washington, acredita na mudança anatômica do sapiens devido ao clima. “Portugal estava no auge da glaciação naquele tempo”, disse.

Mas Trinkaus responde à altura. “O artigo de Tattersall é uma compilação de erros de interpretação, lógica incorreta e desconhecimento de Anatomia”, vociferou à SUPER. Ele rejeita a tese da adaptação glacial afirmando que os traços do garoto são completamente diferentes de qualquer outro esqueleto de sapiens conhecido.

Diversos pesquisadores elogiaram a competência dos descobridores, mas fizeram ressalvas. É o caso do inglês Christopher Stringer, do Museu de História Natural de Londres. Para ele, os sapiens eliminaram os neandertais, posição que tende a afastar a possibilidade de casamento entre as espécies. Mesmo assim, Stringer reconhece que o achado português pode ser muito importante. “Mas, antes de afirmar que houve híbridos, será preciso achar mais evidências”, acrescenta.

O inglês Bernard Wood, colega de Lieberman na Universidade George Washington e um dos maiores conhecedores de ossos humanos, vai na mesma linha. “Trinkaus é uma voz que deve ser ouvida”, concede. “Mas a hipótese não é razoável. Em qualquer população há crianças maiores e menores. Isso não prova que sejam espécies diferentes.” No Brasil, o paleoantropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, acrescenta que é difícil tirar conclusões de um esqueleto de criança. “Como estava em formação, ainda mudaria muito”, diz.

Trinkaus não se abala. Primeiro responde a Wood reiterando que os ossos da criança são bem maiores que os de qualquer outro sapiens conhecido, com a mesma idade. Justifica-se a conclusão de que pertenceram a um híbrido. Quanto à observação de Neves, Trinkaus lembra que não mediu apenas o tamanho absoluto dos ossos. “Consideramos também a proporção entre eles, que é estabelecida antes mesmo do nascimento e daí para a frente não muda mais.” Como se vê, as critícas podem ser pesadas, mas os descobridores do garoto pré-histórico estão bem preparados para enfrentá-las.

Híbridos por aqui também

Os paleoantropólogos brasileiros estão à procura de seus próprios híbridos. Seriam filhos de cruzamentos entre duas variedades de Homo sapiens bem diferentes uma da outra que teriam vindo da Ásia para a América em duas ondas migratórias. Essa hipótese foi levantada no ano passado por Walter Neves, da Universidade de São Paulo. Para Neves, os esqueletos americanos com mais de 7 000 anos representam a primeira leva de migrantes e as ossadas mais recentes, a segunda. Ele acredita que não há parentesco entre os dois tipos de sapiens e está atrás de fósseis com características combinadas, possivelmente gerados pela união dos dois grupos.

Acuados na pontinha da Europa

O português João Zilhão acha que não foi acaso o suposto esqueleto híbrido ter aparecido justamente em Portugal. “Por que o Brasil existe?”, perguntou ele ao falar à SUPER por telefone. “Porque os portugueses, como não tinham mais aonde ir, atravessaram o mar.” Os neandertais, segundo o cientista, teriam ficado na mesma situação quando os sapiens entraram na Europa, há uns 40 000 anos. “Apertados na borda do Oceano Atlântico, não tiveram outra saída senão interagir com os recém-chegados”, conclui o arqueólogo. “Os encontros podem ter sido violentos, mas também podem ter levado à miscigenação.”

Esse raciocínio contraria a posição dominante entre os cientistas. A maioria aceita a idéia de que o neandertal se extinguiu em confronto com o sapiens. Eles teriam desaparecido aos poucos, em conseqüência da competição por comida e por recursos naturais. Essa tese ganhou força, há dois anos, com uma análise feita por pesquisadores da Universidade de Munique. Eles extraíram um pedaço de DNA, conservado em um osso de neandertal e verificaram que os genes eram muito diferentes dos nossos.

Isso tornou muito remota a possibilidade de parentesco conosco.

Mas Zilhão e Trinkaus estão contrapondo a esse indício genético uma evidência anatômica – o esqueleto da criança achada em Portugal. A se confirmar que ela era híbrida, talvez os sapiens e os neandertais não tivessem sido muito diferentes uns dos outros. Trinkaus acredita que, mesmo pertencendo a espécies diferentes, eles podem ter gerados filhos comuns. Com isso, os homens da Europa seriam o resultado de uma mistura genética antiqüíssima.

Duas cabeças

Trata-se de um perspectiva radical, já que as duas humanidades eram inteiramente alheias entre si. “As diferenças entre eles não se comparam com as que existem entre um pigmeu e um esquimó; eram muito maiores que isso”, conta, fascinado, Walter Neves, explicando que os dois tipos humanos nem pensavam da mesma maneira. “Eles provavelmente não tinham uma estrutura mental semelhante.” O cientista chega a comparar o mundo daquele tempo ao célebre bar do primeiro filme do seriado Guerra nas Estrelas, do diretor George Lucas. “Lá se viam os seres mais diversos, e a Europa habitada por duas espécies humanas devia ser mais ou menos assim, há uns 30 000 anos.”

