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O muro de Berlim não separava as duas Alemanhas

Ele ficava inteirinho na Alemanha Oriental, cercando a metade capitalista da cidade

Não confunda alhos com bugalhos. O Muro de Berlim, maior símbolo da Guerra Fria, nunca separou as Alemanhas. Ele nem sequer foi construído na fronteira entre os dois países. Ficava inteirinho na Alemanha Oriental, isolando a parte ocidental da cidade de Berlim. Na prática, formava uma ilha capitalista, cercada de regime comunista por todos os lados. Foi assim de 1961, ano do início da sua construção, até o dia 9 de novembro de 1989, quando teve seus primeiros pedaços derrubados.

A história do muro começa a ser escrita logo depois da 2ª Guerra Mundial. Com a derrota dos nazistas, em 1945, Berlim (ex-capital do 3º Reich, de Adolf Hitler), foi dividida em quatrp zonas de influência, respectivamente controladas por França, Grã-Bretanha, EUA e URSS. O conflito ideológico entre as forças aliadas, especialmente entre americanos e soviéticos, acabou levando à partilha de todo o território alemão ocupado. A metade ocidental coube aos capitalistas. A oriental, aos comunistas. Mas Berlim, que já estava repartida, ficou inteira dentro da Alemanha Oriental. Para resolver o impasse sobre a posse da cidade, em 1949 ela também foi dividida em duas. Surgia, assim, a ilha de capitalismo que, mais tarde, seria inteiramente cercada por um muro.

Fuga em massa

Erguer uma barreira que isolasse Berlim Ocidental foi a solução que os dirigentes comunistas encontraram para conter a fuga em massa de profissionais qualificados. “A existência de um oásis capitalista bem em frente ao setor soviético criava problemas de convivência”, diz Angelo Segrillo, professor de história contemporânea da USP. Antes mesmo da divisão oficial de Berlim, entre junho de 1948 e maio de 1949, tanques soviéticos cercaram todo o setor capitalista da cidade. Durante aqueles nove longos meses, seus habitantes dependeram de suprimentos entregues por aviões saídos da Alemanha Ocidental para sobreviver.

Quando as tropas se retiraram, os orientais instalaram barricadas nas ruas de conexão entre os dois lados da cidade e cortaram as ligações telefônicas. Como nada disso adiantou, o jeito foi isolar o lado ocidental. Resultado da chamada Operação Rosa, preparada durante seis meses, o cerco começou na madrugada de um domingo, 13 de agosto de 1961. Ao ser concluído, o muro tinha 155 quilômetros. As tentativas de fuga nunca deixaram de acontecer – afinal, a partir de Berlim Ocidental era possível pegar um avião para qualquer parte do mundo capitalista. Em 38 anos de existência, a barreira foi burlada por mais de 5 mil pessoas. Pelo menos 150 morreram tentando driblá-la.

Veja também

Símbolo da Guerra Fria

Berlim Ocidental era uma ilha de capitalismo cercada de regime comunista por todos os lados

1. Postos policiais

As passagens de alemães orientais para o lado ocidental eram limitadas a 11 postos policiais. O mais famoso se chamava Checkpoint Charlie, na divisa entre os setores soviético e americano. Foi ali que, em outubro de 1961, dez tanques dos EUA e 33 da URSS ficaram frente a frente durante 16 horas. Por muito pouco não teve início uma guerra.

2. Visitas autorizadas

Era possível visitar o lado ocidental de Berlim legalmente, desde que a pessoa tivesse um passe. A autorização demorava cerca de quatro semanas para sair, e as visitas aconteciam em datas predeterminadas. Ainda era preciso pagar uma espécie de pedágio para atravessar. Existiam algumas poucas exceções, como os ocidentais “emprestados” para trabalhar em obras de engenharia do outro lado.

3. Barreira em expansão

No início, a barreira que isolava Berlim Ocidental era constituída apenas de rolos de arame farpado. Alguns meses depois, tornou-se um misto de arame, placas de madeira e muros baixos. Mas esse tipo de barreira não conseguia impedir a fuga de alemães orientais. O crescente número de fugitivos levou o governo comunista a convertê-la num complexo sistema de segurança, com sentinelas em torres de observação, muros altos e um espaço entre eles.

4. Tráfego alterado

O muro alterou profundamente o trânsito de Berlim. Do dia para a noite, avenidas que atravessavam de um lado para o outro ficaram sem saída. Numa linha de trem que partia do lado ocidental, entrava pelo oriental e voltava, criou-se uma situação inusitada: as duas estações subterrâneas do lado comunista foram fechadas e pararam no tempo. Durante décadas, os ocidentais que passavam por ali se deparavam com cartazes de 1961.

5. Tentativas de fuga

Os planos de fuga para Berlim Ocidental tiveram de ficar cada vez mais ousados e arriscados à medida que o muro era melhorado. Em dezembro de 1961, o maquinista Harry Deterling invadiu o lado ocidental com o trem que ele conduzia, na altura da estação de Albrechtshof, levando 32 familiares e amigos a bordo. Ao longo da história, centenas de pessoas escaparam por tubulações de esgoto.