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A verdadeira face do czar russo Ivan, o Terrível

O primeiro czar arrasou cidades e matou milhares de pessoas. Mas também governou com seriedade e fez da Rússia uma nação moderna, a semente da qual nasceria um grande império mundial

Patrícia Jota

Era visível a surpresa dos antropólogos quando terminaram o estudo do esqueleto, que repousava em um sarcófago de mármore, na Basílica de Archangel, no Kremlin, sede do governo russo, em Moscou. Com ajuda de um computador, os cientistas haviam reconstituído a disposição dos ossos da face. Com isso, produziram a primeira imagem fiel de um dos fundadores da nação russa cuja obra política e personalidade controversa marcaram os quatro séculos seguintes da História.

Conhecido como Ivan, o Terrível, muitos artistas, no passado, o haviam pintado com semblante frio e mau. Mas em sua face nada havia que justificasse esse apelido, como comprovaram agora os cientistas russos. Na verdade, é provável que Ivan IV tenha merecido o cognome de Terrível, mas é certo que governou com inteligência e seriedade. Entre 1547 e 1584, ele partiu para novas conquistas fora dos limites do império russo, que já se encontrava consolidado como um Estado moderno — moldado a partir da massa de Estados menores, que geralmente eram apenas uma cidade ou um pequeno grupo de aldeias agrícolas. Assim nasceram França, Holanda, Espanha e outros países europeus: como uma colcha de retalhos em que passaram a viver sob a mesma bandeira os mais diferentes povos de costumes e línguas diversas.

Quem hoje vê os restos do gigantesco império soviético, assiste aos últimos momentos de uma história que começou no tempo de Ivan IV, no Período Moscovita, da História russa. “Ele foi uma figura forte e ambígua”, define a professora Arlete Cavaliere, da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. Em suas aulas, chama a atenção para a seriedade e a inteligência do soberano, e acrescenta: “Mas não media esforços para atingir seus objetivos. Mandava prender, matar. Tudo isso o levou à loucura no final da vida”.

De olhos azuis e barba castanha cobrindo-o desde a garganta até os ombros, ele ganhou celebridade menos por seus atos políticos do que pelas atrocidades que teria cometido. Na infância, por exemplo, atirava cachorros do alto das muralhas. Já czar da Rússia, mandou matar a mulher e o filho de um amigo, suspeito de traição. No final do reinado, seu exército invadiu a cidade de Novgorod, torturou e assassinou mais de 60 000 pessoas. Enfim, por medo de conspiração, dois anos antes de morrer, assassinou o filho com as próprias mãos.

No plano puramente político, seu trabalho foi levar adiante a tarefa do avô, Ivan III, que depois das tentativas de seus antecessores conseguiu, finalmente, unificar o país e outorgar-se o título de “chefe de todas as Rússias”. O pai, Vassili III, o grão-duque de Moscou, embora menos importante, merece registro por ter completado a unificação e iniciado a conquista de outras terras. Em 25 de agosto de 1530, Ivan IV nasceu da segunda mulher do pai, Helena Glinskaia — a primeira havia sido internada num convento por não poder ter filhos. O país, então, já era um reino. Já no final do século XV, territórios como Novgorod, Kiev, Tver faziam parte de um verdadeiro império, com a capital em Moscou.

O detalhe mais importante do governo de Ivan IV foi a expulsão definitiva dos tártaros — povos nômades da Ásia que nas décadas anteriores haviam ocupado cidades próximas ao império russo. Ivan, muito audacioso, queria expandir seus domínios e aproximar-se do Ocidente; queria intensificar o comércio e modernizar o país, até então isolado e muito atrasado, em comparação aos vizinhos europeus. Mas as primeiras conquistas do czar não foram no Ocidente, e sim a leste — rumo ao Rio Volga, sua rota para o Mar Cáspio e daí para a Sibéria. Assim, em 1552, enviou 39 000 homens contra Kazan, cuja população expulsou para longe.

