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Nicolau II, o tirano que virou santo

Nicolau II foi o último czar russo – e também um dos mais cruéis. Mas, 100 anos após a execução dos Romanov, a família vive uma onda de popularidade

 (Estevan Silveira/Superinteressante)

Nicolau II levantou assustado naquela madrugada. O médico Eugene Botkin interrompeu o sono do czar para transmitir uma ordem dos líderes da Revolução Russa, que estavam mudando o país de cima a baixo. Os membros da família imperial Romanov deveriam descer ao porão da casa Ipatiev, onde estavam exilados. Aquela era a 87ª noite de Nicolau na longínqua Ecaterimburgo, cidade na porção leste dos Urais, a cordilheira que faz a fronteira natural entre as Rússias europeia e asiática. Ele estava a mais de 2,2 mil quilômetros de casa, e sua cidade já não era mais a mesma. São Petersburgo, à época chamada de Petrogrado, após mais de 200 anos como capital, havia perdido o status para Moscou.

Enquanto descia os degraus que levavam ao subsolo da casa, 16 meses após renunciar ao trono do Império Russo, Nicolau olhava a esposa e os filhos. A czarina Alexandra estava muito pálida. As quatro filhas, sonolentas. O caçula, Alexei, um garoto de 14 anos debilitado, tinha os olhos fundos.

Quando chegaram ao porão, os Romanov ouviram sua sentença, lida pelo comando bolchevique local. Nicolau, Alexandra, Olga, Tatiana, Maria, Anastásia e Alexei foram fuzilados. Sobrou até para o médico, o criado Alexei Trupp, a camareira Anna Demidova e o cozinheiro Ivan Kharitonov, que acompanhavam a família. Após três séculos de domínio Romanov na Rússia, o caminho estava aberto para a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Cem anos depois da chacina daquele julho de 1918, o legado dos Romanov segue em disputa. Desde a queda do regime socialista, em 1991, os admiradores da família imperial realizam uma vigília em Ecaterimburgo a cada aniversário da execução. A concentração acontece em frente ao terreno da antiga casa Ipatiev, demolida em 1977. No lugar da mansão, foi erguida, em 2003, a Igreja do Sangue, edificação no estilo russo-bizantino, com cúpulas douradas.

Nas paredes internas, os Romanov aparecem pintados com as cabeças envoltas por auréolas, logo atrás de uma escultura do Cristo crucificado. Não apenas o monarca, mas todos os membros da família são considerados santos pela Igreja Ortodoxa Russa desde 2000.

Na madrugada de 17 de julho de 2018, que marcou o centenário das execuções, 100 mil fiéis viraram a noite em uma procissão de 21 quilômetros pelas ruas da cidade. Munidos de cruzes e objetos religiosos, eles avançavam a passos largos, liderados por Cirilo I, patriarca da Igreja Ortodoxa Russa (o equivalente ao Papa para católicos romanos). O ponto final da procissão era o fosso onde os bolcheviques enterraram os Romanov. O local é demarcado por um jardim de lírios brancos, as flores preferidas da imperatriz Alexandra.

Aos 86 anos, a moscovita Liubov Shalnova foi uma das mais velhas a completar o trajeto. “Quando eu era criança, meus pais me contaram que o czar havia sido ungido por Deus, e que ele cuidaria de cada detalhe da minha vida. É claro que eu acreditei”, recorda, sorrindo. Elena Svistunova, 52 anos, viajou mil quilômetros para estar aqui. Ela afirma que os Romanov deixaram uma lição de como se deve viver e morrer. “Eles sabiam que o país estava sofrendo e que por isso eles mesmos precisavam compartilhar desse sentimento”, acredita.

Nicolau II foi um czar ruim. Mas a forma como os Romanov morreram fizeram deles santos populares: 100 mil fiéis acompanharam a procissão no centenário do massacre, em Ecaterimburgo.

Fé e História

O santo difere um bocado do czar. A Rússia foi o último país europeu a abolir a monarquia absolutista. As últimas gerações foram caracterizadas pela violência sistemática do Estado. A repressão agravou-se com Nicolau II e chegou ao ápice em 22 de janeiro de 1905, quando a guarda imperial recebeu a tiros uma multidão de manifestantes que pediam melhores condições de trabalho. Foram mais de 2 mil mortes naquele dia, conhecido como Domingo Sangrento.

