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Mulher custava caro:mercado de esposas

Quando a poligamia reinava, mulher custava caro. Veja como essa atividade econômica nasceu. E onde ela ainda não morreu.

Texto Alexandre Versignassi

A moça está com um problema. O marido comprou um monte de mulheres e ficou endividado até o pescoço. Pior: ela mesma tinha sido vendida para ele, só que a prazo. E agora o homem não consegue quitar as parcelas. Se ele não conseguir pagar o que falta para o pai dela, vai ter de devolver a garota. E a coitada vai voltar para o mercado como um produto de segunda mão: “Ai, ai. Só um velho seboso vai querer me comprar…”, choraminga.

Mas o maridão não se faz de rogado: pega e dá a irmã dele como pagamento da dívida. E todos vivem felizes para sempre. Principalmente o sogro. Agora que ele ganhou uma mulher tinindo de nova, pode garantir a aposentadoria vendendo as filhas que fizer com ela. Com o dinheiro, ainda vai ter como comprar esposas para seus filhos homens e, quem sabe, virar um grande patriarca, com mais netos que um coelho.

Esse talvez não seja seu projeto de vida, caro leitor. Muito menos o seu, cara leitora. Mas histórias parecidas com essa aí já aconteceram várias vezes. Mais de 80% das sociedades permitiram que os homens tivessem o número de esposas que bem entendessem. Em praticamente todas essas culturas, as garotas tinham preço, eram uma mercadoria. E ainda são em alguns lugares: hoje há 27 países em que pelo menos 10% dos homens são casados com mais de uma mulher, e pagam por elas. É como se a poliginia – a coisa de um homem casar com várias mulheres – fosse parte da natureza humana. E é mesmo.

Instinto selvagem

Ganha quem deixar mais descendentes. Essa é a regra do jogo da evolução biológica. Para os machos, então, o negócio é ter várias parceiras sexuais. Mas o impulso instintivo por fecundar qualquer fêmea que consinta não basta para realmente deixar vários filhos no mundo. Se um bicho qualquer leva uma vida sexual de galho em galho, a chance de que sua prole não vingue é maior, já que ele nunca vai estar por perto para proteger a ninhada. Um dos jeitos de evitar isso é a monogamia. Com o pai e a mãe sempre por ali, a possibilidade de que os pimpolhos sobrevivam é maior. Mas tem uma forma mais produtiva de investir nos descendentes, pelo menos do ponto de vista dos machos: viver com mais de uma esposa. É o que os leões e os gorilas fazem. E foi o que o Homo sapiens fez. Os homens sempre tentaram monopolizar o maior número possível de mulheres. Só tinha um problema: a concorrência com os outros machos. Então o privilégio de ter um pequeno harém sempre foi coisa para poucos. “Os ricos tinham mais de uma esposa; zés-ninguém não tinham nenhuma”, diz o neurocientista Steven Pinker, especializado em comportamento humano, em seu livro Como a Mente Funciona. E isso já acontecia bem antes de existir dinheiro. Por exemplo: os índios ianomâmis vivem do mesmo jeito que as primeiras sociedades humanas, à base da caça e da coleta. Não há ricos nem pobres lá, mas os líderes e os guerreiros mais sanguinários são temidos. Então vivem com mais mulheres – e ai de quem pedir uma emprestada.

Quer pagar quanto?

Com a invenção da agricultura, há uns 9 mil anos, o comércio se estabeleceu em alguns cantos do planeta. E a desigualdade econômica também. Nesse ambiente novo, os donos de grandes extensões de terra juntaram uma quantidade de riquezas com que nenhum ianomâmi poderia sonhar. E para um sujeito desses arregimentar esposas era bem mais simples que para um caçador-coletor: bastava ir comprar.

Pois é: numa sociedade desequilibrada até as últimas, em que meia dúzia tem tudo e a maioria vive à beira da fome, meninas são um dos poucos bens cobiçados que as famílias pobres têm como produzir. Daí a surgir um mercado de noivas para atender aos instintos dos abastados é um pulo.

Mais: a demanda por mulheres é grande, já que sempre houve consumidores dispostos a comprar tudo o que tivesse na praça. E o que acontece quando a demanda é maior que a oferta?

