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O buraco é mais embaixo

Se o mundo inteiro concorda que é preciso controlar o aquecimento global, por que é que o problema não pára de aumentar?

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h28 - Publicado em 28 fev 2007, 22h00

Texto Eduardo Szklarz e Sérgio Gwercman

Então estamos de acordo: com a divulgação do relatório sobre o clima do IPCC, o painel de meteorologistas criado pela ONU, não há mais dúvidas de que o mundo está ficando perigosamente quente, o culpado é o homem e este é um problema seríssimo. Os primeiros alertas sobre o aquecimento surgiram nos anos 70, mas até há pouco tempo falar disso era coisa de ecochato. Agora é fashion, como provou a São Paulo Fashion Week ao escolher como tema a sustentabilidade e mostrar estilistas prometendo plantar árvores. Fica desde já oficializado que, na história do debate ambiental, 2007 foi o ano em que fizemos consenso.

E como foi que de uma hora para outra o planeta concordou sobre a ameaça? Bem, você precisaria ser cego, surdo e turrão para insistir que não havia algo de errado com o clima após uma seqüência de 5 anos batendo recordes históricos de temperatura. Ou depois de assistir ao documentário Uma Verdade Inconveniente. Ou após o furacão Katrina devastar Nova Orleans e o inverno europeu não ver a cor da neve. Ou escutando líderes políticos e empresariais reunidos em Davos, na Suíça, concordar que a mudança climática é o tema mais importante do mundo. Ou ao saber que George W. Bush (pasmem e aleluia!) se comprometeu pela primeira vez a limitar o consumo de combustíveis fósseis. Ou ao ler o relatório do IPCC afirmando que os efeitos do aquecimento são irreversíveis nos próximos 100 anos.

Lindo. Constatar que o mundo chegou a um acordo é ótima notícia – para resolver um problema, o primeiro passo é admiti-lo. O diabo é que essa também é a parte mais fácil. Na hora de arregaçar as mangas, o buraco é mais embaixo. As emissões de carbono seguem crescendo ano a ano. E, se as propostas contra o aquecimento existem, suas aplicações exigem sacrifício. Em última instância, passam pelo modo como a sociedade global se organiza. E como você – isso, você mesmo – leva a vida.

O problema é seu

O primeiro motivo para a histórica falta de ação dos governos no combate ao aquecimento é o de sempre: interesses econômicos. Em 2006, a petrolífera Exxon Mobil lucrou um recorde de US$ 39,5 bilhões, o maior já registrado na história dos EUA. Para manter essa dinheirama, a indústria do petróleo faz de tudo – por exemplo, paga cientistas para “provar” que o aquecimento global é blablablá. Contrariar gente poderosa assim é sempre difícil. Mas a questão vai além. Se as petroleiras lucram, é porque nós compramos o que elas vendem. E não é só para encher o tanque do carro. Seis horas de vôo lançam tantos gases na atmosfera quanto um ano andando de carro. Mas como reduzir as viagens de avião neste mundo globalizado?

Europa, EUA e China dependem da queima de combustíveis fósseis para gerar eletricidade – e isso quer dizer que cada ventilador chinês que você compra para aliviar o calor contribui para aumentá-lo. Os fertilizantes, que impulsionam a agricultura e colocam comida no nosso prato, emitem um gás 310 vezes mais poluente que o CO2. Mas como alimentar 6 bilhões de pessoas sem usá-los? (Leia mais na página 34.) E, é claro, existe você. Que franze a sobrancelha de preocupação ao ler este texto, mas tem um punhado de desculpas à mão para explicar por que é inviável trocar o carro pela bicicleta a caminho do trabalho. Ou seja, diminuir de repente a emissão de gases não afetaria apenas os lucros astronômicos de multinacionais – pode causar também crise econômica global, uma recessão assustadora e fome generalizada.

Resumindo: não há meio de resolver o aquecimento global sem que a maior parte dos habitantes do globo sofra um enorme impacto na rotina. Sozinho, você pode até fazer sua parte e começar a salvar o planeta (na página 38, você aprenderá como pode fazer isso), mas precisamos de soluções mais abrangentes. E aí entra a boa notícia: com o consenso alcançado, os cientistas podem parar de se preocupar em provar que o problema existe e se concentrar em discutir propostas para resolvê-lo.

Uma das mais interessantes é cobrar impostos sobre o carbono, encarecendo os produtos que causam o aquecimento global. A idéia, já adotada nos países escandinavos, é simples: como a espécie humana provou se preocupar mais com dinheiro do que com qualquer outra coisa, então façamos com que as opções mais baratas do supermercado sejam as ecologicamente corretas (a taxa também serviria como estímulo para a indústria desenvolver produtos limpos). A energia atômica, antiga vilã, é a bola da vez para o lugar do carvão como fonte de eletricidade – ela pra­ti­ca­men­te não emite gases. Os fer­tilizantes, bem, as­sim co­mo os aviões, eles ainda buscam um substi­tuto vi­ável – tampouco há solução à vista con­tra o lobby do petróleo. E as propostas mais conhecidas continuam valendo, ainda que sua implantação seja muito mais difícil do que nos prometeram: o respeito ao Protocolo de Kyoto, que mal entrou em ação e já está defasado por ser esnobado pelos EUA e não obrigar os grandes poluidores Brasil, China e Índia a reduzir emissões; e o fortalecimento de um mercado de carbono, que faz paí­ses não poluentes lucrar vendendo “quotas de poluição” a quem quer poluir, que até agora teve resultados pouco animadores. As cartas do jogo estão postas na mesa e as regras, definidas. Agora falta a parte difícil: começar a jogar. É o único jeito de termos chance de vencer o adversário.

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