“Os bolcheviques inventaram muita mentira, mas o Domingo Sangrento não é uma invenção. É um fato histórico”, diz o historiador português José  Milhazes, autor de 11 livros sobre a política e os costumes da Rússia. No fim do reinado, o czar financiou o grupo paramilitar contrarrevolucionário Centenas Negras e deu carta branca para ataques a judeus e ucranianos oposicionistas. Preocupado em manter seu poder, ele também impediu o avanço de reformas que poderiam reduzir a desigualdade social na Rússia. “Havia os 3% da população que viviam maravilhosamente bem e uma pequena classe média, mas a grande maioria do povo vivia na miséria”, afirma Milhazes.

Dados levantados pelos pesquisadores Marisa Bittar e Amarilio Ferreira Junior, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Paulo, confirmam o abandono às políticas de acesso ao ensino na Rússia no período monárquico. “O maior desafio em 1917 era alfabetizar toda a população, pois a Revolução herdou uma situação gravíssima: no final do século 19, a Rússia era um dos países europeus com maior taxa de analfabetismo, com proporção entre 90 e 95% de iletrados”, escreve Bittar. “Na Rússia de 1913, com uma população de 160 milhões de habitantes, havia só 434 ginásios e 276 escolas profissionais, frequentados por apenas 160 mil crianças e adolescentes.”

Os relatos mais impactantes sobre a barbárie do regime imperial vieram à tona durante a URSS, quando o novo país se destacava em uma nova arte, o cinema. O clássico O Encouraçado Potemkin, de 1925, retrata uma revolta de marinheiros ocorrida 20 anos antes. O confronto com os militares pró-Romanov resultou em um novo massacre, cinco meses após o Domingo Sangrento. Na narrativa do diretor Sergei Eisenstein, o czar é representado pelo almirante Guiliarovsky, homem que ordenou que se servisse sopa de carne podre aos tripulantes – uma analogia à pobreza que assolava o país naquele período.

Enquanto milhões de camponeses analfabetos padeciam de fome e frio no período pré-revolucionário, a família imperial desfrutava de uma série de privilégios. Anastásia, a filha mais jovem do czar, era apaixonada por perfumes, música e jogos. Quando criança, gostava de pregar peças e dar rasteiras nos empregados. Fotografias do cotidiano dos Romanov expostas na maior galeria de arte de Ecaterimburgo mostram que, no início da década de 1910, quando os automóveis eram raridade na Rússia, Nicolau tinha mais de 50 exemplares na garagem. A narrativa é bem diferente na Igreja do Sangue, cujo museu exibe uma imagem da mesma época com a imperatriz e os filhos trabalhando como voluntários em prol de crianças tuberculosas.  No livro Os Romanov: O Fim da Dinastia, o historiador americano Robert K. Massie descreve a filha mais velha, Olga, como uma jovem altruísta, que pagou tratamentos médicos de crianças pobres. Ao lado da irmã Tatiana, ela ingressou na Cruz Vermelha como enfermeira durante a Primeira Guerra Mundial.

A czarina Alexandra era a menos popular dos sete. Conviveu por quase dez anos com indiretas e comentários maldosos sobre a “dificuldade de gerar um filho homem”. Para completar, quando enfim Alexei nasceu, ele era hemofílico e mal levantava da cama. Evidentemente, a “culpa” caía sobre a mãe. Narrativas posteriores sobre o cotidiano da família, que colocam em evidência a saúde frágil do menino, contribuíram para melhorar a imagem de Alexandra. De acordo com relatos dos servos, o casal costumava ser atencioso e delicado no cuidado com o filho e não media esforços para o seu tratamento. Mas de nada adiantou ser amável da porta para dentro. Nicolau II foi um czar individualista, ambicioso e prepotente. “Quando havia censeamento, ao preencher o campo ‘profissão’, ele escrevia ‘Senhor de Toda a Rússia’”, diz Milhazes.

O historiador britânico Robert Service analisou diários e documentos inéditos que amplificaram outro aspecto perverso da personalidade de Nicolau, o ódio aos judeus. Em entrevistas, Service descreveu o monarca como “fanático” e comparou seu antissemitismo ao de Adolf Hitler.

A nova Rússia

A canonização dos Romanov pela Igreja Ortodoxa Russa era uma demanda de vários líderes religiosos desde a década de 1920, mas só pôde ser encaminhada após a queda da URSS, a fim de evitar reações violentas do governo socialista. Na Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, sediada em Nova York, a família foi canonizada em 1981, quando o regime soviético, mesmo que decadente, ainda governava Moscou.