Isso mesmo: inflação. O preço das garotas sobe. Vender filhas virou um investimento de alto retorno. Consumidores e comerciantes ficaram satisfeitos. E o mercado de esposas se firmou.

Alguns povos de hoje que pararam no tempo dão uma idéia de como a coisa funcionava há milhares de anos. É o caso da tribo lowiili, que vive no norte de Gana, na África. Lá você pode levar hoje mesmo uma mulher novinha por 350 conchas. Mas não fica nisso: ainda sobra uma dívida de 3 vacas, uma cabra e mais 20 mil conchas, que deve ser quitada em alguns anos – senão a mulher volta para a casa dos pais para ser vendida de novo. Não tem boi.

E não é para ter mesmo. Nas sociedades que fazem esse tipo de comércio, o dinheiro que um pai levanta com a venda das filhas costuma ter um propósito crucial: comprar esposas para os filhos (ou para ele mesmo). Senão, os varões morrem solteiros, e o clã vai para o espaço.

Mas e se você, leitor, vivesse sob uma cultura dessas e fosse pobre? Bom, você poderia fazer como o Jacó da Bíblia. Ele se engraçou pela “bela e amável” Raquel, filha de Labão, um sujeito próspero. Sem um gato para puxar pelo rabo, nem bois, cabras, trigo ou irmãs para pagar pela mão da moça, ofereceu a única coisa que tinha: o braço. Ele acertou com Labão que trabalharia nas terras dele por 7 anos pelo direito de casar com Raquel. Só que o velho, malandro, trocou a filha por outra, a feinha Léa, na hora do casamento. E Jacó teve de trabalhar outros 7 anos para levar a mulher que amava. Mas no fim se deu bem: além de Raquel e Léa, ganhou mais duas esposas como brinde. E, com as 4, segundo a mitologia do Velho Testamento, ele formaria uma bela prole de 70 descendentes, entre filhos e netos.

Mas claro que esse estava longe de ser um caso típico. “Onde reina a poliginia, o destino de um homem pobre costuma ser a morte ou o celibato”, diz a antropóloga americana Laura Betzig, especialista no assunto. É que, além de suportar a concorrência feroz de senhores de terras que monopolizam quase todas as garotas, ele ainda tem de lidar com a indiferença das próprias mulheres.

Essa, aliás, é a conclusão à qual outra antropóloga, a americana Monique Bogerhoff, da Universidade da Califórnia, chegou depois de estudar um povo de pastores do Quênia, os kipsigis. Entre eles, a vontade das garotas tem peso na hora de escolher o marido – como aconteceu em várias culturas políginas do passado. Mesmo assim, 13 das 29 mulheres que se casaram no período em que Monique fez seu estudo preferiram laçar os dois homens que tinham mais terras. Quer dizer: para elas vale mais a pena dividir as riquezas de um marido abastado com um pelotão de esposas do que levar uma vida monogâmica com um sujeito pobrezinho.

Bom, quando a diferença de status entre os pretendentes é grande desse jeito, nenhuma mulher do planeta escolheria diferente. Pelo menos segundo Laura Betzig: “Você preferiria ser a esposa número 3 de John Kennedy ou casar com o Bozo?”

Pois é. Mas os “bozos” da história nunca gostaram de fazer papel de palhaço. Quando a poliginia corria solta, a pressão sobre os homens comuns era absurda: ou você tinha várias esposas ou morria sem nenhuma. Em lugares com déspotas que chegaram a manter até 1 000 garotas para uso exclusivo, a escassez era inevitável. E a briga pelas poucas mulheres que sobravam colocava os índices de violência lá em cima.

O que fazer para evitar o colapso num caso desses? Vários soberanos encontraram a resposta.

A única possível: banir a poliginia. Com a proibição, os ricos tinham de se limitar a uma esposa, e sobrava mais mulheres no mercado para a patuléia. “A monogomia legal é historicamente um acordo entre homens mais e menos poderosos; não entre homens e mulheres. Líderes tomaram essa medida quando precisaram que seus súditos enfrentassem um inimigo em vez de combaterem uns aos outros”, diz Pinker. Por esse ponto de vista, não é coincidência que as duas culturas mais bem-sucedidas da Antiguidade, a grega e a romana, tenham incentivado a monogamia. Outra instituição que se deu bem ao optar por esse caminho foi o cristianismo. Pinker explica: “No começo, ele atraía homens pobres porque a promessa de monogamia os mantinha no jogo do casamento”. Pronto. Daí para o modelo papai-e-mamãe ganhar o Ocidente foi um pulo.