Quatro anos depois, os moradores de Astrakan tiveram destino igual, dando aos moscovitas domínio sobre a navegação e o comércio no Volga. Era mais um passo rumo à ocupação da Sibéria. Ainda nessa época, Ivan tentou abrir uma rota direta para o oeste, e atacou a chamada Livônia, terra situada onde é hoje o norte da Polônia. Ou seja, junto ao Mar Báltico, que Ivan dizia ter as costas de prata e as águas de ouro. A guerra começou em 1558. Nesse caso, o cálculo foi mal feito: pressentindo o perigo, Polônia, Dinamarca, Suécia e Lituânia juntaram-se à Livônia, e depois de 24 anos de luta os moscovitas foram obrigados a se retirar.

Ao mesmo tempo, o czar havia aproveitado para pôr o país em ordem e intensificar o comércio interno, ainda precário. Também organizou, pela primeira vez, um exército permanente e estabeleceu contato mais firme com outros países. E uma surpresa: procurou melhorar as condições de vida das classes menos favorecidas. As canções populares de então sobreviveram nada menos que quatro séculos, atestando que a população reconheceu os favores do soberano. As pessoas humildes o idealizavam como defensor dos pobres contra a arbitrariedade e a injustiça dos grandes senhores.

Acontece, como muitas vezes se vê na História, que o julgamento popular é ambíguo. Assim, ao mesmo tempo que reconhecia os favores, admitia a imagem do czar como uma personalidade sádica, vítima de explosões selvagens e excessos políticos — também descritos em muitas canções do passado. E não é mesmo fácil interpretar esse conturbado período da História da Rússia. Antes mesmo que Ivan nascesse, já se previam tempos duros pela frente, muitas profecias anteciparam o papel do futuro governante. Um monge profetizou que o menino conquistaria Kazan, e uma princesa desse principado teria dito: “Entre o povo de Moscou nasceu um grão- duque que tem dois dentes. Com um nos devorará, com o outro devorará seu próprio reino”.

Três anos após o nascimento, a morte do pai fez de Ivan o grão-duque de Moscou. A viúva Helena assumiu o comando do Estado enquanto o filho não atingisse a maioridade, aos 15 anos. Ela não permaneceu muito tempo no poder. Helena foi envenenada, cinco anos mais tarde, provavelmente por incitação de um boiardo, da classe dos nobres russos, cujas famílias entregaram-se, de imediato, a uma tremenda luta pelo poder. Neste ambiente, cresceu o menino, rodeado não somente pelos boiardos, mas também pelos clérigos. Foi muito forte a influência de Macário, arcebispo de Moscou, sobre a educação do futuro governante.

A Igreja acreditava que a Rússia estava a caminho de se tornar uma nova Roma, e foi por isso que Macário insistiu no título de czar: termo equivalente ao de césar, ou imperador, na antiga Roma. Ivan IV empolgou-se com a idéia: reuniu a Assembléia Legislativa russa, anunciou que estava procurando uma noiva e que seria coroado czar, o que ocorreu na catedral de Assunção, no dia 16 de janeiro de 1547. Foi o primeiro governante a receber tal título. A escolha da noiva deveria seguir a tradição, em que as filhas dos nobres de todo o império desfilavam diante dos olhos do imperador.

Anastásia Romanova, pertencente a uma antiga família da nobreza, tornou-se, após o casamento em 3 de fevereiro de 1547, a primeira czarina russa. O casal simbolizaria um regime absolutista, esboçado já na época de Ivan III, mas cimentado pelo neto. O soberano seria visto como um enviado de Deus: a arma que ele usou para combater os boiardos, como declarou em cartas a governantes menores. Entre outras coisas, denuncia os nobres como forças desagregadoras. “Viram bem o que aconteceu quando fostes governadores e vice-reis das cidades: nada mais que destruição.”

Em outra carta, reforça seu poder: “Acaso roubei ou conquistei o trono pelas armas? Não. Nasci para governar pela graça de Deus.” Foram quase quarenta anos de conflito, em que Ivan instituiu leis diminuindo o poder dos oponentes e centralizando o poder no Estado. Os boiardos não podiam ocupar postos importantes; estavam fora do exército e da administração. Muitos foram expulsos das terras e outros tiveram que torná-las produtivas. Mas não deixaram por menos, conspirando em tempo integral contra o czar.