Por tudo isso, é um desafio defender a hipótese dos cruzamentos. Mas Zilhão insiste que ela faz sentido porque, segundo ele, os habitantes da Pré-História sempre procuravam parceiros fora de seus bandos. Com isso, “importavam” genes de outros grupos, o que ampliava as chances de sobrevivência da população, protegendo-a de epidemias.

Seguindo essa lógica, fica mais fácil conceber os casamentos de sapiens com neandertais. Mas não é só isso. Zilhão também cita evidências recentes de que as duas espécies teriam inteligência equivalente. Assim, a arte neandertal teria sido tão desenvolvida quanto a dos sapiens. Junto com o italiano Francesco D’Errico, da Universidade de Bordeaux, na França, Zilhão encontrou lanças e colares feitos de ossos pelos neandertais, antes da chegada dos sapiens. Esses objetos revelam um estilo e uma técnica bem desenvolvidos e que não tem nada a ver com a dos seus vizinhos.

Há quem duvide dessa capacidade técnica, como o inglês Paul Mellars, da Universidade de Cambridge. Cético, ele disse à SUPER que as diferenças indicam apenas que “os neandertais estavam copiando os sapiens a distância”. Mesmo Mellars, porém, já não duvida que eles eram capazes de produzir cultura e que nossos ancestrais os teriam visto como humanos. Estranhos, mas humanos. Daí para os homens de uma espécie conhecerem as mulheres da outra, segundo a lógica de Zilhão, teria sido só um pulo.

Para saber mais

Evolução Humana, Roger Lewin, Ateneu Editora, São Paulo, 1999.

Já viu um destes?

Imagine um neandertal de cabelos cortados, barba feita e roupas alinhadas. Foi o que fez o cartunista Carleton Coon em 1957, numa bem-sucedida tentativa de mostrar que eles não eram tão estranhos quanto pareciam.

O grande encontro

Esta cena aconteceu na Pré-História. Depois do estranhamento inicial, os dois grupos se aproximaram e podem ter gerado filhos.

Ouvido fino

Em 1997, achou-se na Eslovênia um fêmur de urso com furinhos posicionados de um jeito que lembra a escala de uma flauta. Com pelo menos 45 000 anos, ela teria pertencido a um neandertal.

Bons artesãos

Já se conhecem adornos neandertais feitos de pedras e ossos há mais de 40 000 anos. Os artefatos comprovam que a cultura deles era tão refinada quanto a do nosso ancestral.

Sociedade articulada

Os bandos nômades dos primeiros Homo sapiens seguiam normas claras. Homens e mulheres sempre procuravam parceiros em outros grupos, como se vê, ainda hoje, em muitas tribos indígenas.

Maestria técnica

A superioridade tecnológica das armas, é apontada como a grande vantagem dos sapiens sobre os neandertais. A questão é polêmica, já que os neandertais também tinham lanças.

Os traços característicos de um mestiço jovem

Veja as peças do esqueleto que parecem resultado da mistura de espécies.

1. Os dentes eram delgados e frágeis, típicos da nossa espécie. Os do neandertal eram pesados e fortíssimos, presos a uma mandíbula poderosa.

2. O braço lembrava o dos neandertais, com resistência suficiente para levantar e arremessar grandes pedras

3. As tíbias são como a dos neandertais, mais curtas e grossas que as nossas.

4. O crânio estava em cacos e não pôde ser medido. Seria um detalhe importante, pois o do neandertal é maior que o dos sapiens.

A razão da discórdia

Ano passado, um trator passou em um sítio no interior de Portugal, e seu peso desbarrancou o terreno. O acidente expôs este esqueleto, talvez o fruto da mistura de duas espécies, ambas humanas.

Invasão da Europa

Sapiens e neandertais surgiram mais ou menos ao mesmo tempo. Mas o mundo era pequeno demais para os dois

Um no caminho do outro

1. Enquanto os neandertais surgiam, provavelmente há mais de 300 000 anos na Península Ibérica…

2. …os sapiens estavam aparecendo no sul da África. As duas espécies estavam tão bem adaptadas que se multiplicaram pelos respectivos continentes.

3. Há 100 000 anos, o expansionismo confrontou as duas no Oriente Médio, um lugar propício para choques culturais pela sua posição estratégica entre os continentes.

Cantinho da Europa

1. Há 40 000 anos, o crescimento populacional dos sapiens forçou uma maior expansão. Na mesma época, eles provavelmente alcançaram uma vantagem tecnológica e puderam entrar na Europa.

2. Portugal deve ter sido o último refúgio neandertal, há uns 28 000 anos. Se houve híbridos, esse é o lugar para procurar seus descendentes.

Cabeça grande

O crânio deles é um pouco maior que o nosso.

Será que tamanho é sinal de inteligência? Para os cientistas, não haveria comparação, pois os neurônios funcionariam de outra maneira e seus processos mentais seriam diferentes dos nossos.

Neandertal volume craniano: 1,45 litro

Sapiens volume craniano: 1,35 litro

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