Não que a família imperial tenha operado algum milagre. O argumento que justificou a canonização sugere que as vítimas mantiveram à beira da morte uma atitude resignada e corajosa, a exemplo de Cristo. Na Rússia, eles são chamados de Portadores da Paixão, e monopolizaram a santidade do massacre. Se em Nova York o médico, o criado, o cozinheiro e a camareira também viraram santos, em Moscou ficaram de lado.

Os nove anos entre o fim da URSS e a canonização dos Romanov na Rússia se devem a uma série de objeções levantadas dentro da Igreja. Em primeiro lugar, a incompetência de Nicolau é quase consenso entre os historiadores (vez ou outra, ele é tido como um dos responsáveis pela queda do czarismo). Como poderia um czar ruim virar santo? Além disso, houve quem argumentasse que era preciso esperar a solução de todos os mistérios sobre o assassinato para se tomar uma decisão. Isso porque o massacre da família gerou uma das maiores teorias da conspiração do século passado: a suposta fuga da princesa Anastásia, que teria sobrevivido e poderia voltar para reclamar o trono e abalar o socialismo.

A Igreja Ortodoxa Russa ignora as evidências sobre a morte de dois Romanov. Tem dado certo: a parcela da população que se declara ortodoxa quase dobrou entre 1991 e 2015.

Os corpos dos Romanov foram transportados pelos bolcheviques para uma área conhecida como Porosyonkov Log, a sete quilômetros da casa. Na década de 1970, dois arqueólogos amadores de Ecaterimburgo seguiram os relatos dos guardas da casa Ipatiev e localizaram os restos mortais. O anúncio oficial dessa descoberta só veio em 1991, depois da queda da URSS. A hipótese de que faltavam duas ossadas reacendeu os rumores sobre a fuga de Anastásia e de um dos irmãos. Em 2007, um grupo de escavadores encontrou os restos que faltavam, a menos de cem metros dali – um exame de DNA comprovou que se tratava de Alexei e de uma das irmãs ainda não identificadas, Maria ou Anastásia. Como o exame dos ossos determina apenas o sexo e a idade aproximada, não se sabe se os restos pertenciam a Anastásia. Das duas uma: ou Anastásia estava junto do irmão ou sempre esteve na mesma cova dos pais.

As lideranças religiosas não aceitam as evidências científicas sobre as duas últimas ossadas. O patriarca Cirilo I pede novos testes de DNA. Ele dá a entender que esse assunto mexe com a fé das pessoas e que a Igreja deveria assumir o processo ou pelo menos acompanhá-lo de perto. Além disso, a execução continua inspirando teorias, e essa aura de mistério ajudaria manter o foco apenas na morte de Nicolau II (em que ele foi vítima) e não em sua vida como imperador (em que ele foi algoz).

Enquanto isso, a religião move multidões na Rússia. Especialistas sugerem que o movimento é resultado de relações estreitas com o governo de Vladimir Putin, que cumpre o quarto mandato como presidente. “A Igreja Ortodoxa Russa sempre teve pouca autonomia em relação ao poder político. O czar era o chefe da Igreja. Hoje há uma aliança com Putin. Ele a submete ao poder político, mas a ajuda a manter privilégios e influência”, explica Milhazes. Isso se reflete em medidas discriminatórias contra outras religiões. Em 2017, a Suprema Corte russa enquadrou as testemunhas de Jeová como um grupo extremista, após a divulgação de panfletos contra ortodoxos.

O atual apoio político contrasta com o tempo soviético, em que a Igreja era combatida. Além disso, Putin já enalteceu publicamente o czar-santo. Não à toa, o país vivencia algo raro em uma Europa cada vez menos religiosa. Uma pesquisa divulgada pelo Pew Research Center, dos EUA, diz que o número de russos que se declaram ortodoxos saltou de 37% em 1991 para 71% em 2015.  

Por mais que o teste de DNA pudesse ajudar a causa ortodoxa, já que ele comprovou a execução da família, os líderes religiosos preferem  ignorá-lo. Para milhões de famílias russas, a dúvida que paira sobre os cadáveres é inversamente proporcional à confiança na santidade dos Romanov.

EDIÇÃO Tiago Jokura e Felipe van Deursen