Cinco anos depois da coroação, Ivan caiu doente. Imaginando a morte próxima, mandou chamar os boiardos para que jurassem obediência ao filho Dmitri, ainda criança, e à czarina. Se morresse, Anastásia assumiria o poder até a maioridade do filho. Muitos boiardos recusaram-se a beijar a cruz porque, soube-se depois, planejavam nomear outro rei. Acabaram presos e executados. Isso, quando Ivan ainda não tinha o cognome “Terrível”. O amor por Anastásia fazia dele um homem equilibrado e tolerante. Tanto que sua pior derrota teria sido contra as forças da natureza, que em 1560 lhe tomaram a esposa amada.

Arrasado, o czar entregou-se à bebida e aos prazeres carnais. Até o final da vida, casou-se mais seis vezes. Começou assim o reino do terror, dias jamais esquecidos pela Rússia. Ivan declarou a intenção de abandonar o governo, mas com isso reuniu maior apoio: formou-se uma comissão de deputados com o objetivo de convencer o czar a ficar no poder. Muito astuto, ele impôs condições, como o direito de expulsar da corte todos os adversários, de realizar execuções sumárias e de confiscar bens. O resultado foi um compromisso que, em 1565, dividiu a Rússia ao meio.

Uma parte, denominada Oprichnina, ficou sob governo pessoal do czar; a outra, Zemschina, passou a ser administrada pelos boiardos, sob soberania formal do czar. Oprichnina ocupava a maior parte do Estado, as terras mais ricas e privilegiadas, no norte e no centro da Rússia, cujos proprietários foram expulsos. Ivan dispôs à sua volta os mais íntimos conselheiros, nobres de menor escalão e servos. Além disso, teve o cuidado de recompensar os servos mais fiéis com lotes de terras, por serviços prestados. Era mais um meio de enfraquecer a antiga classe feudal hereditária. A medida fez surgir a classe dos servos proprietários, que chegou a ocupar as melhores regiões.

O instrumento mais aterrorizante na luta entre os boiardos e Ivan foi o novo exército criado pelo czar, o oprichniki, formado por 6 000 homens, fardados de preto. Basta ver a expedição punitiva que empreendeu, em 1570, contra Nov-gorod. Por suspeita de que seus habitantes tramavam contra o império, a cidade foi deixada em ruínas e muitos moradores foram humilhados, obrigados a desfilar em praça pública, antes de serem fuzilados. Desde então, passou-se a associar a palavra “terrível” ao nome de Ivan. O fato, porém, é que a Rússia estava em guerra com ela mesma, e seus inimigos externos percebiam isso claramente.

Então, um ano após a chacina de Novgorod, 120 000 tártaros da Criméia marcharam contra Moscou e incendiaram a cidade, abrindo os olhos da nação para o perigo das disputas internas. Rapidamente, a Rússia se reorganizou. Alguns meses depois do primeiro ataque tártaro, repeliu uma segunda investida contra Moscou. Em seguida, desfez a divisão do país em dois pedaços artificiais. Quando Oprichnina sumiu do mapa, o reinado de Ivan IV chegava ao fim. Ele ainda iniciou, em 1582, sua última campanha: a conquista da gigantesca Sibéria, nos confins gelados da Ásia. Mas já não controlava as faculdades mentais havia alguns meses, por ter matado o filho Ivan Ivanovich, num acesso de fúria. De madrugada perambulava pelo palácio e aplicava castigos a si mesmo. Os empregados o encontravam caído no chão, pela manhã. O remorso, com certeza, foi a pior das dores que o terrível czar conheceu às vésperas da morte. Infeliz, sossegou, finalmente, em 18 de março de 1584. As portas da Sibéria estavam definitivamente abertas para os russos.

 

 

Rússia: História em quatro capítulos

A partir do século IX, a linha do tempo atravessa os períodos kievano, moscovita. Depois, peterburguês e moscovita novamente, durante os quais o país passou de um terrítório fragmentado a grande potência mundial