Mas não fica nisso. Pesquisas recentes indicam que a poliginia só foi realmente para o espaço por um motivo mais pragmático: a economia.

Tudo por dinheiro

A gente viu agora há pouco: sem a poliginia, o número de mulheres no mercado cresce. Mas aí, se a quantidade de garotas em idade para casar for maior que a demanda por esposas, o que acontece? O valor das mocinhas casadoiras cai. Desaba até chegar ao que os economistas chamam de “preço negativo”. E elas precisam “pagar” para arranjar um marido. Daí o hábito que a gente conhece bem: a família da noiva oferece um dote ao pretende.

Desse jeito, investir na venda de filhas deixa de ser negócio. Aí não tem jeito: as famílias precisam arranjar novas fontes de renda, seja aumentando a produtividade agrícola, vendendo artesanato ou o que for. Esse impulso, no fim das contas, faz a economia crescer. E todo mundo sai ganhando.

É isso que diz uma teoria criada em 2004 pela economista Michèle Tertilt, da Universidade Stanford. Ela também argumenta que, além de fomentar investimentos, a monogamia diminui o crescimento populacional em pelo menos 40% – se não dá mais para fazer dinheiro vendendo filhas, o ideal é não engravidar com tanta freqüência. Com menos crianças para onerar o bolso, sobra mais ainda para investir. E aí vem o milagre do crescimento: “Meus cálculos mostram que, com a imposição da monogamia, o acúmulo de capital sobe 70% e a renda per capita aumenta 170%”, diz em seu artigo acadêmico Polygyny, Fertility and Savings (“Poliginia, Fertilidade e Economias”, inédito em português). Isso ajuda a explicar um fato: os 27 lugares com índices altos de poliginia hoje são nações paupérrimas da África. Há mais 17 países onde ela é praticada, todos do mundo árabe, já que o islamismo permite casar com até 4 mulheres. Mas só uma parcela ínfima do povo embarca nessa – geralmente a fatia menos educada.

Mas e aí? Quer dizer que, pelo menos no resto do mundo, esse comportamento foi varrido de vez? Para alguns especialistas não. Eles consideram que hoje existe uma nova espécie de poliginia: a “monogamia em série”. É o caso de homens cobiçados (leia-se ricos) que se divorciam a cada 10, 20 anos, sempre trocando a mulher antiga por uma zero-quilômetro. As revistas de fofoca estão aí para comprovar. E vários estudiosos interpretam isso como uma forma velada de comprar esposas. Mas tem outra: boa parte das mulheres que conseguem se manter atraentes depois da menopausa tem feito exatamente a mesma coisa. Chegou a hora de elas darem o troco?

Cadê os dois maridos da Dona Flor?

A poliginia foi tão comum ao longo da história que até virou sinônimo de poligamia – palavra que serve tanto para homens quanto para mulheres com mais de um cônjuge. Quando alguma Dona Flor tem dois (ou mais) maridos, o que a gente tem é um caso de poliandria. Mas esse comportamento é tão pouco usual quanto a palavra que o designa. Só acontece de vez em nunca, e em lugares inóspitos, onde um homem não tem como sobreviver sem a ajuda de uma mulher, como partes da Groenlândia, do Tibet e do Nepal. O problema é que um dos maridos costuma matar o outro por ciúme. Para acalmar o instinto, algumas sociedades só permitem que pares de irmãos compartilhem a mesma mulher. Mas só até que um deles consiga juntar riquezas para comprar uma garota exclusiva.

Para saber mais

http://www.econ.ucsb.edu/~tedb/Evolution/polygyny3.pdf – On the Economics of Polygyny, Theodore Bergstrom

http://www.stanford.edu/~tertilt/research/polygyny05.pdfwww.stanford.edu/~tertilt/research/polygyny05.pdf – Polygyny, Fertility and Savings, Michèlle Tertilt